terça-feira, 11 de junho de 2019

Um balanço crítico do primeiro ano de Bayer-Monsanto


Desde 2012, o Brasil é o maior importador de agrotóxico do mundo / Monsanto
Por Lena Michelsen, Christian Russau e Sarah Schneider
Já faz praticamente um ano que a Bayer comprou a Monsanto por cerca de 56 bilhões de euros (ou
cerca de 245 bilhões de reais). Foi a maior aquisição da história das empresas alemãs. A corporação 
é agora líder mundial no mercado de sementes (34% das vendas totais) e, um pouco atrás da 
ChemChina (que adquiriu a Syngenta), a número dois no mercado de agrotóxicos (23%).
Logo após a aquisição, a Bayer anunciou: o nome Monsanto irá desaparecer. Os produtos, entretanto, 
manterão suas marcas e farão parte do portfólio da empresa. O que a Bayer igualmente comprou foi 
a responsabilidade pela segurança dos produtos, bem como os custos relacionados aos cerca de 
13400 processos das vítimas do glifosato nos EUA: neste período, a Monsanto já foi condenada a 
reparação de danos em três processos.
A partir da integração com a Monsanto, a Bayer se torna também uma potência mundial de vendas, 
já que o poder de mercado da Monsanto nos EUA e América Latina se combina com a força da 
Bayer na Europa e Ásia. De acordo com a apresentação para os investidores, feita em 5 de dezembro 
de 2018, em Londres, os mercados nos EUA, México, Argentina e Brasil serão os mais potentes da 
empresa. Na ocasião, o CEO da empresa, Werner Baumann, prometeu aumentar até 2022 ainda mais 
Apesar das suas promessas de sustentabilidade e a sua campanha de imagem, a Bayer segue firme 
em seu modelo de negócios. A empresa também continua fortemente decidida a defender os 
produtos adquiridos da Monsanto e inclusive a continuar com práticas e iniciativas comerciais antes 
criticadas.
Defesa do Glifosato
A Bayer foi obrigada a se desfazer de diversos produtos de sua carteira de negócios por conta da 
determinação dos órgãos de regulação da concorrência. 
Agora a empresa ficou bastante dependente dos produtos da Monsanto, e especialmente dependente 
de que o glifosato continue sendo vendido. Também considerando a prevista onda de processos nos 
EUA, a Bayer está decidida a defender este produto e a negar – assim com a Monsanto – a relação 
entre o veneno e o câncer. Da mesma forma como a Monsanto buscou nos últimos anos influenciar a 
avaliação de toxicidade do glifosato, a Bayer vem questionando as conclusões da Agência 
Internacional de Câncer.
Sul e leste africanos: a Bayer quer continuar o projeto WEMA, 
de milho geneticamente modificado 
A Bayer deseja seguir os passos da Monsanto no controverso projeto WEMA (Milho eficiente em 
água para a África). Se trata de uma parceria público-privada para o plantio do suposto milho 
geneticamente modificado resistente a seca (MON87460) em campos de teste no Quênia, 
Moçambique, África do Sul, Tanzânia e Uganda.
Na realidade, perdas de colheitas por conta das secas – agravadas pelas mudanças climáticas – são 
um grande problema na África Subsaariana. No entanto, ninguém sabe até que ponto o milho da 
Monsanto cumpre as suas promessas.
Em outubro de 2018, o governo sul-africano determinou barreiras claras aos objetivos da Monsanto 
de sempre testar novas variedades de milho. O país negou o pedido da Monsanto de liberação de 
uma nova variedade que combinava resistência à seca, ao herbicida glifosato e aos insetos. O 
motivo: não havia comprovações suficientes referentes às características de resistência à seca e aos 
insetos. A Bayer entrou com recurso contra a negativa do governo sul-africano.
Argentina: a “Lei Bayer-Monsanto
O interesse da Bayer no mercado argentino de sementes e agrotóxicos cresceu após a compra da 
Monsanto. Neste sentido, a empresa tem se colocado a favor de um ambiente político favorável para 
seus negócios. 
A atual lei de sementes permite aos agricultores argentinos o uso gratuito de uma parte da colheita 
para o plantio no próximo ano, mesmo quando a semente original tenha sido comprada. Esta lei já 
era uma espinha atravessada na garganta da Monsanto. 
Através de uma associação argentina de empresas de sementes, foi elaborado um novo projeto de lei 
de sementes, alertado por algumas pessoas como a Lei Bayer-Monsanto. Os votos do partido do 
governo não foram suficientes para aprovar a lei em 2018. A Bayer aumentou a aposta. Christophe 
Dumont, diretor da empresa para o cone sul, exigiu: “a legislação atual não é adequada ao mundo 
moderno e nem aos avanços da biotecnologia […]. Nós precisamos o mais rápido possível de um 
ordenamento jurídico que permita às empresas obter retorno aos seus investidores”.
India: o mito do uso seguro
Na índia existem centenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras rurais, camponeses e 
camponesas, que utilizam, em grande medida, agrotóxicos sem as medidas de proteção necessárias e 
que, assim colocam em risco a sua saúde e a de suas famílias. 
A Bayer conhece o problema do uso inseguro. Entretanto, não assume o risco da exportação de 
agrotóxicos altamente perigosos. Ao contrário, a Bayer oferece treinamentos para que agricultores 
saibam manejar agrotóxicos. Para isso, assumem proveitosas cooperações com instituições estatais e 
buscam com isso ainda angariar novos clientes.
A Bayer se comprometeu a cumprir, em seus processos de fabricação e comercialização, o Código de 
Conduta para Gestão de Agrotóxicos da ONU. Mesmo assim, a empresa vende na Índia o fungicida 
Nativo WG75 sem a rotulagem de riscos para fetos4. Na União Europeia, este produto só pode ser 
vendido com a advertência de que o ingrediente ativo pode prejudicar gestantes.
Aqui se trata de um caso de duplos padrões. Até o presente momento, a Bayer ainda não inseriu a 
advertência no rótulo indiano. A empresa ignora o código de conduta da ONU e não cumpre com 
suas obrigações referentes aos direitos humanos.
Riscos
A nova mega-corporação promove um modelo de desenvolvimento agrícola-industrial que coloca 
em risco os direitos humanos e do meio ambiente, e contraria o cumprimento dos Objetivos do 
Desenvolvimento Sustentável. O negócio da Bayer, baseado em transgênicos e agrotóxicos, 
representa um perigo à soberania alimentar de pequenos agricultores e agricultoras no mundo inteiro, 
para a saúde de camponeses e camponesas, trabalhadores e trabalhadoras rurais, consumidores e 
consumidoras e para todo o meio ambiente.

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