quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Mantega merecia tratamento melhor na sua saída



Por Renato Rovai

Guido Mantega deixou o governo de forma melancólica após 12 anos ininterruptos atuando na área
econômica. Primeiro, como ministro do Planejamento; depois, como presidente do BNDES, e desde
27 de março de 2006 como ministro da Fazenda, o mais longevo da história democrática brasileira.
Nos últimos tempos, se tornou alvo de empresários e banqueiros e passou a ser tratado como
responsável por todas os problemas da economia do país, que de fato existem, mas são muito menores
do que os de outras bandas.
A questão que parece ter sido definitiva para esse mal estar com o ex-ministro foi a tentativa que o país
fez de baixar os juros em meados de 2012, quando a taxa chegou a 7,5%, o que levava o juro real a
menos de 2%, já que a inflação de 2012 fechou em 5,84%.
Esse momento da história econômica brasileira ainda precisa ser melhor contado. Ali, o governo
realizou uma das maiores ousadias do ponto de vista da ação do Estado para enfrentar o rentismo. E foi
bombardeado pela mídia, sempre fiel aos banqueiros, mas também pelos setores produtivos.
Qual foi o papel de Mantega e de Dilma naquela decisão? O que aconteceu para que depois os juros
voltassem com força? Houve erro na condução econômica? Foram os problemas externos que
impediram aquele movimento? Custou caro aquilo para o país ou valeu ter tentado?
O fato é que, errada ou não, a diminuição dos juros brasileiros sempre foi defendida por 10 entre cada
10 intelectuais de esquerda, principalmente os da área econômica.
Mas, se naquele episódio que lhe rendeu o ódio eterno dos banqueiros Mantega não foi bem sucedido,
em 2008, em meio a mais impactante crise mundial desde a do petróleo, em 1979, o Brasil conseguiu
escapar de ser atropelado e perder o rumo. Se naquele momento a opção não tivesse sido pelo mercado
interno, provavelmente o governo Lula teria terminado de outra maneira. E Dilma não seria eleita. E
quem estava à frente da economia naquele momento era Mantega.
Senão por outros motivos, como o de não fazer jogo duro contra a política de aumento da renda dos
mais pobres via salário mínimo e nem ficar entrando no jogo do discurso contrário aos programas
sociais, Mantega ao menos poderia ser celebrado pela histórica ação de defesa da economia brasileira
naquela crise patrocinada pelo setor financeiro internacional.
Mas o jogo é bruto e isso hoje parece uma vaga lembrança. Não interessa discutir aquele momento
histórico. Até porque foi em nome da ortodoxia econômica que aquela crise varreu economias mundo
afora. E agora o que se quer é voltar rapidamente a defender a mesma cartilha.
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