segunda-feira, 18 de abril de 2016

GOVERNO ACEFALO, POVO CANSADO E DIAS DE INCERTEZA



No Balaio do Kotscho

No meio das comemorações e lamentações com a vitória do impeachment na Câmara, foram poucos 
os que na noite de domingo se deram conta: amanhecemos nesta segunda-feira com um governo 
acéfalo e assim poderemos continuar por algumas semanas até o Senado votar pela abertura ou não 
do processo contra Dilma Rousseff, que pode durar até 180 dias.
Temos no momento dois governos e, na verdade, nenhum. O de Dilma, que já estava se desfazendo 
antes mesmo da votação, e o de Michel Temer, que ainda não existe.
Com cinco ministérios abandonados pelos antigos aliados PMDB, PP e PSD, além da Casa Civil que 
está sem titular desde que o STF suspendeu a posse de Lula, a quase ex-presidente Dilma terá 
dificuldades para administrar agora a massa falida. Na verdade, estamos sem governo desde o final 
do ano passado, quando Eduardo Cunha colocou em movimento o processo de impeachment e Dilma 
passou a se dedicar apenas a salvar o seu mandato, sem mostrar qualquer iniciativa ou capacidade de 
reação para reativar a economia.
Quem vai querer agora aceitar um ministério oferecido por ela, sabendo que pode ser por muito 
pouco tempo? Quem vai lhe pedir uma audiência ou convidar para um almoço? Quem irá ao Palácio 
do Planalto levar reivindicações ou projetos de novos investimentos?
Todas as atenções e cobiças já se voltaram para a expectativa de poder de Michel Temer, que terá 
muito pouco tempo para montar o seu governo, com um ministério de respeito, assegurar maioria no 
Congresso e apresentar os primeiros planos de "salvação nacional" para conquistar a confiança da 
sociedade, o que não vai ser fácil. As últimas pesquisas mostram que o quase novo presidente conta 
com apenas 1% de aprovação do eleitorado e quase 60% de rejeição.
Pela votação no colégio eleitoral da Câmara na disputa indireta com Dilma, Temer mostrou que 
conta com ampla maioria parlamentar (367 a 137), além do apoio do mercado e do empresariado e 
da boa vontade da grande mídia _ tudo o que a ainda presidente não tinha mais. Ao receber o apoio 
de apenas 137 deputados em 513, ela demonstrou também que não teria condições de continuar 
governando, mesmo que a oposição não conseguisse os 342 votos necessários para dar 
prosseguimento ao processo de impeachment.
Em seus cinco anos e quatro meses de mandato, Dilma hostilizou tanto aliados como adversários e 
acabou isolada nos seus palácios, assistindo ao derretimento da economia, que levou à recessão, com 
inflação e desemprego, e a deixou com apenas 10% de aprovação popular. O desfecho desta história 
não deve ter surpreendido ninguém. Não dá para apontar um motivo só para a sua queda: foi o 
conjunto da obra. Ninguém aguentava mais.
O povo cansou. Deu para perceber isso no domingo, quando as manifestações pró e contra o governo 
reuniram muito menos gente do que os atos anteriores. A grande maioria dos brasileiros preferiu ver 
a decisão da guerra política pela TV. Exemplo disso foi o que aconteceu em Brasília, onde montaram 
um portentoso esquema de segurança para separar os dois exércitos, com um muro de aço no meio, 
mas foram contados apenas 57 mil participantes durante todo o dia, somando os dois lados.
O lado bom da história é que não houve confrontos, e tudo acabou em pizza na casa do folclórico 
deputado Heráclito Fortes, um festivo anfitrião do poder de turno, como costuma acontecer em 
Brasília. Para nós outros da planície, restaram dias de incerteza sobre o que virá pela frente.
Após uma primeira sensação de alívio diante de uma situação que estava insustentável para a maioria 
da população, quem sabe em breve possamos virar o disco com outros personagens e novos assuntos 
capazes de devolver um pouco de esperança ao sofrido povo brasileiro. Até lá, ainda teremos 
certamente muitas batalhas na Justiça e na montagem do novo governo.
Já se fala em antecipar eleições presidenciais para este ano e na volta do parlamentarismo. Como 
querer fazer isso com os parlamentares que temos e que nestes últimos três dias acabaram de 
promover um espetáculo deprimente de sabujice, hipocrisia e mediocridade explícitas, 
transformando a Câmara dos Deputados numa Câmara de Municipal de Caixa Prego, sob a alta 
direção de Eduardo Cunha?
E vida que segue.
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