segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O Corinthians e o Brasil



Por: Fernando Brito

Talvez alguns achem esdrúxulo o que vou dizer, mas sempre que vejo estas monstruosidades que ocorrem com as torcidas de futebol, penso no comportamento da mídia e de certa parte da “intelectualidade”.
Alguém se atreveria a achar “aceitável” que os grupos de vândalos e agressores que se misturam à massa torcedora possam, em nome de qualquer paixão clubística, agredir, espancar, invadir, atirar pedras, depredar?
Se não aceitamos no futebol, porque o aceitamos nas ruas, em manifestações?
Hoje, lendo a coluna de Juca Kfouri, onde ele traça um paralelo entre as manifestações políticas da “democracia corintiana”, ao tempo das Diretas-Já e a invasão e agressão feitas por corintianos ao Centro de Treinamento do clube, no sábado, com agressões físicas aos jogadores e depredação das instalações do clube , uma frase me chamou a atenção, quando ele lamenta a falta de reação dos jogadores contra aquela barbárie:
“Talvez conseguissem que a verdadeira “torcida que tem um time” reassumisse seu papel e expulsasse os vendilhões da arquibancada.”
Pois é.
As nossas lideranças políticas, à direita e à esquerda, ficaram também inertes diante da violência e, hoje, parece legítimo em qualquer manifestação, que estes grupos atuem brutalmente, em nome de uma “liberdade” que transforma em conflito qualquer manifestação pública.
A mídia e a oposição, ávidos pelos dividendos eleitorais que lhe possa trazer a conflagração artificial das ruas, limitam-se a “lamentar a violência”.
Mas esfregam as mãos e torcem para que ela se torne constante e maior, até as “eleições no clube”.
Ou será que alguém, em sã consciência, não percebe que isso se tornou a grande – e, talvez, única – esperança de amealhar os votos que não tem em paz?
Do lado do governo, existe um imenso receio de enfrentar de peito aberto esta polêmica.
Aliás, quase todas as polêmicas.
E um receio cego, porque o projeto político que vem reerguendo o Brasil já se teria interrompido se não fosse a polêmica, em 2006 e em 2010.
Se não sinalizarmos, para usar a expressão de Kfouri, à ”torcida que tem um time”, o povo brasileiro, estas deformações selvagens do “esporte democrático” vão continuar se alastrando e o mundo, como publiquei aqui, está pródigo de exemplos de onde isso leva.
O combate a esta selvageria, é evidente, não se faz com selvageria “inversa” da polícia – que parece ser a única reação do Estado a isto, uma vez que o Ministério Público e o Judiciário – ao contrário do que acontece com o inofensivo rolezinho da periferia nos shoppings – ficam inertes diante dos sucessivos e previsíveis atos de vandalismo de grupos como os black blocs.
Faz-se com combate político, com um chamado político ao nosso povo que gramou muito mais – e com muito mais dores – que os corintianos durante seus 21 anos sem títulos.
Só ele desarma, anula, paralisa a barbárie como método de ação política, sem interditar o debate democrático, ao contrário.
Precisamos, pois, de uma referência, como a democracia corintiana a teve.
Precisamos da volta do nosso “Dr. Sócrates”.
Por quem nós sempre torcemos, fosse qual fosse o nosso clube, porque torcemos para o povo brasileiro.
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