
HÁ UM MÊS, o Intercept iniciou uma série de reportagens que mudaram para sempre a história da
operação Lava Jato, de seus procuradores e do ex-juiz e atual ministro de Jair Bolsonaro, Sergio
Moro. Antes vistos como heróis intocáveis, os monopolistas do combate à corrupção (que tentavam
silenciar qualquer voz que se levantasse para expor seus erros, abusos e ilegalidades) hoje são vistos
de outra maneira pela população: 58% dos brasileiros acreditam que as conversas de Moro com
procuradores são inadequadas. A desconfiança é ainda maior entre os jovens: na faixa etária de 16 a
24 anos, 73% não querem um país guiado pelo espírito justiceiro de Moro.
Em seus primeiros capítulos, as histórias dos arquivos secretos da Vaza Jato mostraram Moro
Em seus primeiros capítulos, as histórias dos arquivos secretos da Vaza Jato mostraram Moro
atuando como chefe de fato dos procuradores, o que é ilegal; expuseram o coordenador da força-
tarefa Deltan Dallagnol apresentando uma denúncia contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva
secretamente para evitar que Lula desse uma entrevista durante a campanha eleitoral por medo que
pudesse ajudar a “eleger o Haddad”.
28 de setembro de 2018 – chat privado

Anna Carolina Resende – 11:24:06 – ando muito preocupada com uma possivel volta do PT, mas tenho rezado muito para Deus iluminar nossa população para que um milagre nos salve
Deltan Dallagnol – 13:34:22 – Valeu Carol!
Dallagnol – 13:34:27 – Reza sim
Dallagnol – 13:34:32 – Precisamos como país
da força-tarefa a respeito da guerra jurídica em torno da entrevista. Na manhã do dia 28 de setembro
de 2018, a imprensa noticiou que o ministro do STF Ricardo Lewandowski autorizara Lula a
conceder uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. Em um grupo no Telegram, os procuradores
imediatamente se movimentaram, debatendo estratégias para evitar que Lula pudesse falar. Para a
procuradora Laura Tessler, o direito do ex-presidente era uma “piada” e “revoltante”, o que ela
classificou nos chats como “um verdadeiro circo”. Uma outra procuradora, Isabel Groba, respondeu:
“Mafiosos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!”
Eram 10h11 da manhã. A angústia do grupo – que, mostram claramente os diálogos, agia
Eram 10h11 da manhã. A angústia do grupo – que, mostram claramente os diálogos, agia
politicamente, muito distante da imagem pública de isenção e técnica que sempre tentaram passar –
só foi dissolvida mais de doze horas depois, quando Dallagnol enviou as seguintes mensagens,
seguidas de um áudio.
A comemoração de Dallagnol expõe mais uma vez sua hipocrisia e sua motivação política: antes de28 de setembro de 2018 – grupo Filhos do Januario 3

Deltan Dallagnol – 23:32:22 – URGENTE
Dallagnol – 23:32:28 – E SEGREDO
Dallagnol – 23:32:34 – Sobre a entrevista
Dallagnol – 23:32:39 – Quem quer saber ouve o áudio
Dallagnol – 23:33:36 –
serem alvos de vazamentos, os procuradores da força-tarefa enfatizavam – em chats privados com
seus colegas – a importância de uma imprensa livre, o direito de jornalistas de publicar materiais
obtidos por vias ilegais e que a publicação desses materiais fortalece a democracia.
No passado, Dallagnol era o maior entusiasta das garantias que foram justamente a base para a
No passado, Dallagnol era o maior entusiasta das garantias que foram justamente a base para a
decisão de Lewandowski autorizar a entrevista de Lula. Em novembro de 2015, como o Intercept
publicou, Deltan alertou seus colegasque investigar jornalistas que publicavam material vazado não
seria apenas difícil mas “praticamente impossível”, porque “jornalista que vaza não comete crime”.
Naquele época, ele era um dos principais defensores da importância de uma imprensa livre em uma
democracia, um princípio que abandonou quando poderia, aos seus olhos, ajudar o PT a vencer a
eleição.
Apesar do apelo do procurador para que a informação não fosse compartilhada, a notícia já se
Apesar do apelo do procurador para que a informação não fosse compartilhada, a notícia já se
espalhava pela internet.
Depois do impacto inicial da Vaza Jato, o Intercept e seus parceiros continuaram a publicação de
Depois do impacto inicial da Vaza Jato, o Intercept e seus parceiros continuaram a publicação de
uma sequência de reportagens que mostraram as entranhas da operação, iluminando as conversas
secretas que o público brasileiro e mundial precisavam ver.
Em parceria com Folha de S.Paulo, revista Veja e o jornalista Reinaldo Azevedo, mostramos
comportamentos antiéticos e transgressões.

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