quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A URGÊNCIA DE MONTAR ALIANÇAS ANTI FASCISTA AMPLA E SEM A HEGEMONIA DO PT


A voz terrível das urnas
Por Miguel do Rosário no : Cafezinho   
Conforme a eleição se aproximava, senti-me diminuir, tornar-me um personagem liliputiano: 
minúsculo e insignificante. Tinha a sensação opressiva de que estávamos sendo enganados, ou nos 
enganando a nós mesmos, debruçados sobre pesquisas incapazes de atingir as profundezas da 
consciência popular.
E foi exatamente isso que ocorreu. Fomos enganados. E nos autoiludimos até o limite da nossa 
ingenuidade ou estupidez. Diante da violência dos fatos duros da vida, até mesmo o cinismo dos 
dirigentes partidários nos parece pueril.
As urnas soltaram um terrível grito de desespero.
Então, ao auscultar a sua voz triste e raivosa, voltamos a diminuir, até nos tornarmos praticamente 
invisíveis. De que adianta berrar, se nossa voz chega ao mundo dos gigantes, ao povo, com o mesmo 
som de uma formiga caminhando sobre o assoalho?
Agora não importam mais “pesquisas”.
Agora temos números reais, palpáveis, com os quais analisar a realidade, não mais projeções 
utópicas de nossos sonhos e medos.
Sejam compreensivos se eu me render à irritante, intolerante vaidade de afirmar qualquer coisa 
como: viram, eu avisei! Mas é que poucas vezes eu escrevi com o espírito tão atormentado, tão 
apreensivo, tão acossado por previsões sombrias.
É fato que havia indícios no ar desde o início do ano. Não bastava olhar apenas a primeira página das 
pesquisas. Era necessário olhar o que vinha a seguir, as altíssimas taxas de rejeição nas classes mais 
instruídas.
Daí nasceu essa grande ilusão, que permitiu ao PT silenciar, isolar, e até mesmo humilhar seus 
críticos, por mais amigos, honestos e francos que fossem, e que se esforçavam para devassar a 
realidade para além das patriotadas partidárias.
Durante meses, o PT viveu da ilusão das “pesquisas”, se recusando a ouvir aqueles que alertavam: 
amigos, virem a página das mesmas pesquisas, olhem a estratificação do eleitorado, confiram a 
rejeição, as coisas não estão boas!
O que disseram as urnas? Rasgaram todas as ilusões! Vamos continuar nos enganando?
Vamos usar meias palavras? As urnas rechaçaram violentamente a estratégia do PT e de Lula.
Bolsonaro devorou o eleitorado do sudeste, sul, centro-oeste e norte, e agora avança rapidamente 
sobre o nordeste.
O capitão da reserva ganhou as eleições em Recife, Maceió, Aracaju, João Pessoa. Haddad ganhou 
apenas em São Luiz, Teresina e Salvador. Na capital do Maranhão, Haddad teve 38% e Bolsonaro, 
37%. Em Piauí, o placar foi de 44% a 32%. Em Salvador, Haddad obteve uma vitória mais 
expressiva: 47% X 28%.

Essa é a verdade dura, com a qual temos de lidar agora: Lula e o PT nos levaram a dançar na beira 
do abismo, e caímos no abismo!
Os leitores nos dirão, ah, agora é olhar para frente, Miguel, de que adianta chorar o leite derramado? 
Percebi, no twitter, que os mesmos setores da “militância petista” que reagiam agressivamente aos 
alertas críticos às estratégias de seu partido, agora se recusam a olhar os números que emergiram das 
urnas, e ainda atacam quem tenta trazê-los para a discussão!
Isso é mais um erro. Mais um terrível erro.
Os partidos políticos precisam formar uma militância crítica, inteligente, insubmissa, culta. Isso é 
fundamental para o futuro do campo progressista. Militância puxa-saco, nível “mensalinho do PT”, 
não nos ajudará a conquistar um mísero eleitor novo; ao contrário, ajudará o partido a persistir nos 
mesmos erros e a conduzir o PT e todos aqueles que se juntarem a ele, ao mesmo buraco.
A criação de uma bolha de fantasia, com blogs que só dizem o que a militância quer ouvir, com 
pesquisas que só trazem números que agradam aos interesses do partido, e, pior, com cientistas 
sociais que, mediante generosa remuneração, cumprem o papel de avalizar as estratégias da 
burocracia, gerou esse buraco negro que nos tragou.
Bolsonaro obteve 49,3 milhões de votos (46%) e Haddad, 31 milhões (34%).
A situação que emergiu das urnas é muito mais dramática, para o PT, e para o campo popular como 
um todo, do que o imaginado pelo mais pessimista dos analistas.
Ah, dirão, não é hora de autocrítica, Miguel, é hora de “lutar contra o fascismo”…
Tenho a impressão, ao ouvir certos militantes, que eles esperam que saiamos a rua empunhando 
tacapes.
O que significa “lutar”, para essa militância acrítica, espremida em suas bolhas cada vez menores? 
Dizer que Haddad foi “magnífico” em determinada entrevista ou debate, e passar o dia inteiro 
disseminando notícias negativas sobre Bolsonaro?
A responsabilidade de quem se cuidou para não engolir o LSD servido pela burocracia petista é 
manter a lucidez até o final.
Precisamos lidar com dois cenários sombrios.
Se Haddad ganhar, hipótese improvável, ele lidará com um congresso bem mais golpista do que 
vitimou Dilma, tanto na câmara como no senado. Com Dilma, o PT tinha 11 senadores, agora tem 4. 
Com Dilma, o PT tinha 61 deputados e agora tem 56 deputados. E com algumas perdas relevantes, 
como o combativo Wadih Damous, que fez sua campanha usando o slogan “o advogado de Lula” e 
recebeu 31 mil votos, menos do que em 2014, quando obteve 37,8 mil votos.
Como, diante de um quadro assim, alguém vai acreditar na propaganda petista, de que o povo “vai 
ser feliz de novo”? A única verdade a ser contada ao povo é que haverá luta. O último patrimônio 
político do representante popular, quando ele não tem mais nada a oferecer, é sua honestidade e sua 
coragem.
Todos os candidatos que se aproximaram demais da narrativa petista de vitimização sofreram 
grandes derrotas ou tiveram enorme dificuldade de se eleger. Até mesmo o senador Roberto Requião, 
que prestou um apoio tardio a Ciro Gomes, e que liderava as pesquisas até a véspera das eleições, foi 
punido pela condescendência com que tratou o sebastianismo lulista.
O PCdoB, que elegeria tranquilamente Manuela D’Ávila como deputada federal pelo Rio Grande do
Sul – e certamente ela obteria uma das maiores votações no estado -, conseguiu emplacar apenas 9 
nomes, de 7 estados, na Câmara Federal e corre o risco de ficar abaixo da cláusula de barreira, 
perdendo fundo partidário e tempo de TV. Espera-se que os votos de um deputado da Bahia, cuja 
eleição está “sob judice” sejam computados para superar a cláusula… A aliança meio forçada com o 
PT, costurada de última hora num processo brutal denominado de “domingo sangrento” por um 
dirigente comunista, pode impor ao PCdoB a derrota política da qual ele queria fugir, ao oferecer ao 
PT, numa bandeja, a cabeça de Manuela.
No Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do país, o PT só elegeu 1 deputado federal, 
Benedita da Silva, de 78 anos. Washington Quaquá, ex-prefeito de Maricá, obteve uma votação 
suficiente para se eleger, superior a 70 mil votos, mas seu mandato ainda espera liberação do TSE, e 
não sei se, a esta altura, devemos esperar qualquer decisão positiva do judiciário em relação ao PT. 
As jogadas geniais de Quaquá, pouco antes das eleições, e com sua candidata, Marcia Tiburi, ainda 
fazendo campanha, foram se aproximar de Garotinho, campeão máximo de rejeição nas classes 
médias fluminenses, e de Eduardo Paes, que ao cabo quase nem chegou ao segundo turno…
Agora o partido se vê preso numa armadilha. Se se afastar de Lula, será atacado pela própria 
militância sebastianista que criou, e que iludiu até o limite com a história de que Lula seria o 
candidato, e de que era possível, sim, torná-lo presidente. Se continuar atrelado a Lula, dará munição 
ao mais forte argumento de seus adversários, que é justamente esse antipetismo emocional, e que 
agora alcançou a população de baixa renda, alimentado pela narrativa oferecida pelo próprio PT, com 
essas visitas constantes à Curitiba, além do desgaste inevitável após treze anos de governo.
Numa das últimas pesquisas do Datafolha, feita no dia 2 de outubro, a cinco dias da eleição, havia 
uma questão que o PT vinha fingindo não ver desde o início do ano, apesar dos alertas: entre famílias 
com renda de 2 a 5 salários, mais de 60% defendiam que Lula deveria continuar condenado e preso. 
Ora, uma família que ganha 2 salários não é exatamente representante de uma “elite egoísta e 
fascista”. Entre famílias que ganham de 5 a 10 salários, 75% acham que Lula deveria continuar 
condenado e preso. Esses números, que na verdade pouco mudaram desde a prisão de Lula, não 
significam que o PT deveria ter “abandonado” o ex-presidente, mas sim feito uma distinção clara 
entre sua defesa jurídica e a estratégia eleitoral do partido, até mesmo para proteger Lula.
O que o PT acha que sucederá a Lula em caso de vitória de Bolsonaro?

Se Bolsonaro ganhar, ele estará à frente de um bloco parlamentar não apenas profundamente 
conservador e alinhado às suas ideias, mas essencialmente antipetista, como se constata pela eleição, 
para a Câmara federal, de nomes como Kim Katiguiri e Alexandre Frota.
Qual a saída para esse impasse? O que fazer?
Bem, a única solução agora é fazer o que, desesperadamente, defendíamos desde o início do ano: 
montar um grande arco de alianças, mas sem a hegemonia do PT.
E eu falo isso não como uma estratégia contra o PT, e sim para salvar o PT de si mesmo, de suas 
viagens lisérgicas e de seu descolamento da realidade. E a realidade é que a rejeição ao PT ganhou 
dimensões monstruosas. Não adianta o PT ser o partido preferido de 20% da população, se os outros 
80% o odeiam. A ação política, ensinou o professor Wanderley Guilherme dos Santos, em vídeo 
recente, pressupõe que o conjunto de vontades à favor seja superior ao conjunto de vontades em 
desfavor. É a velha e singela matemática!
Um partido de esquerda precisa, necessariamente, construir uma imagem positiva junto às classes 
mais instruídas, porque são elas que tem condições intelectuais e materiais de levar adiante a luta 
política nas redes sociais. Esse é o segredo da força de Bolsonaro. Pretender fazer campanha ou 
governar apenas com o apoio silencioso de analfabetos residentes em cidades do interior é outro 
delírio petista que está nos custando muito caro.
Os petistas precisam parar de achar que críticas ao partido significam “antipetismo”. Não é 
antipetismo. É apenas o esforço honesto de setores da esquerda para salvar o próprio PT de seus 
erros. Se a reação a essas críticas permanecer intolerante e agressiva, aí sim, o PT ampliará sua 
rejeição, dessa vez dentro da própria esquerda.
“A guerra é importante demais pra ser deixada na mão dos militares”, dizia Clemenceau, premiê 
francês durante a 1ª Guerra Mundial. Ele criticava as estratégias dos generais na batalha, que 
impunham grandes perdas de vidas e não davam resultados satisfatórios. Clemenceau, um socialista 
que havia se destacado, uma década antes, pela defesa corajosa de Alfred Dreyfus, posicionando-se 
contra o judiciário e contra a maioria da mídia francesa, conseguiu impor uma estratégia mais 
prudente ao exército francês, e venceu a guerra.
Podemos dizer a mesma coisa sobre o PT: ele se tornou um partido importante demais para ficar em 
mãos de seus próprios dirigentes. Ele tem que buscar novas ideias junto à sociedade.
O PT e sua “militância” precisam entender que o seu inimigo não é o intelectual progressista 
insubmisso às estratégias da burocracia partidária e às decisões do grande líder injustiçado.
O campo progressista, além disso, precisa ser mais plural, até mesmo para não ser arrastado pela 
reprovação popular a um partido. Por isso é tão importante construir lideranças progressistas para 
além das atuais hegemonias.
Estamos perdendo todas as batalhas desde 2013. A vitória eleitoral em 2014 foi quase um acaso, e 
que não se traduziu, de qualquer forma, em vitória política.
Não é possível que alguém ache que estamos no caminho certo.
Lançar uma candidatura diante de uma prisão, e passar a imagem, ao eleitor, de um candidato 
postiço, que precisa consultar uma liderança presa antes de tomar qualquer decisão, não é, 
evidentemente, uma boa ideia, pelo menos na opinião da maioria dos brasileiros que foram às urnas 
no último domingo. O PT sacrificou a candidatura de Marília Arraes em Pernambuco para perder 
para Bolsonaro em Recife e ver o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, ser derrotado, 
humilhantemente, no primeiro turno. E tudo para quê? Para eleger Paulo Câmara, que apoiou, com 
todas as suas forças, o impeachment, e prejudicar Ciro Gomes, que, igualmente com todas as suas 
forças, lutou contra o golpe?
Lula foi um dos melhores presidentes da nossa história, mas também cometeu grandes erros: 
escolheu Dilma uma e duas vezes, entupiu os tribunais superiores de reacionários e golpistas, 
fortaleceu a Globo, não se esforçou para politizar o povo e, por falta de uma política de comunicação 
digna, deixou que a classe média fosse cooptada pela extrema-direita.
O fato de estar preso, num processo viciado, sem provas, não é exatamente prova do sucesso de suas 
estratégias políticas ou jurídicas.
O nosso objetivo não pode ser mais apenas as eleições deste ano, e sim a criação de uma frente de 
resistência de longo prazo, que tenha estratégias para as eleições municipais de 2020 e nacionais de 
2022, com foco não apenas na eleição de um “salvador da pátria”, que não terá condições de salvar 
nada, mas na reconquista da classe média (que não é “elite”, e sim maioria da população brasileira) e 
na formação de uma bancada legislativa progressista, nacionalista e socialmente sensível.

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