quinta-feira, 12 de abril de 2018

OGRO NEGÓCIO: QUEM ATIROU EM LULA QUERIA MATAR O MST

Tiros disparados contra os ônibus da caravana de Lula no último dia 27 de março no interior 
do Paraná vieram de fazenda pertencente a Leandro Langwinski Bonotto, que possui histórico 
de enfrentamento com o MST, além de ser investigado por ameaça de homicídio a lideranças 
políticas locais e que declara abertamente seus sentimentos de raiva e rancor tanto por Lula 
quanto pelo MST; Bonotto nega envolvimento nos disparos contra a caravana.

Os tiros disparados contra os ônibus da caravana de Lula no último dia 27 de março no interior do 
Paraná vieram de uma fazenda pertencente a um homem com histórico de enfrentamento com o 
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, investigado por ameaça de homicídio a lideranças 
políticas locais e que declara abertamente seus sentimentos de raiva e rancor tanto por Lula quanto 
pelo MST.
Seu nome é Leandro Langwinski Bonotto. Ele é fazendeiro, tem 45 anos e mora na cidade de Quedas 
do Iguaçu. A delegacia de Laranjeiras do Sul investiga denúncias recebidas contra ele e disse que 
solicitará ao chefe de polícia do município vizinho os autos referentes ao suspeito. Bonotto nega 
qualquer envolvimento com os disparos e afirma que, quando efetuados, não estava na propriedade.
Dias antes do juiz Sérgio Moro expedir o mandado de prisão de Lula e confiná-lo em Curitiba, o ex-
presidente fazia um périplo pela região Sul do País, uma das etapas da “Caravana pelo Brasil”, o 
quarto ciclo nacional de viagens para encontrar eleitores.
Além dos milhares de habitantes que foram ao encontro de Lula em cada um dos municípios por 
onde passou, nesta caravana assistiu-se pela primeira vez a um movimento pequeno, organizado 
majoritariamente por apoiadores do deputado Jair Bolsonaro, de confronto violento com o ex-
presidente e sua comitiva.
O "tratoraço" convocado por ruralistas no município de Bagé, logo no início da caravana, com a 
leniência da polícia estadual, seguidos de pedradas e ameaças com barras de aço, seria padrão em 
praticamente toda caravana, Em São Borja foram socos, chutes e até chicotadas. Houve bloqueio de 
estrada em Passo Fundo, dezenas de ovos atirados em Chapecó, ovos e pedradas a caminho do 
Paraná.
A escalada, denunciada diariamente às autoridades de segurança e ao público pelas lideranças do PT, 
chegou ao ápice entre os municípios de Quedas do Iguaçu e Laranjeiras do Sul, no oeste paranaense.
Na rodovia PR-473, no trecho entre as duas cidades, um agressor acertou dois tiros num dos ônibus 
da caravana que levava jornalistas escalados para a cobertura da viagem. Uma das balas, disparada a 
menos de 20 metros do veículo movimento, atingiu e perfurou a fuselagem lateral. O segundo 
projétil ricocheteou num dos vidros das poltronas dos passageiros, sem quebrá-lo.
Assista ao vídeo no qual os Bonotto negam o envolvimento no atentado contra a caravana:
Desde o ocorrido, em 27 de março, a Polícia Civil do Paraná investiga a autoria dos disparos. Até 
agora, apenas um nome chegou às autoridades, que trabalha com depoimentos de quem estava no 
ônibus, laudo pericial das balas e do possível local dos disparos e testemunhos de quem vive e 
conhece a região em que o crime ocorreu.
Que foi um crime, não se discute. Dano, disparo de arma fogo e tentativa de homicídio são os tipos 
penais possíveis. A descoberta da autoria e sua motivação definirão todos os elementos do caso. Por 
ora, o que existe é um conjunto de indícios que afunila essa investigação, ainda longe de ser 
encerrada.
O local dos disparos
O jornalista Antonio Alonso Junior, um dos autores desta reportagem, estava no ônibus alvejado. 
Tem vivo na memória o momento do ocorrido. Colocou à disposição da polícia todos as informações 
que registrou. Os dados da perícia corroboram sua lembrança e anotações.
O local de onde partiram os tiros fica na altura do quilômetro 29 da rodovia PR-473, um gramado 
verde e rasteiro que se estende por cerca de 100 metros ao longo do lado direito da estrada para 
quem segue de Quedas do Iguaçu para Laranjeiras. A pequena clareira contrasta com a vegetação 
fechada, as grandes plantações e as pastagens que preenchem os arredores.
Conhecido o local, com base no horário das imagens feitas em diferentes pontos do caminho, é 
possível afirmar que o ataque aconteceu entre 16h51 e 17h14 de 27 de março.
No ônibus, não se escutou os estampidos da arma. Ouviu-se o impacto dos projéteis contra a lataria e 
o vidro do carro. De início, ninguém sabia tratar-se de um atentado armado. Era o oitavo dia de 
caravana e o ônibus havia sido alvo de diversos outros ataques. Mas aquele som era diferente, seco, 
mais rápido, um pouco mais agudo.
Segundos se passaram e não aconteceu a esperada chuva de pedras. Veio então o segundo tiro. Desta 
vez, uma marca no vidro e um zumbido no ouvido da jornalista ao lado da janela atingida. Não se 
viu ninguém na área de grama baixa. Mais alguns metros e o ônibus seguiu em frente em um trajeto 
ladeado por mata fechada.

Vista aérea da fazenda e da rodovia (Fonte: Arquivo Pessoal)

Só 30 minutos após os disparos o ônibus parou, quando o motorista avisou que os pneus tinham sido 
furados por “miguelitos”, pregos retorcidos atirados na rodovia para sabotar a caravana. Só ali, 
alguns quilômetros distante dos disparos, foi possível constatar a segunda marca de bala, na lataria.
A perícia da Polícia Civil do Paraná confirma que os tiros foram dados de uma altura elevada em 
relação ao ônibus, possivelmente de cima de um barranco ou árvore. O local exato do ataque fica em 
um barranco com árvores. O primeiro tiro foi disparado logo depois de o ônibus ter passado, a uma 
distância de 19 metros. O segundo foi dado a uma distância bem maior, provavelmente mais de 50 
metros, e de um ângulo muito mais fechado. Por isso, a bala não teve força para quebrar o vidro.
O dono da área
Não se sabe se o agressor invadiu a fazenda ou se estava lá, o que se sabe é que a região dos disparos 
(identificação feita por mais de uma testemunha que estava no ônibus) é parte de uma propriedade 
situada nos limites do pequeno município de Espigão do Alto do Iguaçu, entre Quedas e Laranjeiras.
Ela pertence a Leandro Bonotto, morador de Quedas do Iguaçu. No local, mora seu pai, o fazendeiro 
Jocemino Bonotto. Em conversa com a reportagem, ambos negaram envolvimento com os disparos.
“Não sei, não ouvi nada, que eu saiba esses tiros foram a uns 15 ou 20 quilômetros daqui”, afirmou 
Jocemino em entrevista a poucos metros do local identificado.
“Não sei de nada disso. Eu estava em casa na hora dos tiros”, disse Leandro, sem abrir o portão para 
receber a reportagem. Sobre sua relação com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, que 
mantém acampamentos e assentamentos na região, e sobre o que achava de Lula e da caravana, disse 
não ter opinião formada nem nada contra o movimento rural ou o ex-presidente.
Processos judiciais em andamento, boletins de ocorrência, denúncias de ameaça de homicídio e 
testemunhos dos cidadãos do município de Quedas do Iguaçu contradizem, porém, o fazendeiro.
A família Bonotto disputa desde a década de 1990 a posse e a propriedade de terras da região 
destinadas pelo Incra à reforma agrária. Um assentamento do MST prosperou durante 11 anos, até 
que os Bonotto, em 1999, obtiveram na Justiça uma ordem precária (provisória) de reintegração de 
posse, e mais de 300 famílias foram removidas da propriedade.
Os tratores destruíram as casas, plantações e instalações de animais. Em 2003, no primeiro ano do 
governo Lula, o MST voltou a ocupar o terreno, beneficiado por uma decisão judicial em favor do 
Incra, que voltou a destinar a terra à reforma agrária.

Provável ponto dos disparos (Foto: Felipe Kfouri)

Ao todo, de acordo com dados de processos públicos protocolados no Tribunal Regional Federal da 
4ª Região, as ações judiciais nas quais figura o patriarca Jocemino Bonotto em disputas de terra com 
o Incra e o MST somam 15,49 milhões de reais. São 49 processos judiciais administrativos e dois 
criminais, estes em segredo de Justiça. Leandro Bonotto é parte de 53 ações e o montante envolvido 
chega a 15,36 milhões.
Leandro é descrito como um homem enérgico, sempre armado e que não leva desaforo para casa. 
“Aqui neste bar mesmo ele disse que passou duas vezes em frente ao hotel onde estavam 
estacionados os ônibus do Lula, mas que não fez nada ali porque tinha muita gente”, afirma um 
morador da cidade que pede anonimato.
Em janeiro do ano passado, a Ouvidoria Agrária do Incra na região, por meio do ouvidor Raul Cezar 
Bergold, recebeu a denúncia de que Bonotto e um grupo de fazendeiros preparavam o assassinato de 
três lideranças do MST, incluído um advogado e ex-vereador de Quedas do Iguaçu. Lavrou-se um 
Boletim de Ocorrência na delegacia local. O ouvidor do Incra foi além: fez um relatório sobre o caso 
e enviou ao Ministério Público do Paraná, à Secretaria de Segurança estadual e à Secretaria Nacional 
de Direitos Humanos.
O relatório, de 16 de janeiro de 2017, solicita:

“Diante da denúncia e das informações que apresentamos, pedimos que as ações de sua competência 
sejam adotadas, sobretudo para a prevenção do conflito e para a proteção da vida e da integridade 
das pessoas indicadas, bem como de outras que estariam envolvidas no considerado conflito, 
colocando-nos à disposição para esclarecimentos e providências conjuntas que se façam 
necessárias.” 
O BO foi registrado na delegacia de Quedas do Iguaçu sob o número 2017/95984, em 24 de janeiro 
do ano passado, às 15h36, com a descrição de “AMEAÇA CONSTATADA - CRIMES CONTRA A 
PESSOA”.
O delegado Elder Lauria, responsável pela investigação sobre os tiros na caravana de Lula, informou 
à reportagem que vai solicitar à delegacia de Quedas do Iguaçu uma cópia do boletim de ocorrência, 
bem como relatos dos desdobramentos. Informou ainda que a polícia investiga as denúncias que 
chegaram e “levará autos da investigação com as informações sobre este caso”.
De acordo com o delegado, Leandro Bonotto e seu pai serão chamados a depor.

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