segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

ANÁLISE: BOLSONARO NÃO MERECE NENHUM CRÉDITO DE CONFIANÇA


NENHUM PERÍODO DE GRAÇA; NENHUM CRÉDITO DE 
CONFIANÇA
Por Wanderley Guiherme dos Santos
Até o acaso tem limites. A declaração de guerra preventiva do governo Bolsonaro contra, não as 
práticas propriamente, mas os praticantes dos escambos usuais da política – apoio em troca de 
recompensas – plantou suficiente número de sementes para pequenas e grandes escaramuças. As 
condições econômicas e sociais continuam insatisfatórias e não haverá conserto nos dois semestres 
de 2019. Mesmo contida, a dogmática de Paulo Guedes e sua Ordem de cruzados velhos não terá 
dificuldade em provocar insatisfação generalizada, apesar dos sorrisos de botox e declarações fúteis 
dos segmentos empresariais.
Se as democracias normais estão em alvoroço para amenizar colisões entre interesses sublevados, o 
curto prazo não promete serenidade em democracias estúpidas, fundadas em estereótipos e 
preconceitos, única riqueza jamais dissipada entre nós: preconceitos religiosos, de existências 
medíocres, de primitivos em estado de graça, aliados aos estereótipos culturais de mentalidades 
obsoletas.
Tamanha imperícia acumulada não esclarece as tentativas de importar a guerra fria entre os Estados 
Unidos e a China, como ensaiam os mutantes em vias de assumir o governo, candidatos a hilários e 
desprezados fantoches. Menos ainda o provocador anúncio de mudança da representação do Brasil 
em Israel para Jerusalém. A cada semana tuitasse um retrocesso civilizatório na política externa 
brasileira. Tudo isso somado não pode ser aleatório. Ao contrário da falsa saúde cognitiva, o mundo 
atual contém conspirações e conspiradores como jamais na história das nações.
Conspiratas palacianas durante o absolutismo, conspirações contra a ordem aristocrática nos séculos 
XVII e XVIII, conspiratas sem fim para o rodizio de ditadores na América Latina do século XX, 
nada disso se compara à soma de espionagem industrial, de conspiração tecnológica de manipulação 
de dados contra os consumidores e contra eleitores, de conspirações entre nações poderosas 
dividindo mercados, sabotando a difusão do conhecimento, racionando a publicidade de conquistas 
farmacológicas, e sabe-se lá o quê mais. As conspirações atuais capturam milhões de pessoas e as 
regras do capitalismo enquanto jovem tornaram-se antiguidades sem valor de mercado.
A discussão entre conceder ou não algum crédito ao governo por começar é alternativa para quem 
dispõe de recurso financeiro ou político para financia-lo. Analistas independentes não têm porque 
dispensar períodos de graça a quem, diariamente, reafirma contra quem pretende governar. Não se 
trata de difama-lo, mas enquadra-lo no contexto real, no mundo cuja deterioração ou recuperação 
depende de ações, não de jogos de paciência.
O Brasil faz parte de pequeno conjunto de países se equilibrando no limite da inviabilização de sua 
autonomia. A ignorância dos líderes intelectuais da esquerda é assustadora, o anti-intelectualismo 
adotado pelo PT em seus anos iniciais exaltou a politica de resultados imediatos, desprezando a 
cultura de vanguarda e os professores como pedantismo elitista. Não é também por acaso que os 
quadros sobreviventes não consigam dizer coisa com coisa, apelando para a chantagem de que nada 
será normal enquanto Lula estiver preso. Não é verdade. A ignorância está livre, leve e solta.

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