o jovem Tommy Ramone no fim dos anos setenta
por : Emir Ruivo
O movimento punk surgiu em meados dos anos 70 quase que simultaneamente entre várias grandes
metrópoles, principalmente em Londres e Nova Iorque. Há versões diversas para o surgimento do
movimento, e até há os que consideram punks os rebeldes dos anos 50 e 60 (“punk” significa algo
como “moleque” em inglês).
Mas foi nos anos 70 que apareceram os primeiros “ativistas” punks por assim dizer, num movimento
de contra-cultura em oposição aos hippies. Essa turma era embalada pelo pessoal que fazia um rock cru, simples, agitado e acelerado – The Stooges, New York Dolls e até mesmo o Velvet Underground, que
tinha seus momentos mais tranquilos.
Nesse cenário, no fim da década, surgem quatro bandas quase que ao mesmo tempo. Três delas em
Londres e uma em Nova Iorque. As inglesas eram os Sex Pistols, The Clash e The Damned. A
americana era os Ramones.
Os Ramones, como grande parte de seus contemporâneos, foram vítimas de sua própria criação. O
estilo de vida punk, como os artistas da era pré-punk já cantavam, vinha num pacote famoso: sexo,
drogas e rock&roll.
As músicas que retrataram o lifestyle, como “Beat On The Brat” (Bate No Fedelho) ou “Now I Wanna
Snif Some Glue” (Agora Quero Cheirar Um Pouco De Cola) não apenas retrataram, mas fomentaram
a atitude punk, para o bem e para o mau.
os Ramones, Tommy em primeiro plano
Joey Ramone era o líder e dividia as criações com o baixista Dee Dee. Ele não era dos punks mais
junkies, mas bebia, em certos momentos em excesso. Foi o primeiro a morrer, em 2001, de câncer.
Dee Dee Ramone, o baixista, foi o primeiro caso de vício notável em cocaína, heroína e psicotrópicos.
Deixou a banda no meio de uma turnê para ser substituído por alguns músicos que não duraram, até
que C. J. Ramone assumisse definitivamente.
Dee Dee foi o segundo Ramone morto, em 2002. Ele sim, vítima direta do vício: sua morte foi atribuída a uma overdose de heroína.
Johnny Ramone, o mais brilhante guitarrista ruim da história, morreu em 2004, também vítima de
câncer. Johnny, que em algum momento foi um jovem anarquista, mas que numa aparição histórica em
2002 agradeceu a administração de George W. Bush nos EUA, foi co-fundador da banda, esteve com
ela do começo ao fim e moldou a guitarra punk.
Tommy, algumas décadas depois
E então hoje é anunciada a morte de Tommy Ramone, o último Ramone “original” vivo, também de
câncer.
Tommy não foi exatamente um original, por isso as aspas. Os originais eram Joey, Dee Dee e Johnny.
Joey na bateria e Dee Dee cantando. Mas Dee Dee não conseguia tocar baixo e cantar ao mesmo
tempo, e Joey era Joey, o estranho, o maravilhoso Joey. Então Tommy entrou na bateria.
Ele fez os três primeiros discos, “Ramones” (1976), “Leave Home” (1977) e “Rocket To Russia”
(1978). Nesse período, definiu o estilo dos Ramones de bateria, com a condução em colcheias, que
seria copiado por seu sucessor, Marky, durante décadas.
Tommy deixou a banda depois de gravar “Rocket To Russia” alegadamente por diferenças com
Johnny, mas ele admitiu posteriormente que sofria de depressão e stress, e a briga fora apenas a gota
d’água.
São três mortes de câncer e uma de overdose. É possível que tenha havido influência indireta do uso de
álcool e outras drogas nesses cânceres. É possível que a agitação e o stress também tenham contribuído. Ou simplesmente foi resultado de um azar genético.
É improvável que todas as três mortes de câncer tenham sido caudadas pura e simplesmente pelo
infortúnio.
Sid Vicious, cantor e baixista do Sex Pistols em alguns dos primeiros singles gravados, morreu aos 21
anos. Os Ramones, entre os 50 e 60. A conta, cedo ou tarde, chega. Pra todos nós.
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