segunda-feira, 4 de abril de 2016

“Não vai ter golpe!” – O grito de Salvador no show de Caetano e Gil.


Caetano Veloso e Gilberto Gil 

por : Nathali Macedo
Uma boa tradução de baianidade – dentre as muitas possíveis e existentes – é cantar Luz de Tieta 
com Gil e Caetano no farol da Barra. 
Pratiquei ontem esse celebrar baiano, quando me juntei a 150 mil pessoas – soteropolitanos, baianos 
do interior, sulistas, gringos, gente de todos os cantos, como é comum por aqui – que comemoravam 
o aniversário 467 anos de Salvador com o dueto majestoso de Caetano Veloso e Gilberto Gil (Chico, 
nós sentimos a sua falta).
Apesar da sonorização mal planejada que impedia que aqueles clássicos nos parecessem audíveis – o 
prefeito ACM Neto estava mais preocupado com fogos de artifício do que com uma sonorização 
decente – a energia da dupla amada foi suficiente para manter nossas mãos em riste e nosso coração 
suspenso.
Todas as gerações estavam ali, adorando Caetano e Gil, venerando não apenas a música, mas tudo 
mais o que ambos representam, e pondo em prática da maneira mais espontânea possível todo o 
respeito que a Bahia deve à dupla desde os Doces Bárbaros, desde o Tropicalismo, desde quando 
Caetano ainda era cabeludo e Gil fazia o inesquecível tributo a Bob Marley.
Salvador reverenciou os seus padrinhos, mas este não foi só um show de comemoração. Gritos de 
“Não vai ter golpe!” e “Odeio você, Cunha” nos lembraram, mais uma vez, que o Povo não dorme.
Quando um povo se manifesta – por livre e espontânea vontade – numa festa de largo, significa, no 
mínimo, que o sentimento que nos une em torno de um ideal democrático já nos é intrínseco, natural, 
visceral. Significa que nós somos o Brasil e finalmente nos conscientizamos disto – e ter essa certeza 
repentina num calor humano de 150 mil pessoas beira o inexprimível.
As figuras de Caetano e Gil não são só musicais, isso é óbvio. São, antes de tudo, a esperança de que 
a arte ainda está ao lado do povo.
Não são pastores de ovelhas perdidas – porque nós sabemos bem onde estamos pisando – mas são a 
nossa voz amplificada, são a resistência poética e não menos corajosa, eles são a Bahia e são os 
baianos.
Foi lindo comemorar o aniversário dessa cidade amada lembrando que um Brasil melhor se faz com 
resistência, com democracia e com arte – melhor ainda é lembrar disso com Three little birds (nada 
poderia ser mais simbólico para este momento).
A Globo não noticiará, mas não teve golpe na Bahia. Teve energia, baianidade, Luz de Tieta em um 
coro de 150 mil pessoas e uma voz que não se cala.
P.S Parabéns, Salvador. Seus filhos são lindos.
_________________________________________________

Nenhum comentário: