quarta-feira, 25 de março de 2015

Terceira geração de palestino-israelenses reinventa ativismo antiocupação e por direitos civis em Israel


"Bem-vindos à Palestina": jovem carrega cartaz em Jaffa, em março de 2014.  Filhos de 
sobreviventes do Nakba, jovens cresceram vendo parentes em Gaza e Cisjordânia sendo 
oprimidos e hoje lutam por libertação palestina enquanto buscam transformar estado de Israel 
por mais igualdade para todos os cidadãos

Para a maioria dos judeus israelenses, estes ativistas não têm nomes. Na pior das hipóteses, são agitadores e arremessadores de pedras que empunham a bandeira palestina. Na melhor, são uma minoria discriminada.
Seu novo ativismo é, por um lado, resultado de divisões geracionais e novas tecnologias que os conectaram ao restante do mundo árabe, que permaneceu interditado à população palestina desde a criação do Estado de Israel. Por outro lado, é também resultado dos recentes ataques israelenses contra seus parentes na Cisjordânia e em Gaza, da violência policial discriminatória e de um longo histórico de repressão política.
Muitos fatores ajudaram a dar forma a esta nova geração de ativistas palestinos em Israel. Eles usam nomes variados, definem suas identidades de maneira diversa e têm táticas e objetivos políticos também variados. Lutam pela libertação nacional palestina e por direitos civis em Israel, priorizando cada um dos tópicos de acordo com considerações estratégicas e táticas, e têm várias abordagens quanto à macropolítica.
A maioria destes jovens ativistas, quando vai às ruas, levanta a bandeira palestina, algo pouco visto entre as gerações anteriores de palestinos vivendo em Israel. Sua identidade nacional e expressividade, no entanto, foram amplamente influenciadas pela vida no Estado judeu.
"A primeira vez em que meu pai me viu carregando uma bandeira palestina, ele ficou louco", diz Abed Abu Shhadeh, 26 anos, de Jaffa. "Antes de Oslo, era ilegal fazer isso, e os palestinos morriam de medo da bandeira. Hoje, vemos muitas delas".
Esta é a terceira geração de cidadãos palestinos em Israel. A primeira geração experimentou o Nakba, deslocamento e expulsão da maioria dos palestinos da atual região fronteiriça de Israel, em 1948, bem como a destruição de quase todos os seus vilarejos. A segunda geração cresceu com medo: foram criados pelos sobreviventes do Nakba, viveram sob o governo militar de Israel e eram constantemente ameaçados e controlados pelo Estado, explica Rawan Bisharat.
"A terceira geração, especificamente desde a Intifada de 2000, é aquela que está se rebelando hoje. São caracterizados por sua força", continua. Mas frequentemente seus pais tentam impedi-los. Por causa da opressão sofrida pelas gerações anteriores, eles têm medo da expressividade política de seus filhos, bem como de suas consequências. "Eles não querem discutir a identidade nacional palestina com seus filhos, pois têm medo".
Rawan, 32 anos, originalmente de Nazaré, vive em Jaffa há cinco anos, onde é ativa em movimentos políticos e sociais. Ela é a coordenadora palestina do programa juvenil da Sedaka-Reut, uma ONG focada na educação da juventude palestina e judia, para que sejam mais ativos política e socialmente na criação de parcerias binacionais em prol da mudança social. Ela foi voluntária em uma organização chamada "Mulheres contra a Violência", em Nazaré, por mais de uma década, e trabalha com um grupo que prepara estudantes árabes do ensino médio para a educação superior. "Como minoria palestina, a educação é nossa arma", declara.
Enquanto todos os ativistas com quem conversei se definiam como árabes, também colocavam grande importância em sua identidade palestina.
"Palestinos em Ramallah podem se dizer palestinos – ninguém questionará. Mas para os palestinos de Israel, é preciso destacar isso", diz Rawan, adicionando que quando conversa com israelenses, "gosto de dizer que sou uma palestina de 48, ou seja, uma palestina com cidadania israelense, para deixar claro que há palestinos aqui [em Israel]. Nunca houve um Estado palestino, mas os palestinos viviam aqui. Minha avó era palestina, portanto sou palestina".
A identidade palestina é o cerne da luta desta geração, explica Hanin Majadli, 25, de Baqa al-Gharbiyye, que constituiu um séquito de fãs judeu-israelenses no Facebook, onde publica lições diárias de árabe. "Nós somos palestinos; somos palestinos a quem se impediu essa autoidentificação. É importante para mim que os israelenses saibam que eu não sou apenas uma 'israelense árabe', mas uma árabe palestina. Esta é uma nacionalidade que estão tentando esconder".
De muitas maneiras, a crescente expressividade da identidade nacional palestina entre cidadãos árabes de Israel é uma reação ao sionismo contemporâneo. Enquanto a política e a sociedade israelenses se voltam para a direita, os cidadãos palestinos se apegam a suas nacionalidade e herança palestinas com mais força.
"As leis malucas aprovadas nos últimos anos afetam as pessoas e a maneira como se identificam. É incrível como um grupo muito pequeno dentro da sociedade israelense conseguiu levar todo mundo para a extrema direita", diz Abed, explicando que, com a expressão "todo mundo", inclui os palestinos.
Mesmo aqueles que, de outra forma, não seriam atraídos pelo nacionalismo palestino, abraçam-no como uma defesa contra a radicalização e a intensificação do nacionalismo sionista, explica Hanin. "Eu sinto a necessidade de me apegar a quem sou. Os palestinos, hoje em dia, sentem uma grande necessidade de salientar que são palestinos".
"Assim como o Hamas, os judeus israelenses de extrema-direita realmente acreditam que esta é uma batalha religiosa, e em um período curto de tempo, conseguiram levar todo mundo para a direita", diz Abed.
O processo de paz de Oslo da década de 1990 deu às pessoas esperança por um futuro mhor, um futuro de autodeterminação nacional palestina e, para os cidadãos palestinos de Israel, um futuro de direitos iguais e oportunidades.
Mas algo mudou no ano de 2000. No início de outubro daquele ano, coincidindo com o fracasso do processo de paz e o início da Segunda Intifada, a polícia israelense matou 13 cidadãos árabes enquanto continha protestos em Nazaré e na Galileia.
Os assassinatos confirmaram os maiores medos da população palestina: não importa o que fizessem, ou o quanto quisessem se envolver, seriam tratados como cidadãos de segunda categoria, simplesmente por serem árabes.
"A Intifada de 2000 foi quando todo mundo viu uma mudança", diz Rawan. "A consciência política era muito evidente, e estava claro que nós [palestinos] estávamos todos ligados uns aos outros. Por um lado, vimos um crescimento da consciência política, e, por outro lado, perdemos nossas esperanças nas instituições israelenses".
"A cada guerra e a cada intifada, quando as pessoas em Jaffa assistem ao noticiário, elas veem são seus parentes da Cisjordânia e de Gaza", complementa Abed. Estes jovens ativistas se sentem parte inseparável da totalidade do povo palestino, e seus destinos estão entrelaçados.
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