segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

WAGNER MOURA: “A MINHA GERAÇÃO É MUITO ALIENADA”


Depois de ver "Marighella", seu primeiro filme como diretor, o ator Wagner Moura diz que a
sua "geração é muito alienada, mas os jovens da geração de Marighella deram sua vida por 
algo no qual acreditavam. Na resistência à ditadura, as pessoas se sacrificavam umas pelas 
outras. Marighella não só sacrificava sua vida na resistência como sacrificava o tempo que 
poderia passar com seu filho Carlinhos".
Não há a menor dúvida, a imprensa internacional está muito bem informada e acompanha 
atentamente o que se passa no Brasil, com o retrocesso social programado e a intenção de se refazer 
a história brasileira. A nova geração de jornalistas, que nasceu depois do Golpe Militar de 64 não 
parece disposta a aceitar as intenções do governo Bolsonaro de anular os avanços obtidos, depois do 
retorno à democracia, em termos de direitos humanos, proteção à população pobre e negra e respeito 
ao direito dos indígenas de viverem em suas terras.
Reafirmando sua vocação de ambições políticas, o Festival de Berlim, deu espaço ao ator e agora 
realizador cinematográfico Wagner Moura, para mostrar como convidado especial seu primeiro 
filme, dedicado ao resistente guerrilheiro Carlos Marighella. Assassinado em novembro de 1969, nos 
arredores da avenida Paulista, o primeiro líder e herói da resistência armada ao Golpe de 64, é pouco 
conhecido pelas jovens gerações. O filme Marighella, com Seu Jorge no papel principal, tem por 
objetivo preencher essa lacuna, embora não esteja garantida sua exibição nas redes normais de 
cinema.
Wagner Moura, o conhecido ator no filme Tropa de Choque, do realizador José Padilha, não tem 
papas na língua e considera seu filme Marighella como o primeiro produto cultural da cena brasileira 
sobre a luta contra o Golpe de 64, e ao mesmo tempo um instrumento da resistência necessária em 
favor dos negros das favelas e dos indígenas, no Brasil de hoje.
Seu Jorge não escondia sua satisfação por estar em Berlim representando o cinema brasileiro e por 
ter trabalhado com Wagner Moura, tendo consagrado toda sua paixão por esse projeto, tendo se 
dedicado inteiramente ao conhecimento da vida do líder Marighella, seja por leituras, entrevistas e 
depoimentos de pessoas que com ele conviveram.
Wagner Moura explica a utilização da violência dentro do filme, que se poderia também considerar 
como um action film, pela influência exercida sobre ele pelos realizadores belgas Irmãos Dardenne. 
Como seria um filme feito pelos Irmãos Dardenne sobre Marighella? se pergunta Wagner Moura.
"A minha geração é muito alienada, mas os jovens da geração de Marighella deram sua vida por algo 
no qual acreditavam. Na resistência à ditadura, as pessoas se sacrificavam umas pelas outras. 
Marighella não só sacrificava sua vida na resistência como sacrificava o tempo que poderia passar 
com seu filho Carlinhos", diz Wagner Moura.
"Fala-se nas escolas brasileiras na Revolução Francesa, mas não se fala na necessária revolução dos 
negros no Brasil", acentua Wagner Moura. "No momento, o governo está refazendo a história 
brasileira, enquanto os professores já começam a ser vigiados. Já não querem mais que se diga Golpe 
de 64 e sim Movimento de 64. Ao mesmo tempo, procuram criminalizar a arte".
"Os produtores estão com medo de programar meu filme nos cinemas. Queríamos distribuir o filme 
ao retornar de Berlim, porém isso parece não ser possível", diz Moura.
Explicando o porquê da falta de apoio da população aos resistentes, Wagner Moura lembra que logo 
após a revolução cubana, os norteamericanos sentiram a possibilidade da esquerda chegar ao poder. 
Havia, então, muita propaganda junto ao povo para convencer a população de que os comunistas 
eram a pior coisa possível. Em Cuba, Fidel Castro logo teve apoio da população, porque ninguém 
mais acreditava no Batista.
"Marighella não foi um superherói, era um ser humano com suas falhas, uma delas foi a de não ter se 
preocupado suficientemente com sua segurança, embora tivesse sido autor de um mini-manual do 
guerrilheiro urbano", comenta Wagner Moura.
"A situação brasileira atual é horrível. É o pior momento para a população negra nas favelas e para a 
população indígena. O presidente é homofóbico e racista. Nós ficamos no foco ao fazermos esse 
filme e vir aqui apresentá-lo. Nos deparamos com muita merda e vamos enfrentar muita merda, mas 
não temos medo. Se for mal para nós do filme, será muito pior para os setores da população 
ameaçados. O assassinato dos negros tem uma explicação, como disse um policial dentro do filme - 
se eu mato um negro é porque não posso matar um vermelho", acrescenta Moura.
Se houver dificuldade para distribuir e mostrar o filme Marighella, o que será por si só um ato de 
censura indireta, a equipe de Wagner Moura fará exibições independentes no interior e dentro dos 
movimento sociais. "Seria um absurdo não se levar o filme para aqueles aos quais ele se destina", 
argumenta Wagner Moura.

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