quinta-feira, 17 de maio de 2018

EM ARTIGO NO LE MONDE, LULA EXPLICA POR QUE QUER VOLTAR A SER PRESIDENTE DO BRASIL


"Eu já fui presidente e não estava nos meus planos voltar a me candidatar. Mas diante do 
desastre que se abate sobre povo brasileiro, minha candidatura é uma proposta de reencontro 
do Brasil com o caminho de inclusão social, diálogo democrático, soberania nacional e 
crescimento econômico, para a construção de um país mais justo e solidário, que volte a ser 
uma referência no diálogo mundial em favor da paz e da cooperação entre os povos", diz o ex-
presidente Lula, em artigo publicado nesta quinta-feira no jornal Le Monde.

Por Luiz Inácio Lula da Silva, versão original.

Sou candidato a presidente do Brasil, nas eleições de outubro, porque não cometi nenhum crime e 
porque sei que posso fazer o país retomar o caminho da democracia e do desenvolvimento, em 
benefício do nosso povo. Depois de tudo que fiz como presidente da República, tenho certeza de que 
posso resgatar a credibilidade do governo, sem a qual não há crescimento econômico nem a defesa 
dos interesses nacionais. Sou candidato para devolver aos pobres e excluídos sua dignidade, a 
garantia de seus direitos e a esperança de uma vida melhor.
Na minha vida nada foi fácil, mas aprendi a não desistir. Quando comecei a fazer política, mais de 40 
anos atrás, não havia eleições no País, não havia direito de organização sindical e política. 
Enfrentamos a ditadura e criamos o Partido dos Trabalhadores, acreditando no aprofundamento da 
via democrática. Perdi 3 eleições presidenciais antes de ser eleito em 2002. E provei, junto com o 
povo, que alguém de origem popular podia ser um bom presidente. Terminei meus mandatos com 
87% de aprovação popular. É o que o atual presidente do Brasil, que não foi eleito, tem de rejeição 
hoje.
Nos oito anos que governei o Brasil, até 2010, tivemos a maior inclusão social da história, que teve 
continuidade no governo da companheira Dilma Rousseff. Tiramos 36 milhões de pessoas da miséria 
extrema e levamos mais de 40 milhões para a classe média. Foi período de maior prestígio 
internacional do nosso país. Em 2009, Le Monde me indicou “homem do ano”. Recebi estas e outras 
homenagens, não como mérito pessoal, mas como reconhecimento à sociedade brasileira, que tinha 
se unido para a partir da inclusão social promover o crescimento econômico.
Sete anos depois de deixar a presidência e depois de uma campanha sistemática de difamação contra 
mim e meu partido, que reuniu a mais poderosa imprensa brasileira e setores do judiciário, o 
momento do país é outro: vivemos retrocessos democráticos, uma prolongada crise econômica, e a 
população mais pobre sofre, com a redução dos salários e da oferta de empregos, o aumento do custo 
de vida e o desmonte de programas sociais.
A cada dia mais e mais brasileiros rejeitam a agenda contra os direitos sociais do golpe parlamentar 
que abriu caminho para um programa neoliberal que havia perdido quatro eleições seguidas e que é 
incapaz de vencer nas urnas. Lidero, por ampla margem, as pesquisas de intenções de voto no Brasil 
porque os brasileiros sabem que o país pode ser melhor.
Lidero as pesquisas mesmo depois de ter sido preso em consequência de uma perseguição judicial 
que vasculhou a minha casa e dos meus filhos, minhas contas pessoais e do Instituto Lula, e não 
achou nenhuma prova ou crime contra mim. Um juiz notoriamente parcial me condenou a 12 anos de 
prisão por “atos indeterminados”. Alega, falsamente, que eu seria dono de um apartamento no qual 
nunca dormi, do qual nunca tive a propriedade, a posse, sequer as chaves. Para me prender, e tentar 
me impedir de disputar as eleições ou fazer campanha para o meu partido, tiveram que ignorar a letra 
expressa da constituição brasileira, em uma decisão provisória por apenas um voto de diferença entre 
11 na Suprema Corte.
Mas meus problemas são pequenos perto do que sofre a população brasileira. Para tirarem o PT do 
poder após as eleições de 2014, não hesitaram em sabotar a economia com decisões irresponsáveis 
no Congresso Nacional e uma campanha de desmoralização do governo na imprensa. Em dezembro 
de 2014 o desemprego no Brasil era 4,7%. Hoje está em 13,1%.
A pobreza tem aumentado, a fome voltou a rondar os lares e as portas das universidades estão 
voltando a se fechar para os filhos da classe trabalhadora. Os investimentos em pesquisa desabaram.
O Brasil precisa reconquistar a sua soberania e os interesses nacionais. Em nosso governo, o País 
liderou os esforços da agenda ambiental e de combate à fome, foi convidado para todos os encontros 
do G-8, ajudou a articular o G-20, participou da criação dos BRICS, reunindo Brasil, Rússia, Índia, 
China e África do Sul, e da Unasul, a União dos países da América do Sul. Hoje o Brasil tornou-se 
um pária em política externa, que os líderes internacionais evitam visitar, e a América do Sul se 
fragmenta, com crises regionais cada vez mais graves e menos instrumentos diplomáticos de diálogo 
entre os países.
Mesmo a parte da população que apoiou a queda da presidenta Dilma Rousseff, após intensa 
campanha das Organizações Globo, que monopolizam a comunicação no Brasil, já percebeu que o 
golpe não era contra o PT. Era contra a ascensão social dos mais pobres e os direitos dos 
trabalhadores. Era contra o próprio Brasil.
Tenho 40 anos de vida pública. Comecei no movimento sindical. Fundei um partido político com 
companheiros de todo o nosso país e lutamos, junto com outras forças políticas na década de 1980, 
por uma Constituição democrática. Candidato a presidente, prometi, lutei e cumpri a promessa de 
que todo o brasileiro teria direito a três refeições por dia, para não passar fome que passei quando 
criança.
Governei uma das maiores economias do mundo e não aceitei pressões para apoiar a Guerra do 
Iraque e outras ações militares. Deixei claro que minha guerra era contra a fome e a miséria. Não 
submeti meu país aos interesses estrangeiros em nossas riquezas naturais.
Voltei depois do governo para o mesmo apartamento do qual saí, a menos de 1 quilômetro do 
Sindicato dos Metalúrgicos do da cidade de São Bernardo do Campo, onde iniciei minha vida 
política. Tenho honra e não irei, jamais, fazer concessões na minha luta por inocência e pela 
manutenção dos meus direitos políticos. Como presidente, promovi por todos os meios o combate à 
corrupção e não aceito que me imputem esse tipo de crime por meio de uma farsa judicial.
As eleições de outubro, que vão escolher um novo presidente, um novo congresso nacional e 
governadores de estado, são a chance do Brasil debater seus problemas e definir seu futuro de forma 
democrática, no voto, como uma nação civilizada. Mas elas só serão democráticas se todas as forças 
políticas puderem participar de forma livre e justa.
Eu já fui presidente e não estava nos meus planos voltar a me candidatar. Mas diante do desastre que 
se abate sobre povo brasileiro, minha candidatura é uma proposta de reencontro do Brasil com o 
caminho de inclusão social, diálogo democrático, soberania nacional e crescimento econômico, para 
a construção de um país mais justo e solidário, que volte a ser uma referência no diálogo mundial em 
favor da paz e da cooperação entre os povos.

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