quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

'A imprensa está pautada por bandidos', alerta Jorge Furtado


Segundo Furtado, a irresponsabilidade da mídia alimenta o espírito golpista da sociedade, na 
medida em que não oferece uma correta leitura da realidade. 

Naira Hofmeister

A memória prodigiosa para “lembrar de nomes esquisitos” somada à curiosidade investigativa 
permitiu ao cineasta Jorge Furtado criar uma pequena enciclopédia de casos que exemplificam como 
a imprensa trai seu compromisso de informar o cidadão no Brasil.
Ele deu uma amostra disso ao público que assistiu a sua palestra na Assembleia Legislativa do Rio 
Grande do Sul, no último sábado, 12 de dezembro. Disse mais: que a irresponsabilidade da mídia 
alimenta o espírito golpista da sociedade, na medida em que não oferece uma correta leitura da 
realidade brasileira.
“Os jornais estão impregnados de ideologia. A infâmia e a fama são absolutas nessa era da 
mídia”, lamentou.
 Apesar de sua crítica da imprensa, Furtado tinha uma perspectiva positiva, graças à novíssima lei 
que garante o Direito de Resposta àqueles que se sintam prejudicados por uma matéria distorcida ou 
mal apurada. “É uma novidade que pode mudar muita coisa”, exaltou o cineasta, apontando o 
episódio.
Mal sabia Furtado que dois dias após sua fala, a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) – que 
representa os conglomerados de comunicação do país – entraria com uma ação no Supremo Tribunal 
Federal (STF) para cassar a recém-editada lei, nesta segunda-feira (14).
Segundo o portal especializado Jota, a Ação Direta de Inconstitucionalidade tenta anular cinco dos 
12 artigos que regulamentam o Direito de Resposta. A justificativa da ANJ é que a norma “afronta 
garantias constitucionais a exemplo do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa”, 
entre outros.
“Na prática, o instituto do direito de resposta, ao invés de pluralizar o debate democrático, 
converteu-se em instrumento capaz de promover grave e inadmissível efeito silenciador sobre a 
imprensa”, defendem os jornalões.
O cineasta não sabia ainda da iniciativa dos empresários da comunicação, mas de sua palestra pode-
se concluir que daria uma gargalhada diante dos argumentos.
“A imprensa publica o que quer, sem checar nenhuma denúncia. Depois, quando elas não se 
confirmam, ninguém volta para retificar”, condenou no sábado.
Além da investida contrária da ANJ, a força da medida ficou evidente quando O Globo publicou uma 
errata na capa do jornal, desmentindo uma informação que havia sido manchete em outubro e que 
vinculava o filho de Lula à corrupção investigada pela Operação Lava Jato - não por força da Justiça, 
mas por iniciativa própria do jornal, dado que a norma estava por ser assinada pela presidenta Dilma 
Rousseff.
O caso Rubnei Quícoli
Um dos “nomes estranhos” que Jorge Furtado nunca apagou da memória é Rubnei Quícoli – “já 
pensou um personagem com nome desses?”, introduziu.
Rubnei Quícoli protagonizou uma ficção em 2010, mas ela saiu no jornal como verdade e Furtado 
lembra do episódio com detalhes. “Deram uma foto de meia página dele com um terno preto em 
cima de um edifício muito alto. Parecia assim uma campanha da Hugo Boss”, comparou.
A imagem ilustrava uma reportagem em que Quícoli acusava a ex-ministra da Casa Civil Erenice 
Guerra de ter cobrado propina para negociar um empréstimo do BNDES a um empreendimento seu 
na área de energia eólica.
Erenice chegou a ser investigada, mas nada sendo provado contra ela, o processo foi arquivado. A 
Folha de S.Paulo se limitou a noticiar o fim do inquérito.
A indignação de Furtado, entretanto, recai sobre o inusitado fato de que o denunciante, Quícoli, era 
um bandido com extensa ficha criminal. “Ele tinha várias passagens pela polícia. Chegou a tentar 
vender um caminhão e sua carga roubada ao antigo dono e depois tentou matar o motorista que o 
entregou”, recordou.
“E esse sujeito ocupa a capa da Folha de S.Paulo”, surpreende-se, passados já cinco anos do episódio.
Furtado coloca no mesmo cesto outros nomes que memórias ordinárias são capazes de reconhecer: o 
ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) ou os delatores da Lava Jato. “São bandidos que alimentam 
diariamente a imprensa, são eles que fazem as capas de jornais diariamente”, conclui.
A corrupção na Petrobras
O cineasta – que levou às telas de cinema seu olhar sobre a imprensa brasileira no documentário
O Mercado de Notícias (fragmentos podem ser assistidos aqui;http://www.omercadodenoticias.com.br/
 – condena a partidarização da imprensa no Brasil, coisa que, aliás, foi assumida pela ex-presidente 
da ANJ Judith Brito, quando ainda comandava a entidade: “Os meios de comunicação estão fazendo 
de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada”, ela 
explicou em 2010.
“Neste caso, a imprensa assume que deixa de fazer jornalismo e passa a fazer política. Não se dedica 
mais a buscar a verdade factual e isso é um grave problema para a democracia”, defendeu.
Furtado exemplificou, com o caso da Petrobras, que o senso comum já se acostumou a relacionar a 
uma desvalorização e desmonte que seriam consequências diretas da corrupção ocorrida nestes 13 
anos de governo do PT.
“Só que outro dia descobri que a Petrobras se tornou a maior petrolífera do mundo este ano! Que 
bateu o recorde de exploração de petróleo, alcançando 1 bilhão de barris. Esse ano!”, repetiu.
Ele também leu manchetes dos jornais dos anos 60, nas quais eram relatados problemas de corrupção 
graves na estatal. Lembrou ainda que as denúncias dos jornalistas Paulo Francis, na década de 90, e 
Ricardo Boechat ainda nos anos 80 sobre os desvios de verba para uso pessoal na Petrobras. 
Boechat, hoje no grupo Bandeirantes, ganhou o prêmio mais respeitado do jornalismo brasileiro com 
sua investigação, O Esso.
Mesmo analisado o atual escândalo, Furtado lembra que em seus depoimentos, os delatores dizem 
que “essa quadrilha” operava na Petrobras desde 1997 – antes, portanto, de o PT assumir o Palácio 
do Planalto.
Outro elemento que lhe causou estranhamento foi ver uma reportagem sobre o pagamento de propina 
na estatal ilustrada com a imagem de uma lista dos receptores de dinheiro. O jornal borrou um trecho 
onde aparecia a inscrição “15M para JS”, seguidos do endereço e do telefone do ex-governador de 
São Paulo José Serra (PSDB).
“Puseram uma tarja preta para não mostrar a vinculação com Serra. Mas quando o Bumlai (José 
Carlos Bumlai) foi preso, ele era o ‘amigo do Lula’”, comparou.
“A eleição não terminou”
O bate-papo com Jorge Furtado foi uma promoção dos gabinetes dos deputados do Partido dos 
Trabalhadores (PT) Stela Farias (estadual) e Henrique Fontana (federal).
Era um momento que vinha sendo acalentado desde o ano passado, ainda quando se discutia a 
reforma política que acabou saindo de maneira enviesada. Na ocasião, se achou melhor deixar “para 
depois da eleição”.
“Só que a eleição ainda não terminou, ela não termina nunca”, lamentou o cineasta.
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