terça-feira, 17 de junho de 2014

A compra de votos para que FHC pudesse se reeleger


FHC comemora a emenda da reeleição, em 1997

por : Paulo Nogueira

Atualização: o jornalista da Folha que entrevistou o Senhor X, Fernando Rodrigues, voltou hoje ao assunto em seu blog. Aqui, o texto.
Quando me lembro de algumas coisas que disse, sinto inveja dos mudos, escreveu Sêneca, o grande estoico.
Pensei nisso quando li agora a resposta de FHC a Lula sobre a conhecida compra de votos no Congresso em 1996 para que ele, FHC, pudesse ser reeleito.
FHC, como o legítimo udenista que se tornou ao abraçar o moralismo cínico e calculado consagrado por Carlos Lacerda, acusou Lula de ter “vestido a carapuça”. Na convenção que consagrou a candidatura de Aécio, FHC afirmou que já era hora de o país de livrar dos “corruptos”. Lula evocou, então, a compra de votos.
“Falsidade”, disse FHC sobre as acusações.
Quem acredita nisso, como disse Wellington, acredita em tudo. Um dos envolvidos, o então deputado do Acre Narciso Mendes, contou na ocasião o episódio à Folha, que o tratou como “Senhor X”. Mendes, hoje com 67 anos, recebeu 200 000 reais em 1996, como muitos de seus colegas. Em dinheiro de hoje, é cerca de 530 000 reais.
Abaixo, um trecho de uma reportagem da Folha naqueles dias:
“O dinheiro (…) só foi entregue aos parlamentares na manhã do dia da votação do primeiro turno da emenda da reeleição, 28 de janeiro, uma terça-feira.
A entrega dos 200 000 reais em dinheiro, para cada deputado, foi feita mediante a devolução dos cheques pré-datados — que foram rasgados (…).
A troca dos cheques por dinheiro ocorreu em um local combinado em Brasília. Cada deputado se apresentou, rasgou seu cheque na hora e recebeu o pagamento em dinheiro dentro de uma sacola.”
Todo mundo sabia quem era o “Senhor X”, mas isso não estimulou nenhuma empresa de mídia a ir atrás de uma história simplesmente sensacional de corrupção.
O motivo é que FHC era amigo.
Todo mundo sabia que o Senhor X era ele
Todo mundo sabia que o Senhor X era ele

Quase que na mesma época, ele apareceu numa foto ao lado de Roberto Marinho para comemorar a inauguração de uma gráfica com a qual RM imaginava que fosse imprimir mais de 1 milhão de exemplares do Globo.
A despeito da fortuna pessoal de Roberto Marinho e do dinheiro que jorrava torrencialmente em direção à Globo, a gráfica foi financiada com recursos públicos do BNDES.
Pelas mamatas dadas às companhias jornalísticas, FHC foi recompensado pelo silêncio delas no caso do “Senhor X”.
Narciso Mendes aparece num livro recente do jornalista Palmério Dória. Nele, Mendes repete o que é amplamente sabido: todo mundo sabia que ele era o “Senhor X”. Mas ninguém foi atrás da história.
O máximo que FHC pode dizer, hoje, é que não sabia que havia malas de dinheiro comprando sua reeleição. Mas, uma vez mais, Wellington tem que ser lembrado: quem acredita nisso acredita em tudo.
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17 anos depois, repórter da Folha reconta história da compra de votos para reeleição de FHC

O jornalista da Folha que investigou a compra de votos no Congresso para que FHC pudesse se reeleger, Fernando Rodrigues, voltou hoje ao assunto em seu blog, diante da “troca de chumbo” entre Lula e FHC a respeito.
Trechos:
“O mais importante a respeito desse episódio de 1997 é que nada foi investigado como deveria. Dessa forma, restam apenas os fatos em torno da revelação do fato –trata-se de fato, pois houve provas materiais periciadas a respeito.
Uma cronologia dos acontecimentos:
1) 28.janeiro.1997 – a Câmara aprova a emenda constitucional da reeleição: dispositivo passa a permitir que prefeitos, governadores e presidente disputem um segundo mandato consecutivo.
2) 13.maio.1997: Folha publica reportagem da compra de votos para aprovação da emenda da reeleição. Manchete no alto da primeira página, em duas linhas: “Deputado conta que votou pela reeleição por R$ 200 mil”.
3) O que disse FHC, então presidente da República: sempre negou o esquema. Dez anos depois, em sabatina na Folha, em 2007, o tucano não negou que tenha ocorrido a compra de votos. Alegou que a operação não foi comandada pelo governo federal nem pelo PSDB.
4) Provas: confissão gravada de 2 deputados federais do Acre que diziam ter votado a favor da emenda da reeleição em troca de R$ 200 mil recebidos em dinheiro. Outros três deputados eram citados de maneira explícita e dezenas de congressistas teriam participado do esquema. Nenhum foi investigado pelo Congresso nem punido.
5) CPI: PT e partidos de oposição tentam aprovar requerimento de CPI. Sem sucesso.
6) Operação abafa 1: em 21.maio.1997, apenas 8 dias depois de o caso ter sido publicado pela Folha, os dois deputados gravados renunciam ao mandato (Ronivon Santiago e João Maia, ambos eleitos pelo PFL –hoje DEM– do Acre). Eles enviaram ofícios idênticos ao então presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP). Reportagem de 21.maio.1997 relata procedimentos utilizados na reportagem sobre a compra de votos.
7) Operação abafa 2: em 22.maio.1997, só 9 dias depois de a Folha ter revelado o caso, tomam posse como ministros Eliseu Padilha (Transportes) e Iris Rezende (Justiça). Ambos eram do PMDB, partido que mais ajudou a impedir a instalação da CPI para apurar a compra de votos.
8) Operação abafa 3: apesar da fartura de provas documentais, o então procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, não acolhe nenhuma representação que pedia a ele o envio de uma denúncia ao Supremo Tribunal Federal.
Em 27.junho.1997, indicado por FHC, Geraldo Brindeiro toma posse para iniciar o seu segundo mandato como procurador-geral da República. Sempre reconduzido por FHC, Brindeiro ficou oito anos na função, de julho de 1995 a junho de 2003.
9) Fim do caso: em junho de 1997, o Senado aprova, em segundo turno, a emenda da reeleição, que é promulgada. No ano seguinte, FHC se candidata a mais um mandato e é reeleito.
A Polícia Federal não investigou? De maneira quase surrealista, sim. O repórter responsável pela reportagem foi intimado a dizer o que sabia a respeito do caso em… 4 de junho de 2001. O inquérito era apenas protocolar. Não deu em absolutamente nada.”
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