quinta-feira, 12 de maio de 2016

NOS DISCURSOS NO SENADO, COLLOR E AÉCIM PROVAM QUE SÂO, COMO SE SUSPEITAVA , A MESMA PESSOA


“já te disse que você está cheiroso hoje?”

por : Kiko Nogueira

Aécio e Collor foram os destaques, cada um à sua maneira inconfundível, na tribuna do Senado na 
sessão que discute a admissibilidade do impeachment.
As semelhanças entre eles são inescapáveis. O estilo, o aplomb, o charme de homens do mundo. São 
coroas enxutos, como diria sua tia, inteiraços, como diria seu tio, eternamente exaltados, bons de 
gogó, o cabelo tingido de prateado porque sabem que acaju não rola.
Repórteres que estão cobrindo essas horas tragicômicas garantem que o plenário silenciou para ouvi-
los.
Ambos adotaram um tom revanchista, rancoroso e de “eu bem que avisei”. O autor do texto deve ser 
o mesmo. Dois derrotados numa hora de ilusão de vitória, dando lições à posteridade.
Como estamos no terreno do surrealismo, passa por normal que sujeitos com uma fica mais suja que 
pau de galinheiro, metidos na Lava Jato, com uma lista de denúncias em seus estados, dêem aulas de 
ética e administração pública.
Aécio elencou todas as desgraças da economia, babando de contentamento ao dar más notícias e 
atribuindo-as aos “governos populistas”.
“Nada disso começou agora. Disputei as eleições em 2014. Tentamos estabelecer um debate altivo e 
republicano [Risos]. Falávamos de queda do PIB, éramos [chamados de] derrotistas.”, declarou.
“Eu me lembro que, nos últimos debates, eu alertava a senhora presidente da república para as 
pedaladas fiscais. Ela, por não compreender aquilo naquele instante, sequer respondeu”.
Citou no final o avô, Tancredo Neves, numa frase particularmente piegas sobre o povo brasileiro. 
Pobre Tancredo, que na madrugada de 2 de abril de 1964 xingou o presidente do Senado, Auro 
Moura Andrade, de “canalha” quando este declarou vaga a presidência.
Cinquenta e dois anos depois, o neto celebra o golpe, achando, mais uma vez, que vai se dar bem 
quando, na verdade, ele e seu partido serão sócios minoritários do PMDB numa fraude que vai 
acabar num vale de lágrimas.
Collor, um dos mais aguardados da noite, não decepcionou. Em 1992, seu mandato foi interrompido 
pela Casa onde hoje dá expediente. O PT foi um dos verdugos.
Criticou a ex-aliada Dilma Rousseff, fez várias auto referências a seu impeachment e lembrou que o 
país “jamais passou por uma confluência tão clara por crises na política e na moralidade”.
Parêntese: o sujeito confiscou a poupança. A POUPANÇA. Fecha parêntese.
“Chegamos às ruínas de um governo e de um país. Todas as tragédias se reduzem a uma mesma 
tragédia. Constatamos que o maior crime de responsabilidade está na irresponsabilidade pelo 
desleixo com a política, na irresponsabilidade pelo aparelhamento desenfreado do estado que o torna 
ineficaz”, falou.
E então, como o colega de apoplexia Aécio Neves, apontou a razão de todo o problema: ele deu 
vários toques, mas ninguém deu bola.
“Não foi por falta de aviso. Falei dos erros na economia, da falta de diálogo com o parlamento. Não 
me escutaram. Ouvidos de mercador. Relegaram minha experiência”, lamentou. “A história me 
reservou esse momento”.
O patético supremo é o autoengano da dupla — e dos trios, quartetos e quadrilhas de senadores. 
Tremendos pilantras, rematados golpistas, chaves de cadeia posando como tribunos romanos para 
multidões de trouxas.
Separados por uma década, Fernando Collor (66 anos) e Aécio Neves curtem seu brilho fugaz na 
longa jornada noite adentro da democracia dando uma lição de picaretagem. Esse país, o deles, 
acabou.
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