segunda-feira, 6 de agosto de 2018

A doce vida da abelha cubana: sem agrotóxicos e sem ameaça de extinção


O mel já se tornou o quarto produto agrícola de exportação de Cuba, atrás dos pescados, dos 
charutos e do rum, e à frente do café e do açúcar
Da Redação
03 de agosto de 2018, 19h35
   
Em janeiro de 2017, o Serviço Americano de Pesca e Fauna Selvagem (USFWS) dos EUA incluiu uma espécie de abelha, Bombus affinis, entre as espécies ameaçadas de extinção. Uma das cinco espécies do país, a população destas abelhas diminuiu 88% desde o ano 2000. O Canadá já havia feito o mesmo com a Bombus affinis em 2010.  Historicamente, esta abelha estava distribuída de forma abundante pelos 28 Estados norte-americanos e em duas províncias canadenses; a partir de 2000 aparece em apenas 13 Estados uma província do Canadá. Outras sete variedades de abelhas de cara amarela oriundas do Havaí já tinham sido incluídas na lista pelas autoridades norte-americanas.
A ameaça a estes insetos preocupa tanto o mundo que a União Europeia convocou no ano passado um congresso internacional de especialistas para discutir a saúde das abelhas. Além de produzir mel, as abelhas atuam como polinizadoras e podem aumentar em cerca de 25% o rendimento das colheitas. Sem abelhas, já se fala até em usar drones para polinizar artificialmente, como no episódio de Black Mirror. Um estudo da agência ambiental norte-americana confirmou a relação entre os agrotóxicos à base de neocotinoides, que estão entre os mais utilizados no mundo, e o desaparecimento das abelhas, já que danificam seu sistema nervoso central. Em abril deste ano, eles foram banidos da União Europeia.
“Todo o mel cubano pode ser certificado como orgânico. É um mel com um sabor muito específico, típico; em termos monetários, é um produto altamente valorizado”, disse o representante da FAO em Cuba, Theodor Friedrich
Nada disso acontece em Cuba. Livres de pesticidas, as abelhas da ilha não só não estão ameaçadas de extinção, como o mel orgânico que produzem se tornou o quarto produto agrícola de exportação do país, atrás dos pescados, dos charutos e do rum, e à frente de produtos tradicionais como o café e o açúcar. Graças à ausência de químicos e hormônios na agricultura, o mel cubano é considerado uma iguaria mundo afora e a ilha é saudada como “o paraíso das abelhas e do mel orgânico” pela imprensa internacional. Um frasco com 250 gramas de mel de romerillo, considerado “raro” por proceder de uma flor da família das margaridas típica de Cuba, é vendido por 27 reais na Inglaterra.
“Todo o mel cubano pode ser certificado como orgânico. É um mel com um sabor muito específico, típico; em termos monetários, é um produto altamente valorizado”, disse à Reuters o representante da FAO em Cuba, Theodor Friedrich. Cuba produz atualmente cerca de 8 mil toneladas por ano de mel, e o governo acredita que esta produção pode chegar a 15 mil toneladas anuais. Um programa governamental de apoio à apicultura estabeleceu uma meta de 10 mil toneladas por ano em 2020. Os apicultores, reunidos em cooperativas, revendem tudo à empresa estatal Apicuba, que distribui o produto às duas fábricas autorizadas para processá-lo. Outra estatal, a Cubaexport, é quem vai vender o mel para o mundo.
FIDEL CASTRO VISITA UM PRODUTOR DE MEL. FOTO: APICUBA
Enquanto isso, os cientistas do Centro de Pesquisas Apícolas (Ciapi, na sigla em castelhano) de Cuba desenvolvem subprodutos do mel. Fundado em 1982 e único do gênero na América Latina, o centro anunciou em maio dois novos produtos, o hidromel, um digestivo antioxidante recomendado como vinho de mesa (aqui na Chapada Diamantina também tem) e o Propomáx 5, um antibiótico natural, bactericida e fungicida com propriedades antioxidantes benéfico para doenças cardiovasculares e diabetes. Há ainda o complemento nutricional Panmiel, que estimula o apetite, melhora o funcionamento da próstata e combate a anemia, e outros derivados do própolis.
É tudo uma questão de prioridades: enquanto os EUA se orgulham de ser o maior exportador de armas do mundo e outros países de lucrar bilhões com agrotóxicos, Cuba vai marcando seu caminho como potência mundial em educação, saúde e… mel orgânico.

Um comentário:

Ricardo Alexius disse...

Que maravilha... Este último parágrafo 'matou a pau'!