
OLAVO DE CARVALHO ESCOLHEU O MINISTRO DA EDUCASSÃO
O olavismo passou de piada a doutrina oficial
Por Bernardo Mello Franco, no Globo
Jair Bolsonaro correu o risco de acertar na escolha do ministro da Educação. Mozart Ramos tinha
currículo para o cargo. Ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco, hoje diretor do Instituto
Ayrton Senna, conquistou respeito no meio privado e na academia. Sua indicação parecia boa demais
para ser verdade. E era.
O educador foi vetado pela bancada evangélica, aliada do presidente eleito. “Somos totalmente
contra o nome dele”, resumiu o deputado Sóstenes Cavalcante. Ele participou da comitiva que foi do
Congresso ao CCBB, quartel-general do futuro governo, para torpedear a nomeação que já era dada
como certa.
A pressão funcionou. Ontem Bolsonaro cancelou a reunião que selaria a escolha de Ramos. Em seu
lugar, recebeu o procurador Guilherme Schelb. As credenciais do novo ministeriável eram
desconhecidas. Em poucos minutos, o enigma se desfez: ele havia virado propagandista do projeto
Escola Sem Partido.
Sem deixar a Procuradoria, Schelb se tornou um ativista de rede social. No Facebook, sustenta que
Sem deixar a Procuradoria, Schelb se tornou um ativista de rede social. No Facebook, sustenta que
há um complô para “doutrinar” e “erotizar” criancinhas nas escolas. Entre seus alvos, estão a
ministra Cármen Lúcia, a atriz Fernanda Lima e o ex-presidente Barack Obama.
É uma militância lucrativa. Ele mantém um site para agendar palestras e vender o curso on-line
“Família educa, escola ensina”. Um lote de cartilhas sai por R$ 1.700. O pastor Silas Malafaia
apoiou sua nomeação com entusiasmo. “Esse é o cara!”, vibrou, no Twitter.
O lobby evangélico bateu na trave. À noite, Bolsonaro anunciou a nomeação de Ricardo Vélez
Rodríguez. Apresentou-o como “filósofo autor de mais de 30 obras, atualmente professor emérito da
Escola de Comando e Estado-Maior do Exército”. Esqueceu de apontar o pai da indicação: o
ideólogo e polemista Olavo de Carvalho.
O guru ultraconservador já havia emplacado o trumpista Ernesto Araújo nas Relações Exteriores.
Agora apadrinha o ministro da Educação, que repete suas teses reacionárias com a vantagem de não
usar palavrões. O olavismo passou de piada a doutrina oficial de governo. Parece ser a hora de
adaptar um lema de outros tempos: “Chega de intermediários, Olavo para presidente!”.
Os tarados “ensinadores”Por Fernando Brito
O Sr. Jair Bolsonaro diz que “quem ensina sexo é papai e mamãe. Escola é lugar de se aprender
matemática, física e química para que no futuro tenhamos um bom empregado, um bom patrão”.
Ainda que seja curiosa esta definição de educação que reduz a sua finalidade a formar “bons
Ainda que seja curiosa esta definição de educação que reduz a sua finalidade a formar “bons
empregados e bons patrões”, é aterrorizante o que se está lendo sobre a indicação do futuro Ministro
da Educação.
Parece que, afinal, agora, a escola vai “ensinar sexo”.
Depois de ouvir a vida inteira sobre os problemas da educação, desde a infância, com pais
Depois de ouvir a vida inteira sobre os problemas da educação, desde a infância, com pais
professores de escolas públicas, acabo de descobrir que sexo é a “disciplina” escolar mais importante
e problemática de nosso ensino.
Ficou evidente o mal-estar com o descarte de Mozart Neves Ramos, diretor do Instituto Ayrton
Ficou evidente o mal-estar com o descarte de Mozart Neves Ramos, diretor do Instituto Ayrton
Senna, depois que Viviane Senna ter se exposto publicamente como candidata a patrocinadora de
uma solução para a o Ministério da Educação, pelo fato de não ter sido considerado “de direita o
suficiente” pelo “bolsonarismo-raiz”
Tão grotesco quanto está sendo a “badalação pública” de que o escolhido para o cargo é um
procurador que integra a “Associação Nacional de Juristas Evangélicos” e que vende livros e cursos
pela internet supostamente contra “abusos” doutrinários nas escolas.
Incrível, ainda mais, porque em tempos em que qualquer pré-adolescente tem, na internet, trilhões de
Incrível, ainda mais, porque em tempos em que qualquer pré-adolescente tem, na internet, trilhões de
imagens que fazem os quadrinhos de Carlos Zéfiro parecerem livrinhos inocentes.
O sujeito é defensor da lógica miúda de que quem educa é a família, a escola apenas faz o papel de
ensinar, mecanicamente. Um bobagem mesquinha que, em primeiro lugar, ignora que a maioria dos
pais e mães pobres brasileiros mal têm meios e convívio com os filhos – saem às seis da manhã para
trabalhar e chegam às oito da noite, estourados, sem condição senão de comer e dormir – e eles
próprios tiveram, em geral, péssima formação educacional.
Aliás, perguntem lá ao capitão Bolsonaro ou ao general Mourão se as escolas militares que
frequentavam não educavam para valer, e na dureza…
Mesmo “de molho” como ando, não é possível assistir quieto a esta vergonha, que só pode ser
produto de mentes taradas, imundas sob seus mantos de “portadores da moral”.
O país de Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Paulo Freire não merece ter sua educação reduzida a isso.
Aliás, segundo a “teoria” do tal procurador, Guilherme Schelb, como “família educa e escola
ensina”, não precisamos de educadores. Só de ensinadores.
Adestradores de pobres.
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