sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

PAI DE GUARANI KAIOWÁ ASSASSINADO NO MASSACRE DE CAARAPÓ É PRESO


Na manhã desta quinta (13), durante truculenta ação policial, o Guarani Kaiowá Leonardo de 
Souza foi preso na reserva Guarani e Kaiowa de Tey'i Kue; Leonardo é o pai de Clodiodi 
Aquile de Souza, jovem indígena assassinado no local em 2016, durante o ataque paramilitar 
realizado por fazendeiros que ficou conhecido como Massacre de Caarapó, que ainda deixou 
outros seis indígenas feridos por armas de fogo; os indígenas relatam que a polícia utilizou 
bombas de gás lacrimogênio, spray de pimenta e, além disso, matou o cachorro de uma das 
filhas de Leonardo.
Conselho Indigenista Missionário - Na manhã desta quinta (13), durante 
truculenta ação policial, o Guarani Kaiowá Leonardo de Souza foi preso na reserva Guarani e 
Kaiowa de Tey'i Kue, em Caarapó (MS). Leonardo é o pai de Clodiodi Aquile de Souza, jovem 
indígena assassinado no local em 2016, durante o ataque paramilitar realizado por fazendeiros que 
ficou conhecido como Massacre de Caarapó, que ainda deixou outros seis indígenas feridos por 
armas de fogo.
O indígena foi preso pela Força Nacional e levado para a sede da polícia federal de Dourados, onde 
permanece até agora. Familiares e integrantes da comunidade de Tey'i Kye, onde vivem mais de 
cinco mil indígenas, denunciam a truculência policial da ação. Os indígenas relatam que a polícia 
utilizou bombas de gás lacrimogênio, spray de pimenta e, além disso, matou o cachorro de uma das 
filhas de Leonardo.
Segundo Apyka Rendy, liderança Kaiowá, a comunidade está revoltada por considerar que a ação foi 
desproporcional e injusta. "Essa operação foi uma prestação de contas dos policiais aos fazendeiros, 
porque eles foram presos após o assassinato", avalia o indígena.
"Estamos muito preocupados com a forma como eles chegaram, usando violência. Na mídia, 
disseram que a comunidade resistiu, mas na verdade eles assustaram todo mundo", prossegue Apyka 
Rendy.
"Não comunicaram as lideranças e não teve presença da Polícia Federal. Um mês atrás, a Força 
Nacional nos disse que estaria aqui para apaziguar a região, e agora faz isso. Ficamos sem ter em 
quem confiar para fazer nossa segurança", preocupa-se o indígena.
Truculência
Kunumi Kusua Vera, um dos filhos de Leonardo, conta que o spray também foi usado contra 
crianças, inclusive seu irmão e sua irmã mais jovens, de doze e treze anos, que moram na casa de 
seus pais.
“Os policiais chegaram entrando na casa, sem apresentar mandado, apontaram arma para minha 
irmã. Espalharam pela casa roupas, documentação, e na saída ainda mataram o cachorro da minha 
irmã atropelado”, relata.
Pai de indígena assassinado preso, assassinos soltos
Leonardo de Souza, ex-capitão da reserva de Tey’i Kue, foi denunciado pelo Ministério Público 
Federal (MPF) pelos crimes de tortura de policiais, cárcere privado qualificado, roubo qualificado, 
sequestro, dano qualificado e corrupção de menores.
As acusações se referem ao conflito ocorrido entre indígenas e policiais depois do ataque que 
resultou no assassinato de Clodiodi e deixou diversos outros indígenas feridos, seis deles por armas 
de fogo e cinco dos quais com gravidade.
O próprio Kunumi Kusua Vera, irmão de Clodiodi, ficou um mês internado no hospital, em estado 
grave, e ainda carrega em seu abdômen o projétil que o atingiu durante a ofensiva.
O ataque iniciou na manhã do dia 14 de junho e envolveu ao menos 70 fazendeiros e pistoleiros 
uniformizados, mascarados e munidos de armas de fogo de diversos calibres e espingardas 
carregadas com balas de borracha. A milícia havia sido organizada pelos fazendeiros para retirar à 
força os indígenas das retomadas feitas em propriedades no entorno da reserva, as quais incidem 
sobre a Terra Indígena Dourados-Amabaipegua I. O relatório de identificação e delimitação da área 
acabara de ser aprovado pela Funai, o que foi tratado pelos ruralistas como uma afronta.
O MPF, por meio da força-tarefa Avá Guarani, chegou a obter a prisão preventiva dos proprietários 
rurais denunciado por envolvimento no massacre de Caarapó. Os fazendeiros Dionei Guedin, 
Eduardo Yoshio Tomonaga, Jesus Camacho, Virgilio Mettifogo e Nelson Buainain foram presos em 
agosto de 2016, mas foram soltos em novembro do mesmo ano por decisão do TRF-3. Desde então, 
respondem ao processo em liberdade.
Após o massacre, os indígenas, revoltados, mobilizaram-se e realizaram novas retomadas em sedes 
de fazendas lindeiras à reserva. Em meio à agitação, alguns deles entraram em confronto com 
policiais que se encontravam dentro do território. Uma viatura acabou incendiada e os policiais, 
acusados pelos indígenas de conivência com os fazendeiros, foram capturados e, após negociação 
com o corpo de bombeiros, liberados.
Ao contrário do que aponta a denúncia contra Leonardo, entretanto, lideranças e familiares negam 
que ele estivesse envolvido no conflito com a polícia.
“Essa acusação contra ele é injusta. Ele é morador antigo dali, nunca pensou em fazer mal para 
ninguém. Só que resolveram colocar no nome dele. Meu irmão foi baleado na retomada e o 
fazendeiro está solto. Foi preso, mas logo saiu. Agora, parece que acusam meu pai de ter feito algo 
mais grave do que terem matado meu irmão”, indigna-se Kunumi Kusua Vera.
“Eles querem achar um culpado. O filho dele está morto e ele está pagando por tudo que aconteceu, 
enquanto os brancos estão soltos”, complementa Apyka Rendy.
Saúde e segurança
Os indígenas buscam auxílio da Defensoria Pública da União (DPU) e temem pela saúde e pela 
segurança de Leonardo, caso ele seja enviado para o presídio.
“A maior preocupação é se mandarem ele para o presídio público. Tememos que façam algo com ele, 
pela situação de conflito aqui na região”, explica Apyka Rendy.
Outra preocupação é com a saúde de Leonardo, que tem 57 anos e, segundo seu filho, utiliza 
medicação diária para diabetes e pressão alta, além de ter desenvolvido depressão depois do 
assassinato de Clodiodi.
“A gente já perdeu uma parte da nossa família e agora pode perder meu pai, e ainda por cima 
acusado de uma coisa que ele não fez”, lamenta Kunumi Kusua Vera.
Confira abaixo a linha do tempo com os acontecimentos que antecederam e sucederam o massacre 
de Caarapó. Se tiver dificuldade de visualizar, clique aqui.

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