segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

AO LEMBRAR QUE DOOU O QUE RECEBEU DA COMISSÃO ANISTIA AO GRUPO TORTURA NUNCA MAIS, DILMA CUSPE NA CARA DA PASTORA DOIDAMARES


Dilma: “O que é meu por direito não pode ser negado pela história”
Em nota, ex-presidenta da República confirma que pediu indenização à Comissão de Anistia 
do Governo Federal e lembra que doou ao Tortura Nunca Mais as indenizações pagas pelos 
estados.
O país continua mergulhado em dias sombrios, onde políticas de Estado são destruídas e a 
perseguição política ganha cores dantescas, com o desumano e implacável tratamento dado ao ex-
presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Mais uma contribuição é acrescentada a esse ambiente de retorno às trevas. Agora, algumas das 
personagens mais tragicômicas desse governo – no Executivo e no Congresso – utilizam as legítimas 
e legais indenizações às vítimas do terrorismo de Estado para atacar aqueles que, como eu, foram 
ferozmente perseguidos e torturados pela ditadura militar. Tal tentativa evidencia grande vilania e 
desprezo pelos fatos.
É fato que pedi indenização à Comissão de Anistia do Governo Federal, já que fui vítima da 
brutalidade do regime militar, submetida à tortura e presa por mais de três anos, ainda na década de 
1970.
É fato que a Constituição Federal de 1988 estabelece indenizações a serem pagas às vítimas e a seus 
familiares pelo Estado Brasileiro, conforme estabelece as Disposições Transitórias da Carta.
É fato que os Estados federados consideraram necessário indenizar aos que, embora sendo presos 
pela União, por ela interrogados, torturados e condenados, foram, em alguns casos, entregues 
momentaneamente aos órgãos estaduais de polícia.
É fato que, ao integrar o governo Lula, como ministra, e, depois, ao chegar à Presidência da 
República, suspendi o processo indenizatório por razões éticas. Considerava indevido ser beneficiada 
pelo Estado Brasileiro enquanto era ministra e Presidenta da República.
É fato que as indenizações que me foram concedidas pelos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, 
onde estive detida e fui submetida a interrogatórios por agentes dos aparelhos de repressão, foram 
doados ao grupo Tortura Nunca Mais. Disso não me arrependo. Sei que o Brasil não irá se conciliar 
com sua história enquanto a tortura for uma política praticada por agentes públicos. Por isso, a 
atuação do Tortura Nunca Mais segue tão importante.
É fato que, depois de ser afastada da Presidência da República, em 2016, por um vergonhoso Golpe 
de Estado apoiado em um impeachment fraudulento – como agora até mesmo adversários 
arrependidos reconhecem – decidi recorrer, agora sem nenhum impedimento de ordem ética, à 
Comissão de Anistia do Governo Federal para pleitear o que me cabe por direito. Reafirmo ter sido 
vítima da tortura e da brutalidade da ditadura militar, como centenas de outros jovens e velhos 
militantes de esquerda. Muitos perderam suas vidas naquele período.
Uma figura do atual ministério declarou à mídia que vai negar meu pedido de indenização porque eu 
já havia recebido tal indenização dos três referidos estados. Não me surpreende.
Este governo trata os adversários políticos como inimigos e a inimigos não se indaga nem se 
questiona as razões.
Assim, desconhece que a Comissão de Anistia do Governo Federal, na grande maioria dos casos, 
deduziu dos pedidos da União as indenizações recebidas dos estados federados. E isso porque os 
estados aprovaram leis específicas e abriram procedimentos para os pedidos de indenização ainda 
nos anos 1990, portanto, bem antes do Governo Federal regulamentar, em novembro de 2002, tais 
indenizações.
Na verdade, tais figuras não concordam é com o ato político de indenizar as vítimas porque isso 
significaria reconhecer o profundo e explícito repúdio à iníqua e covarde violência praticada pelo 
poder ditatorial contra uma pessoa indefesa.
Para lembrar Darcy Ribeiro, tentamos fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente. E fracassamos. 
Mas os fracassos são nossas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem nos venceu.
O que é meu por direito não poderá ser negado pela história e pela Justiça. A vida é luta. E eu 
continuarei a lutar por dias melhores para o nosso povo e para o Brasil.
Lula Livre!
Dilma Rousseff

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