sábado, 8 de junho de 2019

AMAZÔNIA: O MISTERIOSO PODER DA AYAHUASCA


Correntes espirituais e ciência motivam expansão do uso dessa infusão na Europa
EL PAÍS 
Jaume V. começou a consumir pasta base de coca já na maturidade. Estava com 47 anos e havia sido 
diretor-geral de várias empresas. Seu negócio quebrou, ele passou por um divórcio, e então os 
problemas começaram. Juntou-se com quem não devia e sua vida se foi lentamente pelo ralo. 
Giovanna Valls (Paris, 1963)passou em poucos anos de cheirar uma carreira de heroína numa festa 
de Paris a se acabar atirada no antigo bairro de Can Tunis, em Barcelona, enquanto alguém lhe 
espetava uma agulha no braço. 
Durante sua queda, sobreviveu cometendo furtos em shoppings e contraiu o vírus da AIDS
tuberculose e hepatite. Em 2004, quando já era para alguém estar gravando seus nomes em alguma 
lápide de cemitério em Barcelona, suas vidas se cruzaram em um pequeno povoado às margens do 
rio Mapiá, no Amazonas
Esgotadas todas as vias tradicionais de reabilitação, eles decidiram participar de um tratamento 
experimental para a cura de vícios através da ayahuasca. Durante oito meses, consumiram o chá de 
forma controlada com um grupo de indígenas e outros pacientes da Espanha. Vários fatores devem 
ter influenciado, mas o fato é que ambos se salvaram.
Desde então, Jaume e Giovanna, escritora e irmã do primeiro-ministro da França, Manuel Valls
tomam ritualmente e de forma periódica essa droga alucinógena cujo uso disparou nos últimos anos 
na Europa – normalmente por pessoas de perfil sociocultural elevado –, por causa da expansão de 
correntes espirituais como a meditação. 
A ayahuasca é uma espécie de infusão que resulta da fervura em água de um cipó amazônico 
chamado Banisteriopsis caapi (ou cipó-mariri) e de plantas que contêm a substância química DMT, 
que induz às visões. Separadamente, eles não têm nenhum efeito, mas juntos induzem a estados 
alterados de consciência que igrejas amazônicas como o Santo Daime utilizam com fins religiosos e 
espirituais.
Entretanto, além da esfera ritualística — há cerimônias todos os finais de semana em cidades como 
Madri e Barcelona —, essa droga expõe também lugares de informação do inconsciente e outras 
áreas do cérebro que facilitam alguns tratamentos psiquiátricos contra transtornos como 
dependências, depressão e estresse pós-traumático. As últimas pesquisas, em grande parte realizadas 
na Espanha — onde o consumo transcorre num limbo jurídico —, deram início à exploração dessa 
substância pela via científica.
Josep Maria Fábregas, psiquiatra especialista em dependências e diretor da clínica CITA (Centro de 
Pesquisa e Tratamento de Dependências, na sigla em espanhol), conheceu a planta há mais de duas 
décadas durante uma viagem à selva amazônica. E aquilo derivou em importantes estudos sobre seus 
usos terapêuticos, publicados em revistas como Drug and Alcohol Dependence e PLOS One. “Na 
clínica CITA nunca utilizamos essa substância. 
Mas meus estudos pessoais na Amazônia me permitiram observar que ela tinha aplicações para casos 
refratários a terapias convencionais. De uma forma muito artesanal, introduzimos a possibilidade de 
que pudesse se tornar uma opção terapêutica. 
Os resultados nos animaram mais, e acabou sendo criada uma estrutura profissional onde essas 
capacidades podem ser aproveitadas”, afirma. Assim foi criado o IDEAA (Instituto da Etnopsicologia Amazônica Aplicada), uma espécie de clínica/acampamento em plena bacia do Amazonas onde 150 
pacientes já passaram várias temporadas recebendo uma terapia alternativa. Lá Valls escreveu o livro 
Aferrada a la Vida (inédito no Brasil), em que narra sua experiência. “[A ayahuasca] foi a ferramenta 
da qual eu precisava depois de tantas clínicas e desintoxicações. Abriu um canal no meu cérebro e 
me permitiu enxergar a mim mesma e começar pelo perdão”, diz Valls no jardim da sua casa, em 
Barcelona.
Os resultados nos demais pacientes foram “muito alentadores”, segundo Fábregas. Mas não há dados 
precisos sobre o percentual de sucesso. Jaume V. recorda que 14 das 16 pessoas que conviveram com 
ele durante três meses, 10 anos atrás, recuperaram uma vida normal longe do vício (uma das 16 
morreu, e da outra ele perdeu o contato). “Em psiquiatria utilizamos fármacos de 60 anos atrás. 
O Prozac está há 40 anos no mercado, o Valium há 60… Continuamos tratando sintomas e sendo 
incapazes de modificar as situações de base. As substâncias que induzem a visões poderiam ser uma 
opção para isso. Hoje em dia estão sendo iniciados estudos em muitos países para a implementação 
dessas técnicas como terapia.”
Jordi Riba, doutor em farmacologia e chefe do grupo de Neuropsicofarmacologia do Instituto de 
Pesquisas do Hospital de Sant Pau, em Barcelona, há 20 anos estuda a ayahuasca. Acaba de 
colaborar num estudo publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria no qual essa substância foi 
administrada a pacientes com casos de depressão refratários a tratamentos convencionais. 
Os fármacos tradicionais demorariam duas ou três semanas para fazer efeito, ao passo que, nos casos 
citados, algumas horas após a aplicação de uma dose única já se observava uma notável melhora, que 
se manteve por até 21 dias. Diante desses resultados, a droga começou a ser usada também em casos 
de estresse pós-traumático e na reabilitação de detentos em prisões brasileiras.
Parte da explicação desses resultados é que o alcaloide principal dessa mistura acessa o cérebro e se 
une a proteínas que estão em alguns neurônios. Isso ativa determinadas áreas cerebrais situadas na 
fronteira entre a parte emocional e a cognitiva, o que se traduziria na capacidade de recuperar 
lembranças com um elevado conteúdo emocional e poder observá-las com certo distanciamento. 
“Obtivemos uma imagem de ativação do cérebro no córtex frontal, a amígdala e o hipocampo. 
Essas áreas se encarregam do processamento emocional, da memória e da inter-relação da informação emocional com a cognitiva. E, durante os efeitos, conforme pudemos ver nos exames de varredura 
antes e depois das sessões, há um aumento da transferência de informação entre essas áreas”, explica 
Riba.
A ayahuasca não é uma droga recreativa. Segundo o mais recente estudo do psicólogo e especialista 
em farmacologia José Carlos Bouso, a idade de início gira em torno dos 35 anos, e o usuário não 
busca novas sensações, e sim respostas a traumas ou a problemas mal resolvidos. Mas os efeitos da 
ayahuasca são muito poderosos. 
É impossível tomar essa substância sem alguém que supervisione a experiência. Até agora, as poucas 
mortes registradas nunca foram causadas por seus efeitos, e sim por acidentes resultantes do 
consumo em um ambiente que não era seguro. “Na América do Sul, também houve alguns casos de 
intoxicação, mas é difícil saber exatamente o que foi ingerido. 
Também pode haver interações perigosas com outros medicamentos que alguém possa estar 
tomando. Foram descritas reações de medo e pânico durante a experiência. Além disso, há certo 
aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, por isso alguém com problemas cardíacos não 
deveria ingeri-la”, alerta Riba.
Fora do ambiente científico, o uso da ayahuasca apresenta muitas ambiguidades jurídicas. A ONU, 
através do Órgão Internacional de Controle de Entorpecentes (INCB, na sigla em inglês), não regula 
a droga. No entanto, a substância DMT, contida na ayahuasca, é criminalizada. 
A França é o único país onde a droga é proibida, mas não por seus efeitos, e sim por seu vínculo a 
uma seita. Em países como Brasil, EUA e Holanda, é reconhecida por seu uso religioso e, na 
maioria, como na Espanha, encontra-se em um estado de limbo jurídico. 
Desde 2009, houve cerca de 40 prisões no país depois que alfândegas espanholas interceptaram 
recipientes com a substância. No entanto, apenas um caso levou a uma condenação (com um acordo 
do réu com a promotoria para evitar a prisão). 
Na maioria das vezes, são pessoas que queriam fazer uma cerimônia e a polícia intercepta o envio do 
pacote, apresentando-se nas residências como um agente dos correios. Ao assinar a entrega do 
pacote, a pessoa é presa.
Uma cerimônia – a Catalunha é um dos epicentros na Espanha – consiste em um encontro de pessoas 
de meia-idade, muitas vezes todas vestidas de branco, reunidas em um fim de semana para tomar 
essa infusão. 
Geralmente, há um guia (muitos viajam expressamente para formalizá-las) dirigindo o ritual e alguns 
presentes que monitoram para que todos estejam bem (os chamados fiscais). Os participantes fecham 
os olhos e ficam cerca de seis horas fazendo o trabalho sem falar com ninguém. 
Benjamin De Loenen é o diretor-executivo da ICEERS, uma fundação que promove a pesquisa sobre 
plantas com propriedades psicoativas de uso tradicional e a potencial integração como ferramentas 
terapêuticas. “A ayahuasca é usada na Espanha há 25 anos, isso não é novo. Mas agora ficou mais 
conhecida. 
Há um interesse em fazer trabalhos [assim é chamada uma sessão] de autoconhecimento, e [as 
pessoas] frequentam cada vez mais essas cerimônias. Mas permanecem sendo grupos privados onde 
as pessoas participam. Não é um fenômeno muito comercial.” O avanço significativo, no entanto, 
pode ser visto em seu aspecto médico e farmacológico. E, acima de tudo, no estranho fato de que 
uma droga ancestral da Amazônia entre na Europa do século XXI.

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