segunda-feira, 16 de março de 2020

Três cidadãos de bem se unem para espancar homem na Paulista


Apoiador do ato pró-bolsonaro agride homem na rua. Data: 15/03/2020. Local: Avenida
Paulista. São Paulo. Foto: Sérgio Silva | Ponte Jornalismo
PUBLICADO NA PONTE
Briga e tiro marcam ato pró-governo de Jair Bolsonaro (sem partido) na avenida Paulista, na região
central da cidade de São Paulo, neste domingo (15/3). Apesar da preocupação com a pandemia do
coronavírus, atos a favor do presidente aconteceram normalmente por todo o país.
Em São Paulo, a manifestação terminou em confusão. Segundo a Folha, uma pessoa foi baleada na
confusão. Em um vídeo postado no Twitter, é possível ver o momento em que um homem com a
camiseta do Flamengo efetua um disparo em frente ao shopping Center 3. De acordo com a CNN, o
atirador é um policial reformado.
O caso está sendo investigado no 78° DP (Jardins). A Ponte entrou em contato com a delegacia e, ao 
telefone, um policial afirmou que “as informações estão sendo passadas pela assessoria da Secretaria 
de Segurança Pública de SP”.
A reportagem procurou a Secretaria da Segurança Pública para saber mais informações sobre a 
ocorrência, mas, até o momento de publicação, não obteve retorno.




Um vídeo divulgado no Twitter mostra uma discussão e um homem com a camiseta do Flamengo 
com uma arma na mão. O vídeo registra o momento que esse homem dispara. Na sequência, é 
possível ouvir muita discussão e ofensas entre o homem e as pessoas que passavam na rua.
Em outro ponto da avenida também teve confusão. Três apoiadores de Bolsonaro agrediram um 
homem que passava pelo ato.
A briga aconteceu na esquina com a rua Frei Caneca, por volta das 18h. Segundo relatos ouvidos 
pela Ponte, a briga começou quando o homem agredido esbarrou nos três homens de amarelo.
Um dos agressores segura uma bandeira | Foto: Sérgio Silva/Ponte Jornalismo
Um dos apoiadores do presidente dá um soco no jovem sem camisa que caiu no chão. Eram três 
contra um. O homem que apanhou revidou o soco. Foi quando os outros dois homens foram para 
cima, dando socos e chutes.
Segunda agressão, depois que o homem sem camisa levanta para revidar | Foto: Sérgio 
Silva/Ponte Jornalismo
O homem agredido saiu com um corte na boca, joelho sangrando e o dedo inchado. Questionado 
sobre o motivo das agressões, um dos homens de amarelo afirmou que teria sido agredido 
primeiramente, mas a reportagem viu o momento que o homem dá o primeiro golpe. O jovem 
agredido não quis se manifestar.
Momento em que o terceiro homem agride o jovem caído no chão | Foto: Sérgio Silva/Ponte 
Jornalismo

sábado, 14 de março de 2020

A morte de Bebianno e as técnicas de assassinato simulado em ataque cardíaco


Conforme vimos mostrando em várias reportagens, Bolsonaro é apoiado pelo que existe de 
mais barra-pesada na indústria da contravenção internacional e nas organizações criminosas 
internas. É cedo para avançar em qualquer conclusão. Mas a morte de Bebianno é um capítulo 
a mais na tenebrosa história do país rumo à era do crime institucionalizado.
Por Luis Nassif
Vamos por partes.
É cedo para qualquer conclusão sobre a morte do advogado Gustavo Bebianno. Ressalve-se o fato de que o filho estava com Bebianno na hora de sua morte, o que reforçaria a ideia de causa natural. Mas,
  1. Adriano da Nóbrega e Gustavo Bebbiano eram testemunhas centrais, capazes de produzir um terremoto político no país, em função das informações que detinham sobre a família Bolsonaro.
  2. Adriano foi executado no interior da Bahia, em uma operação mal explicada até agora.
  3. Bebianno morreu esta noite, vítima de infarto.
Em conversas com jornalistas, no final da entrevista ao Roda Viva, Babianno evitou responder algumas perguntas, alegando receio de sofrer algum atentado.
O know how da CIA
No dia 14 de novembro de 1975, o New York Times publicou reportagem vinculando a CIA a assassinatos cometidos dentro dos Estados Unidos. A técnica utilizada era da simulação de ataque cardíaco.
As investigações foram conduzidas pelo Comitê de Inteligência do Senado, investigando um assassinato ocorrido em Nova Orlens no final dos anos 50, ou início dos anos 60.
As investigações estavam sob comando do respeitado senador Frank Church, democrata de Idaho e uma das vozes mais influentes da política americana dos anos 70.
Pela descrição da vítima, tratava-se de alguém que havia trabalhado na agência em Washington e Las Vegas. O funcionário morreu em um hotel local, onde ele e a família estavam hospedados.
A CIA tentou qualifica-lo apenas como um “oficial de suprimentos”. Mas a comissão apurou que ele havia participado da invasão da Normandia e chefiado operações de combate realizadas pela CIA em Taiwan.O relatório do Senado juntou 400 páginas com evidências de tentativas da CIA em atentar contra a vida de lideranças estrangeiras, principalmente Fidel Castro. O caso McNamara foi o primeiro que revelaria “como a agência lida com pessoas que tentam chantageá-la”.
O relatório de Frank Church se tornou um marco na tentativa do Congresso de controlar os poderes da CIA, que se transformara em opder autônomo dentro dos EUA.
Um dos capítulos do relatório era sobre os diversos instrumentos de assassinato da CIA.
Foi convocado o então diretor da CIA, William Colby que, pressionado, acabou trazendo uma das últimas armas desenvolvidas: uma pistola desenvolvida especificamente para assassinar seres humanos de forma silenciosa.
Aqui, o senador Church mostra a arma.
Depois de aposentado, Colby escreveu um livro sobre a CIA, revelando seus segredos mais sombrios. Colby era de formação católica e achava que a CIA só iria se salvar se confessasse todos seus pecados, conforme seu necrológio.
No dia 27 de abril  de 1996 foi encontrado afogado em um afluente do rio Potomac.
A morte dividiu a própria família. Em 2011, um de seus filhos, Carl Colby, produziu um documnentário, “O homem que ninguém sabia”, mostrando o pai cheio de culpa por suas ações na guerra do Vietnã e cuja vida adabou quando deixou a CIA em 1975. Sugeria que teria se suicidado. O laudo policial não permitia ir nessa direção. O filho mais velho, Jonhathan Colby discordou do irmão.
A indústria do crime
É possível que tenha sido vítima de um AVC ou um ataque cardíaco e tenha se afogado. Para nosso caso interessa saber que, desde 1974, já se sabia de armas que permitiam assassinar pessoas e simular ataques cardíacos. É evidente que essa tecnologia não ficou, desde aquela época, restrita à CIA.
Conforme vimos mostrando em várias reportagens, Bolsonaro é apoiado pelo que existe de mais barra-pesada na indústria da contravenção internacional e nas organizações criminosas internas.
É cedo para avançar em qualquer conclusão. E há circunstâncias que reforçam a ideia de morte natural. Em todo caso, a morte de Bebianno é um capítulo a mais na tenebrosa história do país rumo à era do crime institucionalizado.
Aqui, o relatório Frank Church na íntegra.

ONDE ESTÃO AS CARTAS DE GUSTAVO BEBIANNO?


A coluna Radar, da revista Veja, lembra que em fevereiro de 2019 Gustavo Bebianno havia 
escrito cartas para duas pessoas com os nomes de quem estaria interessado em lhe causar 
algum mal. "Se algo acontecer comigo, abram" teria escrito o ex-ministro, segundo a 
nota. Bebianno morreu neste sábado, vítima de um infarto fulminante, aos 56 anos. "Onde as 
cartas estão?", pergunta a revista Veja.
247 - Em áudio, durante entrevista à Jovem Pan, Gustavo Bebianno disse ter material gravado fora 
do Brasil contra Jair Bolsonaro. Escute e saiba mais:
esta manhã após um infarto fulminante, aos 56 anos. A informação é do presidente estadual do 
PSDB, Paulo Marinho.
Bebianno estava em seu sítio em Teresópolis junto com um caseiro e seu filho. Segundo Marinho, 
por volta de 4h30 ele comunicou ao filho que estava passando mal e se dirigiu ao banheiro para 
ingerir um remédio. Minutos depois, sofreu uma queda e teve ferimentos na cabeça. 
Bebianno foi levado para uma unidade hospital da cidade, mas não resistiu.

Ex-ministro e desafeto do clã Bolsonaro, Gustavo Bebianno morre aos 56 anos, após infarto fulminante

Advogado coordenou a campanha de Jair Bolsonaro, foi ministro e depois se tornou desafeto 
do clã, após ser demitido do cargo.
247 – O ex-secretário geral da Presidência e pré-candidato a prefeito do Rio, Gustavo Bebianno, 
morreu esta manhã após um infarto fulminante, aos 56 anos. A informação é do presidente estadual 
do PSDB, Paulo Marinho.
Bebianno estava em seu sítio em Teresópolis junto com um caseiro e seu filho. Segundo Marinho, 
por volta de 4h30 ele comunicou ao filho que estava passando mal e se dirigiu ao banheiro para 
ingerir um remédio. Minutos depois, sofreu uma queda e teve ferimentos na cabeça. 
Bebianno foi levado para uma unidade hospital da cidade, mas não resistiu.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Eu Minto, Talquei? Vai Encarar?



O melhor remédio para enfrentar uma epidemia é a confiança.
Sem ela, as orientações sanitárias e a mudança de hábitos da população agravam os efeitos na saúde
da comunidade, o que é extremamente grave quando se trata de grandes populações e, no caso de 
hoje, de todo o planeta.
Estamos, infelizmente, a um presidente que, acintosamente, despreza o fator credibilidade.
Num dia, diz que o coronavírus “é mais uma fantasia” que “a imprensa propala”.
Ia na linha da seita de extrema-direita que não apenas relativiza a gravidade da situação como acha 
que é um plano sinocomunista para dominar o mundo, como sugere o promotor(!!) bolsonarista 
Aílton Benedito, incrivelmente nomeado como secretário de Direitos Humanos da Procuradoria 
Geral da República(!!!):
“A cada epidemia de vírus originária na China, o mundo entra em crise econômica. Então, aquele 
país se recupera antes de todos os outros e se torna mais poderoso geopoliticamente. Rumo à 
hegemonia global antecipada por crises econômicas causadas por vírus”.
Na linha da “olavolândia”, Bolsonaro seria atropelado da maneira mais cruel.
48 horas depois, aparece com uma máscara e sua comitiva à Florida está sob a suspeita de estar 
infectada, com um caso, o do debochado Secretário de comunicação, Fábio Wajngarten, já 
confirmado.
Não importa que Bolsonaro, depois de uma escalada de deboches e palhaçadas, esteja desmoralizado 
ante boa parte da população. Ainda há muitos, nem tanto, talvez 10 ou 15 por cento dos brasileiros –
que o seguem como manada. E é ele quem tem a autoridade formal sobre o país.
Por isso, ao desacreditar-se, como energúmeno que é, faz mal ao Brasil, numa hora em que, na saúde 
e na economia, precisamos mais que nunca de um governo respeitado.
Tão afeito a frases bíblicas, deveria acreditar em Mateus, 15:11: “O que contamina o homem não é o 
que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem.”
Bolsonaro é, hoje, o fator mais perigoso para a sanidade do país.

Coronavírus, coitado, leva a culpa pelo fim da “Marcha de Itararé”


POR FERNANDO BRITO
Jair Bolsonaro, não sei se sem ou com a fantasia de uma máscara antivírus (que, na sua live de
Facebook foi um erro da produção, porque é um modelo errado não é N95, que dá proteção eficaz)
entra em rede nacional de rádio e TV para “desconvocar” a manifestação que não estava convocando.
A “Marcha de Itararé”, que foi usada por duas semanas para pressionar o Congresso e o Supremo,
com a ameaça atropelá-los tinha, desde o início, o destino de ter esta morte antecipada, com a
desculpa do coronavírus.
Este blog vem afirmando isso desde o fevereiro.
Qualquer um percebe que a flama bolsonarista murchou muito e permanece apenas nos gravemente
contaminados pelo ódio.
Tanto não funcionou que teve uma pesada derrota ontem, com a derrubada do veto à ampliação do
Benefício de Prestação Continuada (BPC), uma pauta que não lhe deixou muito espaço para
vociferar contra os parlamentares.
O que não se esperava é que os fatos ajudassem e ocorressem situações concretas, como o do sujeito
que aparelha a Secretaria de Comunicação do Presidente ter testado positivo pelo vírus e, dadas as
horas e intimidades em hotel e no avião, poder ter passado o patógeno ao próprio Bolsonaro.
Assim, o presidente fica poupado de ter de exibir a musculatura política que não tem.
E dá ao Brasil dois acontecimentos inéditos na República: uma “manifestação espontânea”
convocada por ele dentro e uma quartel da Força Aérea e “desconvocada” em rede nacional de
televisão.
O ato acabou porque nunca foi para valer.

ANÁLISE: Por que Bolsonaro tem problemas com furos Para compreender a brutal misoginia do antipresidente é necessário falar de Cassia e de Dilma


Por Eliane Brum El País
Em 18 de fevereiro, o antipresidente Jair Bolsonaro precisava tirar o foco da morte do miliciano Adriano da Nóbrega, pessoa-chave para esclarecer o esquema de “rachadinhas” no gabinete de Flávio Bolsonaro, a relação da família Bolsonaro com as milícias que atuam no Rio de Janeiro e também quem mandou matar Marielle Franco – e por quê. A eliminação de Nóbrega, com vários indícios de execução, voltava a colocar em destaque as relações dos Bolsonaros com as milícias. Era preciso desviar a atenção. Como de hábito, Bolsonaro usou o velho truque: criou um novo fato ao atacar a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo. A repórter, uma das mais competentes da sua geração, estava entre os jornalistas que denunciaram o uso fraudulento de nomes e CPFs para disparos de mensagens no WhatsApp em benefício de Bolsonaro. Uma de suas fontes, Hans River, ao depor na CPMI das Fake News do Congresso, disse que Patrícia teria tentado obter informações “a troco de sexo”, embora as trocas de mensagens entre os dois provem exatamente o contrário. Em sua coletiva informal diante do Alvorada, a mesma em que costuma mostrar bananas para os jornalistas, Bolsonaro atacou: “Ela [Patrícia] queria um furo. Ela queria dar o furo [pausa para risos] a qualquer preço contra mim”.
Este episódio, amplamente divulgado, revela mais do que o truque do manual dos novos fascistas para desviar a atenção do público. Bolsonaro tem problemas com furos. Em vários sentidos. Sua obsessão com o que cada um faz com seu ânus é notória. Está sempre tentando regular onde cada um coloca o próprio pênis. Volta e meia dá um jeito de falar de cocô, como fazem as crianças pequenas. Para ele, a vagina é um furo, visão bastante surpreendente para um homem com mais de 60 anos que já deveria, para o próprio bem, ter conhecido um pouco mais sobre o órgão sexual das mulheres. Chegou a dizer que a Amazônia “era uma virgem que todo tarado de fora quer”. Só um/a psicanalista que um dia recebesse Bolsonaro no seu divã poderia encontrar pistas para o que essa redução da sexualidade a uma coleção de furos – uns feitos para o estupro, outros proibidos para o sexo – significa. Nós, os governados por tal homem, só conseguimos entender que ele tem obsessão por furos, por cocô e por pênis. E que isso determina seu Governo.

Bolsonaro tem obsessão também por furos no sentido jornalístico da palavra, a notícia dada em primeira mão, a revelação do repórter sobre o que ninguém sabia. Patrícia, ao revelar junto com seu colega Artur Rodrigues o uso ilegal do Whatsapp na campanha, deu um furo que incomodou muito Bolsonaro e sua corte. E foi isso que a tornou um alvo. Essa história, a dos furos jornalísticos e da conflituosa relação de Bolsonaro com mulheres jornalistas é, porém, muito mais antiga. Ela funda a própria relação de Bolsonaro com a imprensa mais de 30 anos atrás, quando ele ainda era capitão do Exército. A história da misoginia (ódio às mulheres) da parcela dos brasileiros que Bolsonaro representa e também de parcelas dos brasileiros que não representa é, porém, ainda mais perigosa, porque não começa nem termina com Bolsonaro. A misoginia determinou os acontecimentos que culminaram na sua eleição.
Na semana em que o mundo comemorou o dia da mulher (8 de março) e que terão passados dois anos do assassinato de Marielle Franco (14 de março) sem sabermos quem a mandou matar e o porquê vale a pena olhar com toda a atenção para o que os fatos contam de Bolsonaro e também para o que os fatos contam da sociedade brasileira. Bolsonaro só se tornou o primeiro antipresidente da história porque parte da sociedade brasileira quer que as mulheres voltem a ser “belas, recatadas e do lar”. E não são apenas os toscos como Bolsonaro que querem isso, embora só estes saiam por aí contando orgulhosamente para o mundo.
1) A jornalista que denunciou Bolsonaro por planejar explodir 
bombas nos quartéis
A relação de Jair Bolsonaro, então capitão do Exército, com a imprensa iniciou em setembro de 1986, com a revista Veja. Naquele tempo, a Veja era a principal revista semanal do país e ser a principal revista semanal do país era algo muito importante. A tiragem chegava perto de um milhão de exemplares, o que é muito para um país de não leitores. Todas as pessoas que tinham qualquer poder, em diferentes áreas e níveis, liam a Veja já no sábado pela manhã. Na segunda-feira ou ainda no domingo, os principais jornais do país com frequência repercutiam algum furo da Veja. Foi neste palco midiático que Bolsonaro fez sua estreia muito bem sucedida na política: em artigo intitulado “O salário está baixo”, o jovem capitão reclamava da política salarial para os militares de José Sarney, o primeiro presidente civil depois da ditadura que oprimira o país de 1964 a 1985.
Após a publicação, Bolsonaro foi punido com 15 dias de prisão disciplinar, mas tornou-se muito popular entre soldados, oficiais e até mesmo entre generais de pijama. Bolsonaro gostou tanto de seus 15 minutos de fama que foi pessoalmente agradecer ao chefe da sucursal da revista no Rio de Janeiro. Naquele momento, ele via na imprensa a possibilidade de ganhar a importância que achava que merecia e talvez “ficar rico”, o que mais de uma vez afirmou desejar.
Um ano depois, porém, Bolsonaro odiaria a Veja. A “culpa” era de uma mulher: a jornalista Cassia Maria Rodrigues. Ela revelou o plano “Beco Sem Saída”, feito por Bolsonaro e um colega conhecido como “Xerife” (Fábio Passos), que consistia em botar bombas nos quartéis, mas sem ferir ninguém, para chamar a atenção para os baixos salários dos militares. Esta história está minuciosamente contada no livro O Cadete e o Capitão (Todavia, 2019), do jornalista Luiz Maklouf Carvalho, cuja leitura recomendo.
A cúpula do Exército, que havia criticado duramente Bolsonaro pelo artigo um ano antes, desta vez fechou-se para supostamente proteger a corporação. Ter dois oficiais ensandecidos e fora do controle planejando botar bombas bem na cara dos generais, e tudo isso na delicada transição para a democracia após uma ditadura militar que formalmente tinha acabado apenas dois anos antes, era uma notícia que os militares não queriam.
Cassia e a Veja foram acusadas de inventarem toda a história. Bolsonaro negou ter falado com a jornalista. Anos mais tarde, já deputado federal, a chamaria de “maluca”. A Veja então publicou na edição seguinte dois croquis feitos a mão por Bolsonaro quando deu a entrevista à repórter, mostrando o funcionamento do plano: em um deles, segundo a revista, viam-se as tubulações do que seria a adutora do Guandu, responsável pelo abastecimento de água no Rio de Janeiro e, junto delas, o desenho de uma carga de dinamite (“petardo de TNT”). Bolsonaro e Passos seguiram negando as informações da revista. Veja jamais recuou.
Para escrever o livro, Luiz Maklouf Carvalho destrinchou a gravação de todo o julgamento do caso no Superior Tribunal Militar, em 1988. Dois dos três laudos periciais grafotécnicos concluíram que Bolsonaro era o autor dos croquis. Cinco meses antes, um conselho de justificação do Exército já considerara o capitão culpado por 3 a 0 por ter tido “conduta irregular e praticado atos que afetam a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro de classe”.
Quando esperava ser chamada para dar seu depoimento à corte, Cassia foi ameaçada por Bolsonaro. O então capitão fez com os dedos o sinal que se tornaria sua marca registrada na presidência: a arma apontada. Ela então teria lhe perguntado se era uma ameaça de morte. Bolsonaro teria respondido que não, mas que ela “poderia se dar mal se continuasse com essa história”.
O ministro relator do caso, general Sérgio de Ary Pires, não hesitou em atacar a repórter de forma muito semelhante a que Bolsonaro usaria contra Patrícia Campos Mello e outras jornalistas quando na presidência, guardadas as diferenças de linguagem, de época e de referências. “A mentira está presente em todas as declarações e afirmações dessa famigerada repórter Cassia Maria”, afirmou. “Essa moça não deixa de ser uma vivandeira, sendo que as vivandeiras prestam serviços, lavam roupa dos soldados, e essa quer lavar a roupa suja dos quartéis”. Em uma de suas acepções, “vivandeiras” são as prostitutas que acompanhavam as tropas nos períodos de guerra. Como se vê, nunca faltou inspiração para Bolsonaro nas Forças Armadas do Brasil.
A forma como o julgamento foi manipulado para que Bolsonaro fosse liberado é flagrante. Tudo indica que Bolsonaro foi absolvido com o acordo de que deixasse o Exército. Seis meses depois do julgamento, já eleito vereador pelo Rio de Janeiro, Bolsonaro passou para a reserva. Começava então sua exitosa carreira como político profissional que converteria três de seus filhos homens também em políticos profissionais. Carreira exitosa no sentido fisiológico, já que, em seus quase 30 anos como deputado federal, Bolsonaro conseguiu aprovar apenas dois projetos – fato que não impediu os eleitores de elegerem-no presidente da República em 2018.
O germe de tudo o que Bolsonaro se tornaria estava lá, no episódio das bombas. Seu ódio à imprensa que não come na sua mão. Seu ódio à jornalista mulher que denunciou o seu plano e, por pouco, não abortou sua carreira política iniciante e suas grandes esperanças para si mesmo, o que poderia ter acontecido em caso de uma condenação pelo Superior Tribunal Militar. O gesto da arminha para ameaçar seus desafetos, hoje uma parte da população brasileira.
Naquele momento, Bolsonaro absorveu profundamente dois aprendizados que norteariam sua vida como político profissional: 1) é legítimo manipular a verdade e a justiça para proteger seus interesses, como a cúpula do Exército fez ao absolvê-lo apesar de todas as provas; 2) é possível planejar até mesmo um atentado terrorista, desmentir o que fez e o que efetivamente disse e sair não apenas ileso, mas eleito.
Hoje, na presidência, Bolsonaro chegou ao ponto de constantemente desmentir inclusive a si mesmo. Nenhum outro político corrompeu a verdade como ele, ao tornar-se o principal expoente da autoverdade: o conceito de que a verdade é uma escolha pessoal, do indivíduo, desconectada dos fatos.
Em 1993, em entrevista aos pesquisadores Maria Celina D’Araújo e Celso Castro, o general Ernesto Geisel, quarto militar a presidir o Brasil durante a ditadura, afirmou: “Bolsonaro é um caso completamente fora do normal, inclusive um mau militar”. Quando uma parte dos generais apoiou a candidatura de Bolsonaro, em 2018, não importava que fosse um “mau militar”. Sabiam quem era Bolsonaro e queriam Bolsonaro. Não há um grupo de militares de alta patente responsável que de repente se surpreendeu com o descontrole de Bolsonaro – ou um grupo de militares responsáveis e outros tresloucados, os bons e os maus, os ideológicos e os não ideológicos. Tudo isso é narrativa para criar oposição sem oposição.
O descontrole de Bolsonaro é útil. É possível que alguns generais tenham a ilusão de que, na hora certa, poderão controlá-lo. No momento, porém, Bolsonaro está fazendo exatamente o que se esperava que fizesse. Os militares voltaram ao Planalto, o que parecia impensável apenas alguns anos atrás, e parte deles visto como poços de temperança diante do “Cavalão” que ocupa o cargo máximo da República. O roteiro segue seu curso. Um exagero ali, um acidente aqui, mas tal qual como previsto no essencial.

Bolsonaro é, por vários caminhos, produto de uma parcela influente do Exército brasileiro – e não uma anomalia deste mesmo Exército. Passou da hora de compreender isso.
2) Precisamos falar sobre Dilma Rousseff
Se Jair Bolsonaro fosse apenas uma aberração na trajetória do Brasil, uma espécie de pesadelo distópico que pudesse ser superado em quatro anos, como acreditam alguns, a situação do país seria muito mais tranquilizadora. A questão é tanto que o bolsonarismo vai muito além de Bolsonaro quanto que Bolsonaro não foi eleito por acaso. Há um Brasil que ele representa. Por um lado, há os tais 30% que as pesquisas mostram permanecerem com ele de forma incondicional, ou seja, independentemente do que ele faça (ou não faça). E 30% não é pouca coisa. Por outro, Bolsonaro não inventou o Brasil que ele representa, embora tenha ajudado a criá-lo e siga lhe dando forma. Esta é a parte mais complicada. E por isso será mais difícil enfrentá-la do que enfrentar o homem que a encarna.
Não é possível analisar a última década do Brasil sem olhar com muita atenção para a resistência das mulheres e a resistência às mulheres. A misoginia e o machismo não foram as causas diretas do impeachment de Dilma Rousseff. Mas foi a primeira mulher presidenta da história que sofreu um impeachment sem nenhuma base legal. A misoginia, o machismo, o racismo e a homofobia não foram as causas diretas do assassinato de Marielle Franco. Mas foi uma mulher negra, lésbica e criada na favela que foi assassinada no crime político mais marcante dos últimos anos. A maior manifestação organizada por mulheres da história do Brasil foi contra Bolsonaro. O “Ele Não” foi também o maior movimento de resistência à eleição de Bolsonaro. Assim como o grupo que mais rechaçou Bolsonaro como candidato foi o das mulheres negras e pobres.
Não há coincidências. Bolsonaro canaliza várias forças, entre elas esse homem que teme perder seu lugar e que bota toda a precarização da sua vida na conta de um mundo cujos signos já não reconhece. Um homem que acha que tudo pode se resolver se os meninos voltarem a vestir azul e as meninas, rosa. Um homem que acha uma ótima piada falar do furo da jornalista porque enxergar a vagina como um buraco aplaca o seu medo de fracassar.
Não é por acaso que a economia é um reduto de machos liderado por Paulo Guedes, o ilustrado da “Escola de Chicago” que comete uma violência verbal atrás da outra, muito mais parecido com Bolsonaro do que com qualquer outro. Os neoliberais da economia e os defensores do patriarcado pertencem ao mesmo mundo. Não é por acaso que estão no mesmo governo. Essa mania de compartimentalizar as coisas entorna qualquer análise séria.
Quando parte da sociedade brasileira se choca com a violência de Bolsonaro contra as jornalistas mulheres, é necessário voltar os olhos para a ex-presidenta Dilma Rousseff (PT). Perguntar-se o porquê de tanto ódio contra Dilma, o que é muito diferente de divergir de suas ideias e de seu governo. Ódio é de outra ordem, movido por outras ordens de circunstâncias.
Jair Bolsonaro tornou-se presidenciável no dia em que cometeu uma violência contra Dilma Rousseff e, mais uma vez, não foi punido. Ao votar pela destituição de Dilma homenageando o torturador, coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, Bolsonaro converteu o impeachment em uma nova tortura contra a então presidenta que foi uma das mulheres torturadas pela ditadura. Era 17 de abril de 2016, data em que o Brasil se envergonhou diante de si mesmo e do mundo. Bolsonaro, então deputado federal, fez ainda o aposto nojento: “Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”. Simbolicamente, aquele momento foi tanto o último dia de Dilma no governo como o primeiro dia da campanha de Bolsonaro.
Bolsonaro só chegou neste ponto, porém, porque podia. E só ultrapassa todos os limites hoje porque segue podendo. Bolsonaro descobriu, nos anos 1980, que a justiça não o barraria, fosse a militar, fosse a civil. Até hoje ele não teve motivo para duvidar desta certeza.
E por que podia contra Dilma? Porque uma parcela significativa da sociedade chamava Dilma de “vaca” e de “vagabunda” nas janelas e sacadas enquanto espancava suas panelas, sem que houvesse grande revolta por essa brutalidade. Parte da imprensa, que hoje acertadamente denuncia a violência de Bolsonaro contra as mulheres jornalistas, no máximo lamentava a deselegância e a má escolha dos termos, mas tratava as agressões misóginas, machistas e violentas contra Dilma como liberdade de expressão.
Afirmo e seguirei repetindo que Dilma Rousseff foi uma má governante e que cometeu vários atos autoritários, em especial na Amazônia. Mas esse debate é no plano dos fatos e das ideias. O que se viu no Brasil, em especial no segundo mandato, foi um ataque misógino contra Dilma. Não por discordar de suas ideias e atos, mas por ser mulher. Algumas vezes esse ataque, como apontou a jornalista Cynara Menezes em seu site, partiu de jornalistas mulheres que hoje acusam as agressões de Bolsonaro. Não se trata de justificar uma agressão com a outra. Todas elas são terríveis e há que se lamentar uma por uma. Além disso, a violência contra as mulheres praticadas por um presidente da República será sempre a de maior consequência porque não há maior responsabilidade do que a de quem ocupa o cargo máximo de um país pelo voto da maioria. Mas isso não exime a imprensa de refletir sobre o seu papel na escalada dos últimos anos. O desrespeito contra Dilma, mesmo quando ela ainda permanecia no cargo, foi tratado como “natural”.
Um dos ataques mais vergonhosos foi a imagem do estupro recorrente da presidenta. No segundo semestre de 2015, um adesivo apareceu no tanque de gasolina de carros pelo país. Representava a figura de uma Dilma sorridente, de pernas abertas. Quando o carro era abastecido, a bomba de gasolina penetrava sexualmente a presidenta do país. Quem usava o adesivo justificava a montagem criminosa como um protesto contra o aumento da gasolina, mas a mensagem era tão explícita quanto o ato. A presidenta era estuprada a cada vez que o tanque era abastecido.
Imagens semelhantes são hoje disseminadas para agredir jornalistas e intelectuais mulheres. E não só pela extrema direita. Também pela extrema esquerda. O fato precursor foi a violência contra Dilma Rousseff. Se todas as vítimas de violência devem ser lamentadas, também é evidente que a violência contra a mulher que ocupa o cargo máximo da nação, ao ser tolerada, tem um outro nível de consequência e de mensagem para a população do país que ela governa. A maior parte da sociedade e também uma parcela significativa da imprensa se indignou muito menos do que deveria com o estupro coletivo e em série de Dilma pelas bombas de gasolina espalhadas pelo país. Com Dilma, aparentemente, tudo podia.
Em abril de 2016, pouco antes da votação pela abertura do impeachment, a revista IstoÉ deu a seguinte manchete: “As explosões nervosas da presidente”. Na foto de capa, Dilma aparecia gritando. A fotografia documentava o momento em que a presidenta comemorava um gol da seleção brasileira na Copa de 2014. Mas foi tirada do seu contexto e, junto com o título, usada para dar a ideia de que Dilma estava fora do controle, logo precisava ser tirada do poder. No texto, era dito literalmente que ela teria perdido “as condições emocionais para conduzir o governo”. A matéria relatava os calmantes que a presidenta estaria tomando, usando o preconceito persistente contra os distúrbios mentais para desqualificá-la. Dilma era apresentada como o clichê clássico da mulher histérica.
Antes de arrancarem-na do governo para o qual fora eleita, por meio de um impeachment sem fatos que o justificassem, Dilma Rousseff foi tratada com os dois estereótipos costumeiramente usados contra as mulheres. No tanque de gasolina dos “cidadãos de bem” era a puta; na revista era a louca. A primeira “merecia” ser estuprada, a segunda deveria ser alienada de seus direitos, como o eram os loucos na lógica manicomial que voltava com toda a força. E ela de fato seria alienada do direito de governar que seus eleitores haviam lhe garantido pelo voto.
O que se escolhe para desqualificar aquele ou aquela que se busca destruir não é um dado secundário. Quando as paixões emergiram e o cálculo dos que calculam as instrumentalizaram para derrubar uma presidenta eleita, as subjetividades irromperam para arrancar Dilma Rousseff do lugar máximo de poder no país e recolocá-la no lugar tradicional reservado às mulheres que ousam reivindicar igualdade. A facilidade com que um Congresso de maioria comprovadamente corrupta anulou o voto da população com o apoio de parte da sociedade e da imprensa é indissociável da tolerância, estímulo e muitas vezes protagonismo desta mesma sociedade e imprensa em atos de violência contra a primeira mulher que alcançou o posto. Ninguém tem o direito de se iludir: escolhas como estas têm custo.
Vale ainda um destaque que costuma causar incômodo em leitores que até então vinham gostando do texto. Muitos minimizam o papel da equiparação dos direitos das empregadas domésticas ao dos demais trabalhadores, a chamada “PEC das Domésticas”, que ficou associada ao nome de Dilma Rousseff. Na minha opinião, foi determinante para o ódio que parte da classe média passou a sentir pela presidenta. As empregadas domésticas, a maioria delas negras, eram consideradas um direito adquirido da classe média. A emancipação feminina no Brasil não foi feita com políticas públicas, como creches para os filhos e escola integral, ou com divisão do trabalho doméstico entre homens e mulheres. Foi a exploração das mulheres mais pobres, que deixavam suas próprias casas e filhos para cuidar da casa e dos filhos dos mais ricos, em troca de uma jornada extenuante e um salário que garantia apenas a reprodução da miséria, que garantiu uma carreira para as mulheres de classe média.
Me refiro à classe média porque os mais ricos não tiveram a renda familiar abalada pelo aumento do custo de manter uma empregada doméstica, ainda que parte deles também tenha reclamado muito – “Onde esse mundo vai parar?!!! Daqui a pouco vão querer ir pra Disney”. Igualar essas domésticas, seguidamente com trabalho análogo à escravidão, à precariedade dos demais trabalhadores foi algo que muitos – e muitas – não perdoaram à Dilma Rousseff. Ela teria se metido onde não devia: no quartinho sem janela dos fundos da casa e dos apartamentos da classe média brasileira.
Quem acha que esta não foi uma das questões determinantes para o que era ódio – e não discordância de ideias – deve lembrar do recente episódio de Paulo Guedes, reclamando dos tempos da “festa” do dólar baixo, em que “até empregada doméstica ia pra Disneylândia”. Mais uma vez, não há compartimentos. Desigualdade racial e social, patriarcado e política econômica sempre estiveram visceralmente ligados no Brasil.
O ano em que a “nova direita” liderou as manifestações de rua contra a primeira mulher na presidência também foi o ano do que seria chamado “primavera feminista” no Brasil. Milhares de mulheres foram às ruas denunciar o machismo e lutar contra a ameaça de retrocessos em curso no Congresso de Eduardo Cunha. A campanha #PrimeiroAssedio, lançada pelo site feminista Think Olga, em que as mulheres contavam os abusos que sofreram, causou enorme impacto.
A nova geração de feministas se movia com desenvoltura nas redes sociais e deu enorme potência aos movimentos iniciados por suas mães e avós. Era ainda fortalecida pelo protagonismo crescente das mulheres negras, muitas delas as primeiras de sua família a chegar à universidade. Mesmo homens que se consideravam feministas se assustaram com o que consideravam “excessos” e “radicalidade” e lidaram mal com os questionamentos persistentes. Assim como havia acontecido com os negros e o racismo no debate das cotas, a confrontação dos privilégios de gênero atingiu fortemente aqueles que nunca antes haviam se percebido como machistas – ou nunca antes haviam sido acusados de serem machistas.
O privilégio de se considerar “um cara bacana” é, assim como o de se considerar “um branco bacana”, muito mais enraizado do que parece. Intelectuais de esquerda bateram forte nas mulheres em artigos e nas redes sociais, já que não podiam bater nelas fisicamente. Espremendo toda a retórica e o usual name-dropping, vários artigos foram escritos apenas para dizer, com muito ódio e ressentimento, que as mulheres não são capazes de pensar bem e não deveriam estar ocupando o espaço que alguns homens queriam continuar mantendo como uma reserva de mercado natural. Como em colunas de opinião publicadas na imprensa, por exemplo. Mulheres deveriam apenas fazer crônicas sentimentais, não analisar política. É claro que esses sentimentos pouco sofisticados não eram confessados, mas sim disfarçados pelo linguajar acadêmico e protegido por teses intelectualizadas. Ainda assim, para quem se dedica a escutar, eram explícitos.
O impeachment de Dilma Rousseff e a crescente ocupação das ruas pelas mulheres não foi uma coincidência de datas. A força dos novos feminismos e a violenta reação a eles, expressa tanto na política, por meio de projetos de lei, quanto no aumento do número de estupros e de feminicídios, podem estar intimamente conectadas. O que aconteceu e está em curso no Brasil se expressa numa teia intrincada. A pressão das novas mulheres – e o deslocamento do lugar do homem provocado por elas – são um dos fios dessa trama.
Não é obra do acaso que quem substituiu a primeira mulher na presidência, aquela que foi empossada trazendo com ela uma filha e não um marido, foi um vice como Michel Temer (MDB). Levou com ele ao Planalto a imagem de uma primeira-dama rodrigueana, “bela, recatada e do lar”, como titulou a revista Veja. Quem é, de fato, Marcela Temer, nunca soubemos, o que já diz bastante. Talvez ela nos surpreendesse. O retrato naftalínico do primeiro ministério de Temer foi apenas a transição para o meme colorido e explicitamente violento de Bolsonaro, apimentando as velhas elites que o apoiam com fardas e neopentecostalismo evangélico.
Entre as tantas perdas promovidas por um governo autoritário está a da anulação das diferenças das posturas, dos caráteres e das ideias. Quando há democracia, quando não é necessário escrever sobre um presidente que cria factoides como forma de manter o país em guerra, o debate avança, se torna sofisticado e mais amplo. E o país avança com ele. Lamentavelmente, esse processo costuma ser interrompido no Brasil, como acontece hoje. A função do autoritarismo é também a de interditar o debate.
Hoje, mais uma vez, é preciso fazer alianças com pessoas que até ontem cometiam violências semelhantes as que hoje denunciam porque o bolsonarismo é uma ameaça não apenas à democracia, esta que já se desfaz, mas à civilização, na falta de palavra melhor. O bolsonarismo é uma ameaça ao planeta, já que está destruindo a Amazônia numa velocidade sem precedentes. Quando uma ameaça da proporção do bolsonarismo se realiza e avança, é necessário suspender as dores mais do que justas e costurar as alianças possíveis para impedir a destruição dos valores fundamentais. Jamais, porém, devemos abdicar da memória. Alianças, sim. Apagamentos, não. Que ninguém se esqueça: seguiremos lembrando.
Quando Bolsonaro ataca a jornalista Patrícia Campos Mello, ele revela o quanto teme o bom jornalismo, o mesmo que décadas atrás denunciou seu plano de explodir bombas em quartéis. Bolsonaro também está desesperadamente tentando se esquivar de uma outra mulher. Quem assombra o seu Governo, a sua família e o seu futuro político é uma mulher negra: Marielle Franco. Enquanto a execução da vereadora do PSol não for desvendada, ela seguirá assombrando Bolsonaro. É este o furo que Bolsonaro mais teme.
Pelo bom senso, o presidente deveria ser o mais interessado em elucidar o crime. Infelizmente, por razões que a razão possivelmente não desconheça, ele não parece especialmente empenhado. Dois anos neste sábado, 14 de março, desde os tiros que arrebentaram a cabeça de uma mulher brilhante e continuamos sem saber quem mandou matar Marielle. Teremos, portanto, que seguir perguntando, e cada vez mais alto: Quem mandou matar Marielle? E por quê?
Bolsonaro, é necessário afirmar mais uma vez, não é um produto da ditadura. Bolsonaro é um produto da democracia deformada que se seguiu à ditadura. Foi essa democracia tantas vezes covarde e acovardada – conivente tanto com a impunidade dos crimes do regime de exceção quanto com a tortura e a morte dos mais pobres – que garantiu a sua impunidade desde o plano terrorista de 1987. O antipresidente que hoje governa o Brasil é o principal exemplo de toda a corrupção do sistema que finge denunciar. Só as instituições que até hoje falharam, deliberadamente ou não, em responsabilizá-lo pelos seus atos e falas podem impedir Bolsonaro de seguir produzindo violências contra as mulheres, contra os negros, contra os indígenas, contra a Amazônia, contra o planeta que depende da Amazônia. Contra o Brasil. Só a democracia efetiva pode barrar Bolsonaro.
Os golpes do século 21, vale repetir, não acontecem mais de repente, como era no século 20. No Brasil, assim como aconteceu e acontece em outros países neste momento, a democracia está sendo devorada ao modo dos parasitas: desde dentro, um pouco mais a cada dia. As chances desse corpo enfraquecido resistir diminuem com as horas. Não há milagre nem mágica. Só com o que ainda resta de democracia, e isso enquanto restar, é possível impedir os violentos de exercerem sua violência, os golpistas de completarem o golpe.
Termino com o desejo de que, inspiradas por Marielle Franco, as mulheres brasileiras e os homens feministas – porque feminismo é posição política, não depende de sexo e gênero – se coloquem em movimento. Que, junt@s, sejamos capazes de resistir e obrigar as instituições brasileiras a se reencontrarem com a vergonha enquanto ainda é possível. O tempo se esgota.

quinta-feira, 12 de março de 2020

A Maior Reserva Extrativista do Brasil está sob ameaça de latifundiários empoderados por Bolsonaro

Movimento de aliados do Governo federal tenta alterar status da terra Verde Para Sempre, no 
Pará. Presidente já se declarou contra reservas do gênero. Área já enfrenta grilagem.
EL PAIS - AFONSO BENITES
Porto De Moz E Altamira (Pará) - 10 MAR 2020

Quando, há quarenta anos, o agricultor Idalino Nunes da Silva começou a atuar no movimento social, 
a estudante Stefany Mendonça Amaral e o motorista Rosilei Barbosa Pimentel nem tinham nascido. 
Hoje, tentam convergir os discursos de um idoso sindicalista de 73 anos, de uma menina fã de 
búfalos de 9 anos e de um adulto que trabalha com manejo florestal de 29 anos por uma mesma 
causa: a preservação social e ambiental de seu lar, a maior reserva extrativista do Brasil, a Verde Para 
Sempre. Ao percorrer parte dos 1,3 milhão de hectares (área 6,5 vezes a da cidade São Paulo) 
localizada no município de Porto de Moz, no Pará, é comum ouvir relatos de que grandes produtores 
de gado e madeireiros tentam recuperar as terras que ocuparam ilegalmente de 1940 até 2004, 
quando foi assinado o decreto presidencial de criação do território e os expulsou da região. Os 
clamores ganharam um novo impulso com a chegada de Jair Bolsonaro e seu discurso contra as resex 
(reservas extrativistas) ao Planalto.
A situação adiciona uma camada de tensão em um cenário já volátil. A expulsão de forasteiros e 
grandes produtores na Verde Para Sempre ocorreu muito na teoria e pouco na prática, já que ainda é 
possível encontrar áreas cercadas onde estão confinadas milhares de cabeças de búfalo, o que é 
ilegal. 
Apenas a produção em pequena escala é permitida. Nesse caldo de ilegalidades também há as 
denúncias de venda de terras —relatos recebidos pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Porto 
de Moz, hoje presidido por Idalino. As informações que a ele chegaram dão conta de que há áreas de 
até 500 hectares sendo comercializadas por 80.000 reais. “É barato, né? Claro, quem vai pagar caro 
por uma área que amanhã você pode ser expulso. Isso se houvesse fiscalização”, diz o sindicalista.
Há os que tentam ganhar dinheiro com a regularização de lotes que já foram decretados como da 
Resex (reserva extrativista). “Dou consultoria para mais ou menos 15 pessoas que entraram na 
Justiça para solicitar a posse da área antes da criação da reserva”, diz o presidente da Associação dos 
Produtores Rurais e Agro-industrial do Vale do Bacajaí (Aprub), Pedro Pintado Ferreira.
Na semana passada, o EL PAÍS esteve na reserva, que ocupa 82% do território de Porto de Moz e é 
formada por 37 comunidades de casas, muitas delas em palafitas, onde vivem cerca de 13.000 
pessoas. Delimitada por dois dos rios mais importantes do Norte do Brasil, o Xingu e o Amazonas, a 
Resex é dividida em duas partes, a terra firme, de onde sai a produção madeireira, além da extração 
de frutas e da castanha, e a várzea, onde são produzidos os búfalos, porcos e o pescado.
Para percorrer o local, foi necessário transitar por cerca de 450 quilômetros entre estradas no Pará, o 
rio Xingu e três de seus afluentes. Nos rios, o som dos motores de popa intercala com o canto dos 
xexéus —uma avezinha preta e amarela—, com o grunhir de porcos, o mugir dos búfalos, o 
mergulho de botos. No cenário, além do reflexo do céu na água e de algumas revoadas, é possível se 
deparar com toda espécie de embarcações, desde pequenas canoas a remo, barquinhos em que as 
mulheres usam o guarda-chuva para se proteger do sol de 30ºC e até enormes balsas que transportam 
quase 1.000 toras de madeiras.
Balsa transporta quase 1.000 toras de madeira pelo rio Xingu. Carregamento veio de plano de 
manejo da comunidade Itapeua. 
Uma mudança que pode atingir 66 reservas extrativistas
Enquanto a reserva fervilha de vida e de negócios ilegais, nos bastidores, os que querem recuperar as 
suas pretensas terras na Verde Para Sempre atuam em três frentes, todas apoiadas por lideranças 
locais alinhadas com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A primeira é tentar reduzir o 
tamanho da reserva. A segunda, alterar o status dela para voltar a permitir a exploração por 
latifundiários. A terceira, mudar o artigo 18 do Sistema Nacional das Unidades de Conservação que 
impede a criação de animais de grande porte em áreas ambientalmente protegidas, mas defende a 
cultura das comunidades tradicionais. A última das propostas é a mais palpável no momento. Desde 
fevereiro há um projeto de lei tramitando na Câmara que trata sobre esse tema. Seu autor é o 
deputado Júnior Ferrari (PSD-PA). Em caso de aprovação, o estrago atingiria todas as 66 reservas 
extrativistas (Resex) da União, não apenas a Verde Para Sempre.
O tema da pecuária bubalina tem demonstrado ser apenas um atalho para exploração maior da 
reserva, segundo o presidente do Fórum Nacional Amplo em Defesa da Amazônia, o deputado 
Airton Faleiro (PT-PA). “Essa questão do búfalo é pano de fundo para um debate muito maior, que é 
o da extinção de direitos, redução de área e de ataques às comunidades locais”. “Até eu, que sou 
criança, sei que criar búfalo não tem problema. Só não pode ser muitos deles juntos no mesmo 
espaço, né? Se não, traz problema para a natureza”, diz a garota Stefany, logo após posar para a foto 
montada em dos búfalos criados por seu pai, o produtor Dilciney Amaral, 45 anos.
No que depender exclusivamente do presidente Jair Bolsonaro, não haverá resistências para essas 
alterações pretendidas por seus apoiadores. O mandatário já disse, mais de uma vez, que congelaria 
em seu Governo qualquer tentativa de criação de novas unidades de conservação ambiental ou 
melhorias nas existentes pelo simples fato de considerá-las um atraso. Sua avaliação é que o “Estado 
se inviabiliza se esse tipo de política continuar a se fazer presente”, conforme discursou no Mato 
Grosso em agosto do ano passado. Seus assessores, que não atenderam aos pedidos de entrevista, 
seguem na mesma linha.
No próximo sábado, o presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade 
(ICMBIO), o coronel da Polícia Militar Homero de Giorge Cerqueira, deve participar de um 
encontro de fazendeiros de Porto de Moz interessados em alterar a legislação ambiental. O grupo é 
liderado pelo prefeito local, Berg Campos (PTB), que nega a intenção de destruir a floresta. “Nós 
somos o maior contemplado em preservar nossos rios e nossa floresta. Então, a gente quer 
preservação, sim. Mas também queremos que nosso povo tenha qualidade de vida”. O tema tem sido 
acompanhado de perto pelo Ministério Público Federal, que questionou o ICMBIO sobre a 
participação no encontro.
O resultado dessas mudanças poderia ser a transformação desse trecho da Amazônia em um grande 
pasto ou em uma extensa lavoura. “A floresta tinha três ciclos. O primeiro era tirar a madeira, que 
era a matéria prima. O segundo ciclo corte raso e plantar capim. Depois de três ou quatro anos, 
quando a terra tivesse em decomposição, era meter o arado e plantar soja”, alertou Idalino, que diz 
que com a criação da reserva, parte do primeiro, além do segundo e do terceiro ciclo acabaram 
freados.
Acirramento dos conflitos
Quem atua na linha de frente nessa região do país já tem sentido os resultados da mudança de tom na 
área ambiental. “A situação de conflito sempre existiu. Em determinado período ela é maior, em 
outro é menor. Hoje, nesse ciclo, a gente está vivenciando uma intensidade maior de conflitos 
preexistentes. Isso ligado a discursos do presidente”, diz a defensora pública Andreia Barreto, que há 
dez anos atua na área agrária na região de Altamira (PA).
Na região da Resex também se constata um princípio de mobilização popular, que lembra 
superficialmente ao que, em 2004, resultou no decreto de criação da reserva. Por ora, as 
movimentações ainda são tímidas. Naquela ocasião, os moradores impediram o transporte por alguns 
rios, protestaram contra as geleiras (que eram as embarcações de empresas que continham freezers 
para confiscar o pescado pelos ribeirinhos) e denunciaram grilagens.
Idalino Nunes de Assis e Wilson Sanchez na comunidade Nova Jerusalém, na Resex Verde Para 
Sempre.LILO CLARETO
Agora as mesmas vozes que lutaram por quase 30 anos até o decreto de criação da área ser assinado 
tentam ganhar força. A dificuldade, contudo, é afinar o discurso de pessoas com mais de 60 anos de 
idade com o da juventude, que começa a tomar as rédeas dos projetos comunitários sociais e se 
sentirem as responsáveis por proteger a região. Idalino é um desses em busca de um herdeiro. Por 
onde passa é comum ouvir pessoas dizendo que, graças ao seu empenho, elas hoje têm um lugar para 
viver. “Primeiro eu agradeço a Deus, depois ao seu Idalino. Sem ele, não teríamos nada disso aqui”, 
desabafa de maneira emocionada Wilson Sanchez, de 56 anos, produtor de queijo de búfala.
Segurando um punhado de terra na mão, Idalino faz uma breve análise sobre a importância de se 
debater o tema cara a cara na Resex, fora da bolha da internet, da qual boa parte da comunidade tem 
acesso graças a energia elétrica proporcionada por placas solares doadas pela União. “As redes 
sociais só discutem as mil maravilhas que veem fazendo. Mas a disputa aqui é da terra, é do 
território. O território que está em jogo”.
Assim que conclui sua fala, entra numa igreja para tentar repassar seus conhecimentos para os jovens 
que acompanhavam uma celebração dominical, entre eles Rosilei, um aficionado por selfies que 
trabalha no projeto de manejo florestal da região. Nascido na Verde para Sempre, ele demonstra ter 
absorvido parte do que tem ouvido dos mais velhos. “A reserva trouxe vários benefícios, formas de 
trabalhar melhor, trabalhar organizado, proteger, principalmente a floresta”, afirma.
Um dos argumentos dos que atuam por alterar o status da reserva é o de que os que nela vivem 
passam fome. “Têm pessoas que passam necessidade dentro da reserva. Depois da criação da 
reserva, dentro do município de Porto de Moz, surgiram três novos bairros. E 90% da população 
deles veio de dentro da reserva. Por quê? Porque o ganha pão deles sempre foi ou a madeira ou o 
gado”, diz o prefeito Berg Campos.
No período em que a reportagem esteve na reserva, nove moradores toparam gravar entrevistas. 
Quando questionados se estavam famintos ou se conheciam alguém que passava fome, todos 
disseram que não. “Nós nunca passamos fome. Até porque temos uma terra a qual podemos 
trabalhar. Só passa fome quem for preguiçoso”, disse a professora comunitária, Maria do Socorro 
Barbosa da Silva.
“Até brinco com a mulher, digo, poxa, acho que eu trabalho só pelo meu alimento, porque estou 
gordinho. Não sei de onde o cara diz que aqui tem miséria. Aqui é abundância”, afirma o produtor 
Dilciney, conhecido como Branco.
Extrativistas que trabalham no plano de manejo florestal sustentável: Elivaldo Ribeiro, Rosilei 
Barbosa Pimentel e Romildo Pimentel. LILO CLARETO