
Otário Bonner e RenAnta Vasconcellos no Jornal Nacional da Globo. Foto: Divulgação/Twitter
Vergonha alheia
por Mauro Donato
Desde a vitória de Donald Trump, quando ficoucomprovado que as redes sociais transformaram-se
por Mauro Donato
Desde a vitória de Donald Trump, quando ficoucomprovado que as redes sociais transformaram-se
numa usina de mentiras decisiva, o mundo inteiro anda de olho nos países onde estejam ocorrendo
eleições.
Ontem não foi diferente. Tão logo veio a público a bomba estampada na capa da Folha de S.Paulo,
em letras garrafais: “Empresas bancam disparo de mensagens anti-PT nas redes” com a denúncia de
que várias empresas firmaram contratos de até R$ 12 milhões para emissão de mensagens a serem
feitas na próxima semana, a última antes da eleição de segundo turno, a repercussão foi imediata,
enorme e mundial.
O Guardian afirmou que Bolsonaro – a quem se referiu como ‘um populista pró-tortura que elogia a
O Guardian afirmou que Bolsonaro – a quem se referiu como ‘um populista pró-tortura que elogia a
ditadura’ – “tem recebido ajuda ilegal de um grupo de empresários brasileiros que estão
patrocinando uma campanha para bombardear usuários do Whatsapp com notícias falsas”.
E assim foi ao longo do dia. Não se falava de outra coisa em redações, escritórios, bares e padarias.
Portanto cresce aos olhos o fato de que o grupo Globo tenha ficado na moita praticamente o dia
inteiro. E quando não tinha mais como segurar, foi obtuso.
Somente no final da tarde o G1 noticiou discretamente, dentro da seção ‘Eleições’, fora da primeira
página. Já o site do O Globo havia postado uma matéria com o títuloforte “Bolsonaro pode ser
acusado de abuso de poder econômico e ter candidatura impugnada”, mas logo depois derrubou o
link.
E o Jornal Nacional não trouxe o tema nem como notícia. Deixou que o assunto fosse abordado pelo
próprio Fernando Haddad no bloco que traz as informações sobre a agenda dos candidatos.
“Estamos diante de uma tentativa de fraude eleitoral. E fico perplexo que o pressuposto dessa
campanha era liquidar a eleição no primeiro turno para que as notícias de hoje não viessem à tona”,
disse o petista. A perplexidade era geral, diga-se, mas a empresa da família Marinho fazia cara de
paisagem.
Fez pior. Em seguida ao bloco das agendas dos candidatos, o telejornal emendou uma reportagem
curta e desvinculada na qual Raquel Dodge afirmou que fakenews “não convém à democracia”; Rosa
Weber declarou “que os dois lados precisam combater as informações falsas”; Que Fachin pediu
“fair play aos dois lados”.
Em resumo, deu-se um jeito de equilibrar a coisa toda, como se isso fosse possível. Agiram como
Trump em resposta ao ataques de supremacistas brancos.
Jair Bolsonaro, como já se previa, saiu-se com o argumento que tem usado em todas as ocasiões (e
que revela seu grau de despreparo e seu caráter): “Eu não tenho controle, não tenho como saber e
tomar providência”.
O candidato tem reagido dessa forma covarde e espantosa para todo e qualquer evento importante –
de incêndio em museu a assassinato cometido por seus seguidores – mas e a Globo? Vai aguardar 50
anos para se retratar, como fez para admitir seu apoio à ditadura?
Veja o tamanho da gravidade da situação: o PT entrou com pedido de inelegibilidade de Bolsonaro
por abuso de poder econômico e o caso fez com que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) convocasse
para hoje, às 16 horas, uma coletiva de imprensa na qual estarão a presidente do TSE, Rosa Weber, o
ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança
Institucional da Presidência (GSI), general Sérgio Etchegoyen, a procuradora-geral da República,
Raquel Dodge, a advogada-geral da União, Grace Mendonça, e o diretor-geral da Polícia Federal,
delegado Rogério Galloro.
Mas quem se informa exclusivamente pela Globo hoje será pego de surpresa e seus jornalistas terão
que, mais uma vez, simular que ontem não sabiam de nada.
Vergonha, hein.
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