quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

PREMIO NOBEL STIGLITZ DIZ QUE BC BRASILEIRO ESTRANGULA A ECONOMIA



Poucas leituras sobre a situação da economia brasileira e sobre a crise mundial são tão claras e
límpidas quanto a da entrevista – apesar do entrevistador “teimar” com o discurso “mercadista” – do 
Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz ao Estadão. O Nassif a publica, e lá pode ser lida na 
íntegra. O que diz ele, tentando resumir ainda mais o que está resumido e claro em suas declarações:
A crise brasileira é feita da derrubada vertiginosa do preço das commodities (minério de ferro e soja, 
especialmente) e do ambiente político criado pela Lava Jato.
Nossa inflação é de custos, não de demanda e, neste caso, juros altos não são solução, mas problema.
” Nesse caso, a forma pela qual a alta dos juros reduz a inflação é matando a economia. Se você 
conseguir desemprego o suficiente, os salários são deprimidos, e você segura a inflação. Mas isso é 
matar a economia.

A crise mundial, diz Stiglitz, tem quatro fundamentos:

1) a desigualdade, que restringe consumo, porque um pequeno grupo, por mais consumista que 
possa ser, não iguala em volume a massa de excluídos que não consomem ou cortam seu 
consumo;
2) As duas maiores economias do mundo, EUA e China, estão mudando de modelo. O primeiro, 
sai da indústria para os serviços; a segunda, da exportação para o mercado interno. Metamorfoses 
levam tempo e reduzem o metabolismo;
3) As políticas econômicas de austeridade fiscal levaram o terceiro bloco econômico, depois dos 
dois acima, a Zona do Euro, a uma situação de “bagunça” econômica, que deixou a Europa 
estagnada e lá, como nos EUA, os cortes orçamentários se refletiram na não-recuperação do 
emprego, especialmente do setor público;
4) A queda nos preços das commodities e de determinados produtos, como o aço, não extingue 
seus resultados entre vendedor e comprador. Reduz gastos, reduz ganhos mas isso também reduz a 
circulação da riqueza no comércio e, claro, a riqueza vai – cada vez mais – para o setor financeiro.

Leia o texto, é uma oportunidade espetacular de ver que economistas de verdade não são os que 
falam empolado, nem jornalistas que repetem as bobagens do mercado para que você não entenda o 
mundo.


Como o sr. vê os atuais problemas do Brasil?
A característica distintiva do Brasil é que a política monetária estrangula a economia. Vocês têm 
uma das mais altas taxas de juros no mundo. Se o Brasil reagisse à queda no preço das exportações 
com medidas contracíclicas, o País talvez pudesse ter evitado a intensidade da atual crise. Outra 
questão é que, sempre que ocorrem escândalos de corrupção da magnitude do que acontece agora no 
Brasil, a economia é jogada para baixo. Isso cria uma espécie de paralisia. O sistema legal no Brasil 
está colocando muita gente na prisão. Não estou dizendo que não deveriam fazer isso, mas a política 
monetária deveria reconhecer que este é um período em que haverá restrição de gastos, 
particularmente no setor público, em que as pessoas serão mais cautelosas em tomar decisões, em 
que a construção civil vai se contrair.

Mas a inflação está muito mais elevada que o teto de tolerância 
do sistema de metas.
e modelo que diz que, se a inflação está alta, você sobe os juros é uma teoria que foi desacreditada. É 
preciso saber qual é a fonte da inflação. Se for excesso de demanda, aí você sobe juros, porque tem 
de moderar a demanda. Mas se for um impulso dos custos, você tem de ser cuidadoso. Nesse caso, a 
forma pela qual a alta dos juros reduz a inflação é matando a economia. Se você conseguir 
desemprego o suficiente, os salários são deprimidos, e você segura a inflação. Mas isso é matar a 
economia. Não é bom ter inflação em disparada, mas também não é bom matar a economia. E eu 
acho que eles (o BC brasileiro) perderam esse equilíbrio.

No Brasil, muita gente acha que a culpa é da política fiscal, e 
não do Banco Central.
Quando a economia se desacelera, as receitas tributárias caem e ocorrem déficits. Se a economia for 
estimulada, a receita sobe. Dessa forma, a política monetária pode ajudar a política fiscal.

Então o problema no Brasil é a política monetária?
Na verdade, vocês têm dois problemas: o colapso do preço das exportações e o escândalo de 
corrupção. O que eu disse é que a política monetária deveria se contrapor a esses fatores, mas, em 
vez disso, ela está agravando o problema.

Como o sr. vê a economia global hoje?
Meu diagnóstico não é nada complicado: há falta de demanda agregada global. Mesmo antes da 
crise, o que sustentava a economia americana era uma bolha artificial. Se não fosse por ela, a 
economia teria sido fraca.

Por que a demanda global está fraca?
Olhando em volta do mundo, há quatro razões básicas. A primeira é a desigualdade. As pessoas no 
topo não gastam tanto (como parte da sua renda) quanto as pessoas na base. Então, à medida que a 
desigualdade cresce, a demanda se enfraquece. Em segundo lugar, há transformações estruturais 
acontecendo em quase todos os países. Nos EUA, a transição da indústria manufatureira para os 
serviços. Na China, das exportações para a demanda interna. Mas os mercados são duros em 
conduzir essas transições. Tem sempre gente que fica para trás, o que contribui para a desigualdade. 
Os setores que ficam para trás não podem demandar bens. Em terceiro lugar, a zona do euro está 
uma bagunça, com políticas econômicas que contribuíram para reduzir o crescimento.

O sr. se refere à austeridade?
Sim, até nos EUA temos uma forma moderada de austeridade, pela pressão política dos 
Republicanos. Nós temos meio milhão de empregos menos no setor público do que tínhamos em 
2008, antes da crise, e, se houvesse uma expansão normal da economia, seriam dois milhões mais. 
Então temos austeridade nos EUA.

E qual seria o quarto fator para a demanda global 
enfraquecida?
Sempre que há uma perturbação como a queda do preço do petróleo. Todo mundo esperava que o 
preço mais baixo estimularia a demanda, mas se esqueceram de que se trata de redistribuição. Os 
vendedores perdem e os compradores ganham. Se os vendedores diminuem seus gastos em 
exatamente o mesmo volume que os compradores aumentam, não há nenhuma mudança. Mas há 
assimetrias. Muitas vezes os que perdem têm de contrair o seu gasto, dólar por dólar, e aqueles que 
ganham economizam, pois não sabem se o ganho é temporário ou de longo prazo. E os 
desdobramentos podem ser ainda piores em termos de investimento – uma das fontes de crescimento 
nos EUA e outros países vinha sendo o investimento em hidrocarbonetos (petróleo e gás). E isso foi 
cortado. Os efeitos são enormes. Da mesma forma, a desaceleração na China provoca a queda do 
preço do minério de ferro, e os ganhadores não gastam mais tanto quanto os vendedores gastam 
menos.

Qual a sua previsão para 2016?
É provável que essas tendências que eu descrevi continuem este ano. Se eu fosse otimista, eu 
chamaria atenção para o fato de que o orçamento americano acabou sendo melhor do que o esperado, 
mas há muitos fatores negativos. Não vejo nada positivo na Europa. Acho que muita gente esperava 
a desaceleração na China, mas não o tamanho da turbulência financeira. Tudo isso me diz que 2016 
será tão ruim ou pior do que 2015.

O problema da economia global é demanda, para o senhor. 
Qual seria a terapia?
A terapia econômica é fácil. O problema é a política. Em termos econômicos, precisamos de um 
aumento dos gastos do governo nos EUA e na Europa. Nos dois casos, os setores públicos podem 
tomar emprestado a juros muito baixos. E, por outro lado, é preciso investimento em tecnologia, 
educação, infraestrutura. Isso estimularia a economia. Compraríamos mais do Brasil, o que ajudaria 
vocês. Na Europa e nos EUA, temos espaço fiscal, vocês têm menos. Mesmo que os EUA 
estivessem preocupados com o déficit público, podemos elevar impostos. Nossos impostos são muito 
baixos. Podemos aumentar impostos, conseguir mais igualdade.

E qual o obstáculo para isso?
O problema maior está nos EUA e na Europa, e se resume à política. Na verdade, é um pouco mais 
complicado. Nos EUA, é apenas a política. Acredito que há um amplo sentimento no Partido 
Democrata em favor das políticas que acabei de descrever. Na Europa, é complicado por causa da 
ideologia alemã. Tenho dúvida de que, caso a oposição vencesse, haveria uma mudança. Os alemães 
reescreveram a história para acreditar que a inflação foi o problema principal (na ascensão do 
nazismo), mas o que causou Hitler foi o desemprego. E eles se esqueceram disso. Eles esqueceram 
que o desemprego é a verdadeira causa da instabilidade social. E eles promovem políticas que 
causam o desemprego. Então a zona do euro tem de ser reformada, e isso é mais difícil, é um 
problema estrutural.
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