quarta-feira, 6 de abril de 2016

GLOBO PAGOU OFFSHORE POR DIREITOS DE TRANSMISSÃO


A empresa holandesa e a TV Globo tiveram contratos negociados de 2004 a 2019


Jornal GGN - A relação entre a Mossack Fonseca, especialista em criação de empresas em paraísos 
fiscais, com as Organizações Globo vai, aos poucos, ganhando novas provas de indícios de crimes. A 
nova leva de documentos intitulada Panama Papers trouxe, por exemplo, a comprovação de que a TV 
Globo negociou aportes milionários com offshores para obter contratos de direitos de transmissão de 
jogos, entre 2004 e 2019.
Todos os dados da Mossack Fonseca e suas offshores, reunidos na investigação Panama Papers, do 
Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), estão nas mãos de jornalistas do Uol, do 
Estado de S. Paulo e da RedeTV!. Mas nenhuma informação sobre documentos da TV Globo foi 
publicada, até agora, pelos veículos brasileiros.
O La Nación, da Argentina, foi quem detalhou o passo-a-passo do esquema montado na offshore 
T&T para esconder o caminho do dinheiro usado pelo argentino Alejandro Burzaco, executivo da 
Torneios SA para obter os direitos televisivos da Copa Libertadores durante 14 anos. A empresa 
T&T tornou-se uma grande intermediadora de venda de direitos, tema que já é investigado pela 
Justiça norte-americana com o escândalo da Fifa.
Abaixo, a reportagem completa do jornal argentino, traduzido pelo GGN:
Libertadores

As transações, realizadas por uma offshore nas Ilhas Cayman, levaram o executivo a obter os 
direitos para o torneio

O alto executivo da Torneios SA, Alejandro Burzaco, movimentou 370 milhões de dólares por meio 
de um grupo de empresas criadas em diversos paraísos fiscais para obter os direitos televisivos da 
Copa Libertadores durante 14 anos. A metodologia utilizada, que agora vem à público, reproduz a 
que levou a Justiça norte-americana a prendê-lo como um dos protagonistas decisivos do escândalo 
da FIFA.
Burzaco fixou suas operações para obter os direitos para a Libertadores em uma sociedade 
identificada como Torneios & Traffic Sports Marketing LTD (T&T), com base nas Ilhas Cayman, 
embora tenha incluído paradas em Chipre, no Uruguai e na Holanda, de acordo com centenas de 
documentos e extensas trocas de e-mails obtidos pelo Consórcio Internacional de Jornalistas 
investigativos (ICIJ), e pelo jornal alemão Sueddeutsche Zeitung, da qual teve acesso o La Nación e 
El Trece.
O então poderoso CEO da Torneios SA e outros empresários argentinos desenvolveram essas 
manobras com a ajuda da Mossack Fonseca, uma agência especializada em administrar empresas em 
paraísos fiscais. A T&T cedeu os direitos televisivos para a sociedade Torneios & Traffic Sports 
Marketing BV, sediada na Holanda, para operar como intermediária nas negociações com os canais 
de TV. E por trás dessa empresa holandesa, o escritório panamenho montou redes via Chipre e 
Uruguai com o objetivo de blindar o vazamento de quem seria o verdadeiro dono.
Mas esta metodologia, que agora vem à luz nos documentos do Panamá, é a que estava investigando 
a justiça norte-americana, que prendeu no ano passado Burzaco, acusado de obter contratos de 
televisão da Copa América, mediante o pagamento de propinas. Também, neste caso, os 
intermediários e offshores envolvidos são os mesmos da investigação da Fifa.
O complexo da rede societária parte em Buenos Aires. Torneios e Competições SA (T&C) detém 
25% da offshore T&T, a empresa que concluiu o pagamento de 370 milhões de dólares para a 
Conmebol, quando Burzaco era o CEO da T&C.
O primeiro grupo foi montado para criar a T&T nas Ilhas Cayman, com vários intermediários. O 
vínculo entre a T&T e a CONMEBOL seguiu três etapas: o primeiro contrato foi assinado em 22 de 
agosto de 2003, na edição da Taça Libertadores em 2004-2010. O acordo foi mais tarde estendido 
para 2014 e, depois, mais uma vez renovado para 2018. Esse último contrato, assinado em 06 de 
março de 2008 – sim, dez anos antes – expõe a natureza secreta da operação: exige confidencialidade 
da relação de negócio, mesmo após a conclusão. Quem assinou? O argentino Julio Humberto 
Grondona e Eduardo Deluca, ambos do Comitê Executivo da CONMEBOL, e o presidente da 
entidade, Nicolás Leoz.
A afinidade entre a T&T e a Confederação também ficou evidente quando a empresa obteve a 
prioridade em uma das renovações. Inclusive, no último contrato, a empresa pagou um prêmio de 4 
milhões de dólares extras.
O contrato permitia a T&T impor condições, inclusive, no aspecto esportivo da Copa Libertadores. A 
CONMEBOL deu a empresa o poder de exigir que as equipes tivessem um mínimo de sete jogadores 
titulares com, pelo menos, 15 partidas em primeiro lugar. Além disso, a empresa devia dar a sua 
aprovação sobre os locais, datas e horários das partidas.
Redes
Por razões fiscais, em 2012, a T&T transferiu os seus direitos à empresa Torneios&Traffic Sports 
Marketing BV, com sede nos Países Baixos. Por trás dessa offshore holandesa, a Mossack Fonseca 
criou a Medak Holding Ltd., registrada em Chipre, que, por sua vez, era controlada pela uruguaia 
Henlets Grupo.
O beneficiário final do Grupo Henlets era o uruguaio Escardó Barbe, até sua morte, em 2014. Após a 
sua morte, tornou-se acionista e diretora da Medak Marina Kantarovsky uma moradora de Córdoba, 
de 32 anos, que vive com o marido, o holandês Maarten Van Genutchen, que passou a ser o diretor 
da T&T Holanda, mas renunciou quando o esquema de corrupção da FIFA foi deflagrado. Os jornais 
El Trece e La Nacion tentaram se comunicar com o casal, mas não obtiveram resposta.
A empresa holandesa, com licença de televisão concedida pela T&T, intermediava a venda dos 
direitos. Por exemplo, a offshore negociou aportes milionários com a TV Globo do Brasil, que eram 
depositados no ING Bank, em Amsterdã. A empresa holandesa e a TV Globo tiveram contratos 
negociados de 2004 a 2019, a uma quantia estimada de 10 milhões de dólares.
Enquanto comercializavam direitos já adquiridos, a empresa holandesa executou curiosos 
subcontratos, algumas vezes, com José Margulies. Este empresário argentino naturalizado brasileiro 
é acusado pelos EUA de ser o facilitador de propinas para os dirigentes da Conmebol. As 
contratações eram realizadas por duas de suas empresas – também investigados pela justiça – a 
Somerton Ltd., registrada em Turks e Caicos, e Valente Corp., no Panamá.
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