
POR RUTH DE AQUINO
Desculpe minha ignorância, atores, atrizes, dramaturgos, pessoal da cultura. Eu nunca tinha ouvido
Desculpe minha ignorância, atores, atrizes, dramaturgos, pessoal da cultura. Eu nunca tinha ouvido
falar de Roberto Alvim até ele virar diretor da Funarte por sua adoração a Jair Bolsonaro e a tudo que
o presidente representa. Para ser honesta com os leitores, devo dizer que continuei a não saber nada
de Roberto Alvim até ele decidir ter seus 15 minutos de fama por caminhos tortos. Ele ofendeu a
dama do teatro brasileiro, a mais digna, a melhor atriz, a que deslumbrou plateias internacionais no
cinema, Fernanda Montenegro, nossa diva maior que fará 90 anos no dia 16 de outubro.
Quem é Roberto Alvim? Lavaste a boca para falar de Fernanda? Não lavou. Pelo que disse, não
lavou. Queria criticar Fernanda? Não tem estrada, não tem estofo nem para críticas, quanto mais
ofensas. Partiu para a ignorância e o desrespeito flagrante. Acertou no que não viu. Não é só a classe
artística que está indignada. Qualquer pessoa minimamente educada sabe que chamar Fernanda de
“sórdida” vai muito além de apoiar Bolsonaro na “guerra irrevogável” contra a "esquerda cultural".
Roberto Alvim é o 00 do governo. Nada. Ele se refere a uma entrevista de Fernanda como “infantil,
mentirosa e canalha”. Disse que hoje sente “desprezo” por ela. Enlouqueceu.
Sério mesmo? Essa pessoa chamada Roberto Alvim não tem condições de ocupar o cargo na Funarte
Sério mesmo? Essa pessoa chamada Roberto Alvim não tem condições de ocupar o cargo na Funarte
ou de liderar a classe teatral, que chama de “asquerosa”. Essa pessoa chamada Roberto Alvim disse
que Fernanda, ao interpretar Simone de Beauvoir, fez um “endeusamento de uma personagem
progressista abjeta e hipócrita” e que tudo isso que ele falou são “fatos”. Socorro. Falou que
Fernanda vive “um triste fim de carreira”. Onde vive essa pessoa? Quem é? Roberto Alvim é diretor
do Centro de Artes Cênicas da Funarte. Precisa voltar rapidamente ao lugar de onde veio, àquele
lugar no passado em que quase ninguém sabia quem ele era.
Corri à biografia de Roberto Alvim, para saber algo. Precisamos fazer jus a Roberto Alvim, essa
pessoa que se gaba de ter “pisado na cabeça da serpente”. Xô. Vou dar um copy-paste no site
“infoescola”, com a bio dele. Nasceu em 1973. “Criador e diretor de pelo menos 16 peças, levadas
aos palcos cariocas, paulistas, franceses, suíços e argentinos”. (???) “Aos 22 anos, Roberto
subitamente retrocedeu e entrou em processo de busca interior através de práticas meditativas”.
“Ele radicalizou sua escolha refugiando-se numa cabana em pleno sertão piauiense, ao longo de 21
dias, sem contato com ninguém, comendo e bebendo apenas o suficiente para sobreviver. Retornou
ao seio familiar, mas deu sequência ao mesmo estilo de vida, até receber um convite, um ano e meio
depois de sua repentina mudança de caminho, para voltar à direção teatral. Sem saber bem por que,
Roberto decidiu retomar sua trajetória profissional”.
Foi diretor artístico de dois teatros, o Carlos Gomes e o Ziembinski. Em 2006 Alvim se mudou para
Foi diretor artístico de dois teatros, o Carlos Gomes e o Ziembinski. Em 2006 Alvim se mudou para
São Paulo. Casado com a atriz Juliana Galdino, criou a companhia Club Noir. "Com encenações que
mergulham fundo em um estilo conhecido como estética da penumbra, Roberto vem utilizando o
palco como um meio de representar a escuridão caótica, que é estruturada através do poder da
palavra”.
“Enquadram-se nessa estética as peças 'A Terrível Voz de Satã', de Gregory Motton, e 'O Quarto', do
irlandês Harold Pinter, com a qual Roberto conquistou um prêmio. No Rio de Janeiro ele encenou
'PeleCarneSangueOssos', ‘Qualquer espécie de salvação’, ‘Às vezes é preciso usar um punhal para
atravessar o caminho’”.
Umas informações que não constam dessa bio se referem a drogas e depressão. No final de 2016,
sofreu com um tumor no intestino, álcool e drogas, e queria se suicidar. Foi quando descobriu Jesus
ao ouvir a oração da empregada doméstica. "Eu senti uma energia, levantei da cama e nunca mais
senti dor nenhuma. O tumor praticamente desapareceu e eu não tive mais nenhum sintoma", disse
Alvim. Ele se considerava ateu, mas passou a ir a missas e aderiu à Igreja Católica. Virou um
ortodoxo. Um fundamentalista feroz e sem estribeiras.
Não dá muito para verificar a veracidade da curta biografia de Alvim, porque poucos fora da área
Não dá muito para verificar a veracidade da curta biografia de Alvim, porque poucos fora da área
restrita dele o conhecem direito. Ex-alunos e alunas contam em off passagens chocantes sobre a vida
dele antes da conversão. Não ouso reproduzir. Mas agora dá para intuir quem é o dramaturgo que
incorporou a “escuridão caótica” para usar a palavra como punhal e exorcizar suas obsessões. Só isso
explica seu surto nas redes sociais contra Fernanda Montenegro. Numa era em que presidente e
ministros acham engraçado ser deselegante e ofensivo, mesmo em nome de Deus, burocratas como
Roberto Alvim imaginam que as comportas do ultraje foram escancaradas no Brasil. Não é preciso
ser atriz para nutrir desprezo por…quem é ele mesmo?
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