terça-feira, 22 de maio de 2018

JORNALISMO BRASILEIRO PERDE ALBERTO DINES, MESTRE CRÍTICO E SONHADOR



Luis Nassif

Conheci Alberto Dines quando, no começo de meu trabalho no Jornal da Tarde, implantando o chamado “jornalismo de serviços” – economia com foco no consumidor – ele me convidou para assinar uma coluna em uma das revistas femininas da Abril, sob o título “Seu Nassif”, se não me engano. Foi a primeira pessoa que me deu a chance de sair do anonimato das redações para as colunas assinadas. A segunda foi o inesquecível amigo Aloisio Biondi, que me ofereceu uma coluna no Shopping News.
Crítico acerbo do jornalismo, Dines sempre foi um incentivador generoso dos jovens que ingressavam na carreira.
Na Folha, sua coluna de ombudsman da mídia marcou época. E provocou ressentimentos esperados, em uma categoria pouco acostumada com a crítica interna. Mas sua biografia, e o período histórico à frente do Jornal do Brasil, lhe conferiam a autoridade necessária.
Rigoroso nas críticas, no plano pessoal era uma pessoa extremamente sensível.
Em seus tempos de Observatório da Imprensa, uma pesquisa da Fernando Pacheco Jordão, com os 50 maiores influenciadores que apareciam nos jornais, me colocou na ponta, ao lado do Roberto Campos, como influenciador dos influenciadores.
Dines me convidou para um programa no Observatório da Imprensa, na época ancorado na TV Cultura. Pediu que levasse meu bandolim. No ar, me pediu uma música. Enquanto tocava, via lágrimas escorrendo de seus olhos, lembrando da infância, se não me engano em Vila Isabel.
Perdendo espaço na imprensa tradicional, transformou o site do Observatório em uma referência inestimável de bom jornalismo. E sempre com o apoio total da esposa Norma Cury.
Foi um dos jornalistas históricos do país.
Albert Dines "era, acima de tudo, um grande sonhador, achava que o jornalismo poderia melhorar o mundo ao denunciar as suas mazelas e apontar caminhos para um convívio mais civilizado", diz o jornalista Ricardo Kotscho; "Com lugar garantido na galeria dos grandes protagonistas da imprensa brasileira no último meio século, era um jornalista por vocação, um tipo cada vez mais raro nas nossas redações"
Acordei nesta terça-feira com uma notícia muito triste, não só para os jornalistas, mas para todos os leitores: perdemos Alberto Dines, um dos grandes mestres da minha geração, que passou a vida tentando melhorar a imprensa brasileira.
Generoso e incansável na sua luta por qualidade e ética na prática deste ofício, Dines comandou grandes redações, promoveu reformas que marcaram época, como a do Jornal do Brasil nos anos 60, e criou o Observatório da Imprensa, em 1996, em várias plataformas, a sua grande obra na crítica sistemática aos meios de comunicação no país.
Era, acima de tudo, um grande sonhador, achava que o jornalismo poderia melhorar o mundo ao denunciar as suas mazelas e apontar caminhos para um convívio mais civilizado.
Já com recorrentes problemas de saúde nos últimos anos, o mestre pegou há dez dias uma gripe que virou pneumonia e morreu de insuficiência respiratória, aos 86 anos.
Vivia sempre em movimento, bolando coisas novas, falava muito sem levantar a voz, alternando paixão e indignação, era muito estudioso e culto, procurava ajudar os outros. 
Comecei a gostar dele quando escrevia a coluna “Jornal dos Jornais”, na Folha, nos anos 70, onde foi um corajoso precursor da crítica de mídia quando dirigia a sucursal do jornal no Rio, e mais tarde nos tornamos bons amigos.
Ajudou a formar levas de jornalistas, passando a eles a prática cotidiana aliada à teoria que aprenderam nas escolas onde lecionou.
Com lugar garantido na galeria dos grandes protagonistas da imprensa brasileira no último meio século, era um jornalista por vocação, um tipo cada vez mais raro nas nossas redações.
Já fazia muita falta, e agora só nos resta guardar na memória a lembrança do seu convívio sempre comemorado na festa dos seus 80 anos numa cervejaria paulistana, a última imagem que guardo dele.
Aos que estão começando agora na profissão, recomendo pesquisar no Google e nos seus livros a longa trajetória de Alberto Dines no jornalismo porque hoje só quero mandar um beijo para sua mulher, minha amiga Norma Couri, também jornalista e dedicada companheira.
Valeu, Dines.
Vida que segue.
Em tempo: aqui abaixo estão duas matérias do arquivo do blog que escrevi sobre Alberto Dines:
“Imprensa: uma tarde na toca de mestre Dines”
“Mestre Dines faz 80 anos e 60 de jornalismo”

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