PAULO NOGUEIRA
Fui ver Homem Aranha, acompanhado de Antônio, meu sobrinho de oito anos, e de seu pai, meu irmão Kiko.
Pegamos a sessão das 21 horas no pequeno shopping da estação Fulham Broadway, aqui pertinho de casa. Logo estávamos os três ali nas cadeiras confortáveis do cinema, ridiculamente munidos dos óculos para ver filmes 3D.
Era um programa para o garoto, naturalmente. Que para ser sincero não ligou muito. Me pareceu mais interessado no pacote de pipoca doce do que no filme. Mesmo Kiko, se percebi bem, deu olhadas discretas em seu facebook.
Mas eu fiquei concentrado o tempo todo nas aventuras de Peter Parker, o garoto que, por acidente, adquire habilidades extraordinárias de aranha e depois encarna o bem numa luta épica contra um cientista mau transformado num destruidor lagarto gigante. Não foi uma de minhas histórias em quadrinhos favoritas. Fui louco, na infância, pelo Fantasma, pelo Mandrake, pelo Super-homem e pelo Batman, nesta ordem. Mas não me dispersei um momento.
O fato é que o Homem Aranha me fez pensar.
Basicamente, entendi como o cinema americano nas últimas três décadas reflete o declínio dramático dos Estados Unidos. De Indiana Jones a Avatar, é uma sucessão interminável de filmes que entorpecem o cérebro. O equivalente às novelas brasileiras. Você imagina a platéia mesmerizada pelas histórias absurdas enquanto, ou no cinema ou no sofá de casa, vai consumindo pipoca e tomando coca, rumo à obesidade sedentária e à alienação completa. É o cenário ideal para que uma minoria predadora – o 1%, ou 0,1% — vá acumulando fortunas cada vez maiores, montada num Estado-babá não para a sociedade, mas para os superricos.
Onde um único filme que retrate o mundo iníquo em que nasceu e prosperou o movimento Ocupe Wall St, ou que mostre a lógica sinistra que conduziu aos céus os drones, os aviões sem tripulação que jogam bombas americanas nos países do Oriente Médio? Não será por Hollywood que a posteridade conhecerá os Estados Unidos destes tempos. (Há uma exceção conspícua, Wall Street, de Oliver Stone, de 1987, um solitário com causa numa multidão de cineastas feitos para a apoteose da frivolidade vazia que é o Oscar. “Ganância é bom”, diz o personagem central. É uma frase que poderia estar na lápide do Sonho Americano.)
O tribunal da história haverá de condenar cineastas como Spielberg e Cameron ao lugar que lhes cabe: a lata de lixo.
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