
Tiros disparados contra os ônibus da caravana de Lula no último dia 27 de março no interior
do Paraná vieram de fazenda pertencente a Leandro Langwinski Bonotto, que possui histórico
de enfrentamento com o MST, além de ser investigado por ameaça de homicídio a lideranças
políticas locais e que declara abertamente seus sentimentos de raiva e rancor tanto por Lula
quanto pelo MST; Bonotto nega envolvimento nos disparos contra a caravana.
Os tiros disparados contra os ônibus da caravana de Lula no último dia 27 de março no interior do
Paraná vieram de uma fazenda pertencente a um homem com histórico de enfrentamento com o
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, investigado por ameaça de homicídio a lideranças
políticas locais e que declara abertamente seus sentimentos de raiva e rancor tanto por Lula quanto
pelo MST.
Seu nome é Leandro Langwinski Bonotto. Ele é fazendeiro, tem 45 anos e mora na cidade de Quedas
do Iguaçu. A delegacia de Laranjeiras do Sul investiga denúncias recebidas contra ele e disse que
solicitará ao chefe de polícia do município vizinho os autos referentes ao suspeito. Bonotto nega
qualquer envolvimento com os disparos e afirma que, quando efetuados, não estava na propriedade.
Dias antes do juiz Sérgio Moro expedir o mandado de prisão de Lula e confiná-lo em Curitiba, o ex-
Dias antes do juiz Sérgio Moro expedir o mandado de prisão de Lula e confiná-lo em Curitiba, o ex-
presidente fazia um périplo pela região Sul do País, uma das etapas da “Caravana pelo Brasil”, o
quarto ciclo nacional de viagens para encontrar eleitores.
Além dos milhares de habitantes que foram ao encontro de Lula em cada um dos municípios por
Além dos milhares de habitantes que foram ao encontro de Lula em cada um dos municípios por
onde passou, nesta caravana assistiu-se pela primeira vez a um movimento pequeno, organizado
majoritariamente por apoiadores do deputado Jair Bolsonaro, de confronto violento com o ex-
presidente e sua comitiva.
O "tratoraço" convocado por ruralistas no município de Bagé, logo no início da caravana, com a
leniência da polícia estadual, seguidos de pedradas e ameaças com barras de aço, seria padrão em
praticamente toda caravana, Em São Borja foram socos, chutes e até chicotadas. Houve bloqueio de
estrada em Passo Fundo, dezenas de ovos atirados em Chapecó, ovos e pedradas a caminho do
Paraná.
A escalada, denunciada diariamente às autoridades de segurança e ao público pelas lideranças do PT,
A escalada, denunciada diariamente às autoridades de segurança e ao público pelas lideranças do PT,
chegou ao ápice entre os municípios de Quedas do Iguaçu e Laranjeiras do Sul, no oeste paranaense.
Na rodovia PR-473, no trecho entre as duas cidades, um agressor acertou dois tiros num dos ônibus
Na rodovia PR-473, no trecho entre as duas cidades, um agressor acertou dois tiros num dos ônibus
da caravana que levava jornalistas escalados para a cobertura da viagem. Uma das balas, disparada a
menos de 20 metros do veículo movimento, atingiu e perfurou a fuselagem lateral. O segundo
projétil ricocheteou num dos vidros das poltronas dos passageiros, sem quebrá-lo.
Assista ao vídeo no qual os Bonotto negam o envolvimento no atentado contra a caravana:
agora, apenas um nome chegou às autoridades, que trabalha com depoimentos de quem estava no
ônibus, laudo pericial das balas e do possível local dos disparos e testemunhos de quem vive e
conhece a região em que o crime ocorreu.
Que foi um crime, não se discute. Dano, disparo de arma fogo e tentativa de homicídio são os tipos
Que foi um crime, não se discute. Dano, disparo de arma fogo e tentativa de homicídio são os tipos
penais possíveis. A descoberta da autoria e sua motivação definirão todos os elementos do caso. Por
ora, o que existe é um conjunto de indícios que afunila essa investigação, ainda longe de ser
encerrada.
O local dos disparos
O jornalista Antonio Alonso Junior, um dos autores desta reportagem, estava no ônibus alvejado.
O local dos disparos
O jornalista Antonio Alonso Junior, um dos autores desta reportagem, estava no ônibus alvejado.
Tem vivo na memória o momento do ocorrido. Colocou à disposição da polícia todos as informações
que registrou. Os dados da perícia corroboram sua lembrança e anotações.
O local de onde partiram os tiros fica na altura do quilômetro 29 da rodovia PR-473, um gramado
verde e rasteiro que se estende por cerca de 100 metros ao longo do lado direito da estrada para
quem segue de Quedas do Iguaçu para Laranjeiras. A pequena clareira contrasta com a vegetação
fechada, as grandes plantações e as pastagens que preenchem os arredores.
Conhecido o local, com base no horário das imagens feitas em diferentes pontos do caminho, é
possível afirmar que o ataque aconteceu entre 16h51 e 17h14 de 27 de março.
No ônibus, não se escutou os estampidos da arma. Ouviu-se o impacto dos projéteis contra a lataria e
No ônibus, não se escutou os estampidos da arma. Ouviu-se o impacto dos projéteis contra a lataria e
o vidro do carro. De início, ninguém sabia tratar-se de um atentado armado. Era o oitavo dia de
caravana e o ônibus havia sido alvo de diversos outros ataques. Mas aquele som era diferente, seco,
mais rápido, um pouco mais agudo.
Segundos se passaram e não aconteceu a esperada chuva de pedras. Veio então o segundo tiro. Desta
Segundos se passaram e não aconteceu a esperada chuva de pedras. Veio então o segundo tiro. Desta
vez, uma marca no vidro e um zumbido no ouvido da jornalista ao lado da janela atingida. Não se
viu ninguém na área de grama baixa. Mais alguns metros e o ônibus seguiu em frente em um trajeto
ladeado por mata fechada.
Vista aérea da fazenda e da rodovia (Fonte: Arquivo Pessoal)Só 30 minutos após os disparos o ônibus parou, quando o motorista avisou que os pneus tinham sido
furados por “miguelitos”, pregos retorcidos atirados na rodovia para sabotar a caravana. Só ali,
alguns quilômetros distante dos disparos, foi possível constatar a segunda marca de bala, na lataria.
A perícia da Polícia Civil do Paraná confirma que os tiros foram dados de uma altura elevada em
relação ao ônibus, possivelmente de cima de um barranco ou árvore. O local exato do ataque fica em
um barranco com árvores. O primeiro tiro foi disparado logo depois de o ônibus ter passado, a uma
distância de 19 metros. O segundo foi dado a uma distância bem maior, provavelmente mais de 50
metros, e de um ângulo muito mais fechado. Por isso, a bala não teve força para quebrar o vidro.
O dono da área
Não se sabe se o agressor invadiu a fazenda ou se estava lá, o que se sabe é que a região dos disparos
O dono da área
Não se sabe se o agressor invadiu a fazenda ou se estava lá, o que se sabe é que a região dos disparos
(identificação feita por mais de uma testemunha que estava no ônibus) é parte de uma propriedade
situada nos limites do pequeno município de Espigão do Alto do Iguaçu, entre Quedas e Laranjeiras.
Ela pertence a Leandro Bonotto, morador de Quedas do Iguaçu. No local, mora seu pai, o fazendeiro
Ela pertence a Leandro Bonotto, morador de Quedas do Iguaçu. No local, mora seu pai, o fazendeiro
Jocemino Bonotto. Em conversa com a reportagem, ambos negaram envolvimento com os disparos.
“Não sei, não ouvi nada, que eu saiba esses tiros foram a uns 15 ou 20 quilômetros daqui”, afirmou
“Não sei, não ouvi nada, que eu saiba esses tiros foram a uns 15 ou 20 quilômetros daqui”, afirmou
Jocemino em entrevista a poucos metros do local identificado.
“Não sei de nada disso. Eu estava em casa na hora dos tiros”, disse Leandro, sem abrir o portão para
“Não sei de nada disso. Eu estava em casa na hora dos tiros”, disse Leandro, sem abrir o portão para
receber a reportagem. Sobre sua relação com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, que
mantém acampamentos e assentamentos na região, e sobre o que achava de Lula e da caravana, disse
não ter opinião formada nem nada contra o movimento rural ou o ex-presidente.
Processos judiciais em andamento, boletins de ocorrência, denúncias de ameaça de homicídio e
Processos judiciais em andamento, boletins de ocorrência, denúncias de ameaça de homicídio e
testemunhos dos cidadãos do município de Quedas do Iguaçu contradizem, porém, o fazendeiro.
A família Bonotto disputa desde a década de 1990 a posse e a propriedade de terras da região
A família Bonotto disputa desde a década de 1990 a posse e a propriedade de terras da região
destinadas pelo Incra à reforma agrária. Um assentamento do MST prosperou durante 11 anos, até
que os Bonotto, em 1999, obtiveram na Justiça uma ordem precária (provisória) de reintegração de
posse, e mais de 300 famílias foram removidas da propriedade.
Os tratores destruíram as casas, plantações e instalações de animais. Em 2003, no primeiro ano do
Os tratores destruíram as casas, plantações e instalações de animais. Em 2003, no primeiro ano do
governo Lula, o MST voltou a ocupar o terreno, beneficiado por uma decisão judicial em favor do
Incra, que voltou a destinar a terra à reforma agrária.
Provável ponto dos disparos (Foto: Felipe Kfouri)
Provável ponto dos disparos (Foto: Felipe Kfouri)Ao todo, de acordo com dados de processos públicos protocolados no Tribunal Regional Federal da
4ª Região, as ações judiciais nas quais figura o patriarca Jocemino Bonotto em disputas de terra com
o Incra e o MST somam 15,49 milhões de reais. São 49 processos judiciais administrativos e dois
criminais, estes em segredo de Justiça. Leandro Bonotto é parte de 53 ações e o montante envolvido
chega a 15,36 milhões.
Leandro é descrito como um homem enérgico, sempre armado e que não leva desaforo para casa.
Leandro é descrito como um homem enérgico, sempre armado e que não leva desaforo para casa.
“Aqui neste bar mesmo ele disse que passou duas vezes em frente ao hotel onde estavam
estacionados os ônibus do Lula, mas que não fez nada ali porque tinha muita gente”, afirma um
morador da cidade que pede anonimato.
Em janeiro do ano passado, a Ouvidoria Agrária do Incra na região, por meio do ouvidor Raul Cezar
Em janeiro do ano passado, a Ouvidoria Agrária do Incra na região, por meio do ouvidor Raul Cezar
Bergold, recebeu a denúncia de que Bonotto e um grupo de fazendeiros preparavam o assassinato de
três lideranças do MST, incluído um advogado e ex-vereador de Quedas do Iguaçu. Lavrou-se um
Boletim de Ocorrência na delegacia local. O ouvidor do Incra foi além: fez um relatório sobre o caso
e enviou ao Ministério Público do Paraná, à Secretaria de Segurança estadual e à Secretaria Nacional
de Direitos Humanos.
O relatório, de 16 de janeiro de 2017, solicita:
“Diante da denúncia e das informações que apresentamos, pedimos que as ações de sua competência
O relatório, de 16 de janeiro de 2017, solicita:
“Diante da denúncia e das informações que apresentamos, pedimos que as ações de sua competência
sejam adotadas, sobretudo para a prevenção do conflito e para a proteção da vida e da integridade
das pessoas indicadas, bem como de outras que estariam envolvidas no considerado conflito,
colocando-nos à disposição para esclarecimentos e providências conjuntas que se façam
necessárias.”
O BO foi registrado na delegacia de Quedas do Iguaçu sob o número 2017/95984, em 24 de janeiro
do ano passado, às 15h36, com a descrição de “AMEAÇA CONSTATADA - CRIMES CONTRA A
PESSOA”.
O delegado Elder Lauria, responsável pela investigação sobre os tiros na caravana de Lula, informou
O delegado Elder Lauria, responsável pela investigação sobre os tiros na caravana de Lula, informou
à reportagem que vai solicitar à delegacia de Quedas do Iguaçu uma cópia do boletim de ocorrência,
bem como relatos dos desdobramentos. Informou ainda que a polícia investiga as denúncias que
chegaram e “levará autos da investigação com as informações sobre este caso”.
De acordo com o delegado, Leandro Bonotto e seu pai serão chamados a depor.
De acordo com o delegado, Leandro Bonotto e seu pai serão chamados a depor.
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