sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Por trás do lero-lero da reforma da Previdência, está em curso um projeto para transferir a poupança pública para os bancos privados


O ministro Paulo Guedes foi jantar com jornalistas e empresários na última quarta-feira (6) e falou
demais. Disse que a reforma da Previdência incluiria novas mudanças da área trabalhista, oferecendo 
aos jovens ingressantes no mercado de trabalho a possibilidade de optarem por ser empregados com 
ou sem direitos. No dia seguinte, de manhã, um grande jornal aprofundou o tema: o governo avaliava 
a possibilidade de lançar um modelo livre de décimo terceiro salário e de recolhimento de FGTS, 
medida que, por ferir cláusula pétrea da Constituição, só se tornaria viável se oferecida como 
alternativa ao trabalhador jovem – adere quem quer. À tarde, Guedes negou a intenção de enfiar o 
jabuti trabalhista na reforma da Previdência.
Um vai-e-vem a mais ou a menos de membros do Executivo já não faz tanta diferença, mas o caso 
ilustra o que todos sabem: o fim das garantias sociais é meta ideológica a ser perseguida sem trégua 
pelo governo Bolsonaro. A entrega dos recursos dos contribuintes a gestores privados, a se 
concretizar via instituição de um modelo previdenciário por capitalização individual, como quer 
Paulo Guedes, é foco “ideológico, quase religioso”, no entender do sociólogo Fausto Augusto Júnior, 
do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).
“É óbvio que o sistema financeiro está de olho na administração desses recursos, e há uma questão 
concreta, que é colocar na mão da iniciativa privada os grandes fundos públicos, e a Previdência é 
um deles”, observa Augusto Júnior. “Está em curso um processo para transformar a Previdência 
numa mercadoria para o sistema financeiro”, adverte.
Quando o ministro da Economia fala em contratos de trabalho sem qualquer tipo de oneração ao 
empregador, ele fala em desvincular da folha, além das contribuições previdenciárias, também os 
repasses ao FGTS, ao FAT (Fundo de Amparo ao trabalhador), ao PIS-Pasep, sem os quais a Caixa 
Econômica e o BNDES não terão condições de financiar políticas sociais. “Esses fundos são a base 
da poupança pública do Estado hoje”, enfatiza o sociólogo. “Eles (o governo) têm a ideia de que o 
dinheiro de um fundo como a Previdência Social será revertido para o próprio sistema por meio da 
iniciativa privada, o que a história mostrou não ser verdade”.
O Chile é o exemplo perfeito de que privatizar a Previdência, pura e simplesmente, não resolve o 
problema dos aposentados, que lá recebem benefícios baixíssimos (meio salário mínimo brasileiro, 
em média). Até hoje o país vizinho luta para sanar os males provocados pela sua reforma da 
Previdência feita nos anos 80.
“Imagine-se um regime de capitalização em que as pessoas contribuem direitinho por 35 ou 40 anos 
esse sistema funciona. Porém, se poucos contribuírem e houver uma concentração de mercado nas
mãos de poucas administradoras de fundos, como aconteceu no Chile, não há saldo lá na frente”, 
explica Daniel Pulino, professor de Direito Público da PUC-SP e diretor de Previdência 
Complementar do IBDP(Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário).
Como está sendo proposta, a reforma da Previdência pode configurar “um grande cheque em branco” 
dado ao governo Bolsonaro. “Estão jogando tudo para Lei Complementar, embora deem algumas 
diretrizes estruturais que não houve nas reformas de Fernando Henrique e Lula, como introduzir 
capital privado para a proteção obrigatória de brasileiros”, alerta Pulino.
Arranjar meios de realizar mudanças estruturais fora da Constituição, alterando um modelo fruto de 
árduo trabalho de constituintes, não é um procedimento exatamente democrático.
“A informalidade do trabalho é hoje o maior desafio de qualquer sistema de previdência no mundo, 
mesmo em países da Europa”, diz o especialista. “Se esse for o nosso caminho, vai acontecer aqui o 
mesmo que aconteceu nos países que fizeram a reforma na década de 90: eles revisaram seus 
sistemas pouco depois. Quando as pessoas não contribuem, não há saldo de conta para haver 
aposentadoria lá na frente. Se isso não bastasse, também acontece de as pessoas envelhecerem, 
ficarem doentes – elas vão bater na porta de quem?”, indaga Daniel Pulino.

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