terça-feira, 18 de dezembro de 2018

PREFEITO DE SANTARÉM IGNORA PEDIDO POPULAR E CHANCELA O PLANO DIRETOR DO AGRO NEGOCIO E DA ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA

POR COLETIVO DE MORADORES DE 
Traído por vereadores, o povo foi ontem à
Prefeitura de Santarém pedir o VETO do prefeito 
Nélio Aguiar às mudanças feitas à revelia da 
população no documento final do Plano Diretor 
Participativo da cidade. Com pedido oficial 
protocolado, a população marcou uma reunião 
com o prefeito, quinta-feira, 9h, na Câmara 
Legislativa. Ignorando o pedido do povo ontem, 
Nélio Aguiar sancionou hoje pela manhã as 
alterações ilegais feitas pelos vereadores no 
Plano Diretor Participativo.
Esperaram dezembro pensando que o povo não
se mobilizaria. Desde a noite do dia 12, no
entanto, a sensação de traição fez com que todos
os movimentos sociais e moradores se
indignassem. E já estão ocupando as ruas exigindo que o prefeito VETE a mudança ilegal
feita pelos vereadores no documento construído
de maneira participativa por Santarém.
A gente tem o prazo de 15 dias para sancionar ou vetar. Caso isto não seja feito, caracteriza-se 
uma sanção tácita. O silêncio do prefeito significa que concorda com o texto da lei. 
Concordando, o presidente da Câmara vai promulgar. Este que é o trâmite. – explica Erasmo 
Maia.
A população lembrou que o papel do executivo no processo do Plano Diretor Participativo é garantir 
que o texto construído de forma participativa durante as audiências públicas seja respeitado, uma vez 
que a Lei n. 10.257/2001 estabelece a “gestão democrática por meio da participação da população e 
de associações representativas dos vários segmentos da comunidade na formulação, execução e 
acompanhamento de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano”. O artigo 182 da 
Constituição Federal coloca também que a participação da sociedade é fundamental tanto nos 
processos de elaboração como de revisão do documento.
Foto de Daniel Gutierrez Govino
Erasmo defendeu que o documento segue os trâmites legais na Câmara. Que após a audiência, 
passou por todas as comissões na câmara – ou o texto completo (que demoraria muito) ou dividido 
por tema (como aconteceu) – sendo alterado pelos vereadores em questões que não soube explicar.
A principal mudança no documento já alardeada pela mídia é em relação à delimitação das áreas 
destinadas a atividades portuárias, fato até enaltecido pelo Prefeito em entrevista ao G1.
Podemos dizer que o prefeito vai sancionar de forma tácita? O Plano Diretor vai encerrar somente 
com a publicação da lei. A prefeitura ainda não acabou com o papel dela e parece estar lavando as 
mãos. O povo está pedindo o VETO, para que o texto contemple a vontade popular. Tem 
jurisprudência nesse sentido. A prefeitura tem a chance de não permitir essa violação. Vocês são 
eleitos pela população e desrespeitam a população. Se não vetar, o prefeito está fingindo que não 
ouviu a população. com Thiago Rocha Pereira, da Comissão Justiça e Paz da Diocese de Santarém.
Os vereadores não participaram do processo de consulta pública porque não quiseram e agora não 
caberia a eles, muito menos ao Sindicato Rural de Santarém, fazer este tipo de alteração no texto 
final durante plenária. O agronegócio tem a pretensão de escoar grãos e gado originários do Centro-
Oeste, trazendo centenas de milhões de toneladas de soja pela Rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163). 
A partir de Santarém, seguir por navios pelo Rio Amazonas.
Para piorar, no dia 12 de dezembro, a plenária para aprovação na Câmara foi surpresa, apesar da 
população ter enviado pedidos de acompanhamento durante o ano todo sobre o processo de 
aprovação do Plano Diretor. Diga-se de passagem, muitos dos pedidos de acompanhamento nem 
respostas tiveram.
No dia 12, o movimento social não foi sequer convidado, somente o setor do agronegócio 
interessado na construção do novo porto soube da data com antecedência.

Mesmo assim, por grupos de Whatsapp, ruralistas espalham boatos falsos de que a população não 
estava presente no dia 12 de dezembro por falta de interesse no assunto e fazem ameaças à ONGs e 
movimentos sociais.
Pescador Antônio da Associação Pérola do Maicá
Acontece que desde 2016 a Justiça Federal paralisou o licenciamento do porto que a Embraps 
(Empresa Brasileira de Portos de Santarém) pretendia fazer no lago. Além das falhas do EIA/RIMA, 
os povos atingidos por tal empreendimento não haviam sido sequer consultados, conforme prevê a 
Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) da qual o Brasil é signatário. Além 
de comunidade de pescadores, há nove territórios quilombolas reconhecidos pela Fundação Cultural 
Palmares, pelo Incra, pela Justiça e até pela prefeitura de Santarém na margem do Maicá/Ituqui. 
Segundo Antonio da Associação Pérola do Maicá, nos últimos dois anos, no entanto, moradores têm 
sido bombardeados por falsas promessas e propaganda na região, sem ao mesmo tempo serem 
informados do impacto socioambiental do empreendimento.
Cabe lembrar que a população não é contrária a um novo porto, mas quer ser respeitada nos estudos 
e participar da escolha do melhor local na cidade para o empreendimento. Certamente, não no Maicá, 
uma área de várzea muito frágil, com comunidades de pescadores tradicionais e de quilombolas. A 
pesca artesanal praticada ao longo do Lago Maicá é a principal atividade econômica da localidade.
A presença de grandes navios pode levar à destruição acelerada das várzeas mais baixas, onde 
moram muitas comunidades tradicionais. Na área mais alta, ainda temos presença de 
comunidades indígenas. Acompanhamentos já foram realizados no rio Madeira, outra região de 
várzea, mostrando o impacto das balsas e navios. – explica a arqueóloga Dra. Anne Rapp Py 
Daniel presente no ato.
Anne lembra também que a região do Maicá é extremamente importante para a arqueologia, “com o 
sítio arqueológico mais antigo conhecido para o município, o Sambaqui de Taperinha, datado de 8 
mil anos. Também temos um grande número de sítios mais recentes (que possuem entre 2000 e 500 
anos) que ainda estão sendo mapeados, muitos desses sítios são identificados pelas grandes manchas 
de Terra Preta”.
A gente não está querendo demais, a gente está querendo ser ouvido e respeitado. Como 
assim para a população o prefeito não pode aparecer? Quando é sojeiro ou empresário, ele faz 
reunião. Só vamos sair daqui com a resposta certa.
Como medida para assegurar que o prefeito Nélio Aguiar escute o que a população tem a dizer, foi
protocolado na manhã de ontem, 17/12, um pedido oficial exigindo um encontro para quinta-feira,
20 de dezembro, às 9h da manhã, na Câmara Legislativa.

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