quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Delação de Cerveró, a oficial, derruba factoides da mídia



Em setembro do ano passado, a imprensa brasileira repercutiu com estardalhaço trechos do 
esboço de delação premiada de Nestor Cerveró, ex-diretor internacional da Petrobras; a 
acusação era que a campanha de Lula em 2006 havia recebido R$ 4 milhões da Odebrecht em 
contrapartida por obras na refinaria de Pasadena – o que mereceu até capa da revista Época; 
agora, sabe-se, pelo Valor Econômico, que esta informação não consta da delação oficial de 
Cerveró; ou seja: enquanto negociava seu acordo, Cerveró esquentava as acusações; ao ter que 
falar oficialmente, retirou a pimenta que fez a festa da imprensa engajada na destruição de 
Lula e das empreiteiras nacionais

Reportagem publicada no Valor hoje derruba um montão de factoides divulgados nos últimos dias, 
sobre a delação de Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobrás.
O próprio Valor (que também pertence aos barões), para tentar reduzir o vexame passado pelos 
jornalões, enfatiza que Cerveró "muda versão de propina à campanha de Lula", omitindo dos leitores 
a explicação, básica, de que as informações anteriores sobre a delação de Cerverá eram baseadas em 
vazamentos ilegais, parciais e tirados de um processo de "pré-delação".
A "mudança" no depoimento de Cerveró evidencia a fragilidade de se basear qualquer denúncia com 
base em "delações premiadas", feitas por executivos desesperados para não serem "justiçados" por 
Sergio Moro.
Não apenas os depoimentos dos delatores não são confiáveis, como as perguntas de seus 
entrevistadores (procuradores ou delegados) são frequentemente capciosas, feitas com objetivo de 
criar respostas dúbias, mas que sirvam de manchetes para os jornais. Em seguida, já se detectou 
manipulação até mesmo no momento de transcrever as respostas dos delatores.
O vazamento parcial coroa um processo viciado do início ao fim.
Historiadores terão dificuldades para acreditar no nível de manipulação a que chegou a nossa 
imprensa, de tão ridícula que esta se tornou em seu afã para fazer política.
Os factoides sobre a delação de Cerveró baseavam-se em documentos contendo trechos de uma 
delação ainda não homologada, e portanto ainda não oficial de Cerveró, alguns deles encontrados no 
escritório de Delcídio Amaral.
Mais surreal ainda é que Aécio Neves tenha manifestado a intenção de agregar a delação de Cerveró 
ao processo que o seu partido move contra Dilma no TSE, só que o tucano usa como base as 
informações vazadas pela imprensa, que são falsas, e não a delação verdadeira de Cerveró, aquela 
homologada pelo STF (que também precisa ser comprovada, claro).
O Valor teve acesso à delação homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a única que tem 
valor legal, e que contradiz um monte de coisa divulgada pela imprensa nos últimos dias. Por 
exemplo:

1) Em sua delação homologada no STF, Nestor Cerveró não menciona Lula. Nem campanha de 
Lula. Cerveró fala que o "destino do dinheiro" da UTC seria decidido por Delcídio do Amaral.
2) Cerveró não menciona participação da Odebrecht em nenhum esquema, quanto mais no 
esquema do revamp (renovação do parque de refino) da refinaria de Pasadena.

3) Cerveró menciona R$ 4 milhões da UTC (os mesmos cujo destino seria decidido por 
Delcídio), doados pela empresa com vistas a uma contrapartida da Petrobrás: obras de revamp 
em Pasadena. Mas não fala em campanha de Lula. E admite que a UTC acabou não ganhando 
obra alguma em Pasadena. Ou seja, não houve contrapartida.

4) O nome de Dilma, que aparece algumas vezes na "pré-delação" vazada pela imprensa, não 
aparece uma só vez na delação homologada no STF.

O Valor, estranhamente, não fala nada sobre a delação de Cerveró acerca de um negócio do governo 
FHC na Argentina, que teria gerado propina de US$ 100 milhões para o PSDB. A omissão deve ser 
por conta da famosa máxima da imprensa nacional: "podemos tirar se achar melhor".
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