Usando um galão de gasolina, um homem ateou fogo em três das dez viaturas do órgão
Foto: Nando Chiappetta/DP
Ayanna tem 10 anos. É negra. Estuda numa pequena escola particular no bairro de Candeias,
estacionadas em frente a um hotel.Atentados ocorreram durante operações de combate ao
desmatamento ilegal
Alvo de duras críticas do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), o Ibama e o ICMBio sofreram ataques
Alvo de duras críticas do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), o Ibama e o ICMBio sofreram ataques
na Amazônia durante operações de combate ao desmatamento ilegal.
O atentado contra o Ibama aconteceu às 22h do sábado (20), na cidade de Buritis (RO), a 338 km de
O atentado contra o Ibama aconteceu às 22h do sábado (20), na cidade de Buritis (RO), a 338 km de
Porto Velho. Usando um galão de gasolina, um homem ateou fogo em três das dez viaturas do órgão
estacionadas em frente a um hotel.
O fogo foi controlado por policiais, evitando que se espalhasse às demais viaturas. O suspeito do
ataque, Edmar dos Santos Lima, foi preso e autuado por dano ao patrimônio público.
Durante a confusão, um grupo de pessoas se aglomerou diante do hotel. Algumas delas passaram a
Durante a confusão, um grupo de pessoas se aglomerou diante do hotel. Algumas delas passaram a
incentivar a queima de outras viaturas e chegaram a romper o cordão de isolamento. A polícia
conseguiu conter um segundo ataque e prendeu um dos incentivadores, de acordo com o boletim de
ocorrência.
A pedido do Ibama, uma unidade de elite da PM de Rondônia foi deslocada até Buritis. O órgão
A pedido do Ibama, uma unidade de elite da PM de Rondônia foi deslocada até Buritis. O órgão
ambiental também solicitou reforço da Força Nacional. A equipe do Ibama está em Buritis para uma
operação de combate ao desmatamento, como parte do Plano Nacional Anual de Proteção Ambiental
(Pnapa).
É a primeira vez neste ano que o Ibama tem viaturas incendiadas. Em julho do ano passado, um
É a primeira vez neste ano que o Ibama tem viaturas incendiadas. Em julho do ano passado, um
ataque queimou oito caminhonetes no sudoeste do Pará. Os veículos estavam sendo transportados em
um caminhão-cegonheira.
No caso do ICMBio, o incidente ocorreu na sexta-feira (19) à tarde, no município de Trairão (PA),
No caso do ICMBio, o incidente ocorreu na sexta-feira (19) à tarde, no município de Trairão (PA),
situado na BR-163 e a 1.395 km a sudoeste de Belém. Trata-se do primeiro ataque ao órgão
ambiental neste ano em todo o país.
De acordo com o relato oficial, uma equipe estava na Floresta Nacional (Flona) Itaituba 2 para
verificar um desmatamento detectado por satélite e combater o roubo de madeira.
Enquanto isso, foi queimada uma pequena ponte na única estrada de acesso. Áudios obtidos pelo
Enquanto isso, foi queimada uma pequena ponte na única estrada de acesso. Áudios obtidos pelo
ICMBio mostram que a ação foi orquestrada por moradores de Bela Vista do Caracol, distrito de
Trairão, cuja economia depende de madeira ilegal e extração de palmito.
Quando a equipe estava parada na ponte queimada, um grupo de moradores se concentrou numa
Quando a equipe estava parada na ponte queimada, um grupo de moradores se concentrou numa
segunda ponte, a algumas centenas de metros. Agentes do ICMBio relataram ter ouvido tiros.
Acionada, a Polícia Militar conseguiu desmobilizar os moradores. Depois que os agentes do ICMBio
Acionada, a Polícia Militar conseguiu desmobilizar os moradores. Depois que os agentes do ICMBio
improvisaram uma segunda ponte, os policiais escoltaram a equipe até a cidade de Itaituba.
Esses episódios ocorrem em meio a reiteradas críticas de Bolsonaro contra o Ibama e o ICMBio. Em
Esses episódios ocorrem em meio a reiteradas críticas de Bolsonaro contra o Ibama e o ICMBio. Em
pronunciamento logo após o primeiro turno, ele prometeu acabar com a "indústria de multas" dos
órgãos ambientais.
"Vamos botar um ponto final em todos os ativismos do Brasil. Vamos tirar o Estado do cangote de
"Vamos botar um ponto final em todos os ativismos do Brasil. Vamos tirar o Estado do cangote de
quem produz", prometeu, em referência aos órgãos ambientais.
A animosidade de Bolsonaro tem origem numa multa de R$ 10 mil que recebeu do Ibama após ser
A animosidade de Bolsonaro tem origem numa multa de R$ 10 mil que recebeu do Ibama após ser
flagrado pescando dentro de uma unidade de conservação, em Angra dos Reis (RJ). Em retaliação, o
deputado federal apresentou, em 2013, um projeto de lei que proibia agentes ambientais de portarem
arma. Bolsonaro depois retirou a proposta, mas nunca pagou a multa.
Para agentes do Ibama e do ICMBio, as declarações de Bolsonaro alimentam a hostilidade contra os
Para agentes do Ibama e do ICMBio, as declarações de Bolsonaro alimentam a hostilidade contra os
órgãos na Amazônia, onde já enfrentam dificuldades para atuar. No ano passado, por exemplo, os
escritórios de ambos órgãos foram incendiados por garimpeiros ilegais em Humaitá (AM).
O capitão da reserva do Exército recebeu votação acima da média nacional (46%) nas regiões dos
O capitão da reserva do Exército recebeu votação acima da média nacional (46%) nas regiões dos
ataques. No Trairão, o candidato do PSL obteve 51,9% dos votos válidos. Em Buritis, o percentual
chegou a 69,9%.
DENÚNCIAS: Menina negra é ameaçada em
escola por colega: ”Aqui não é lugar para
você; Bolsonaro vai resolver essa mistura”
DENÚNCIAS: Menina negra é ameaçada em
escola por colega: ”Aqui não é lugar para
você; Bolsonaro vai resolver essa mistura”
Foto: Nando Chiappetta/DPAyanna tem 10 anos. É negra. Estuda numa pequena escola particular no bairro de Candeias,
Jaboatão dos Guararapes, e este ano não quis participar das comemorações do Dia das Crianças.
Em casa, relatou à família que tinha vivido uma ameaça logo após a divulgação do resultado do
primeiro turno. Um menino, da mesma idade, se aproximou e disse: “Ayanna, aqui não é lugar para
você. Você não vai poder estudar mais nesta escola porque não combina com sua cor. Sua família é
negra e vocês têm que viver separados de nós. Bolsonaro já ganhou e garantiu que vai resolver essa
mistura. Se seus pais vierem falar merda, a gente mete bala”.
Segundo contou a mãe, Josivânia Freitas, a filha foi vítima de uma sequência de outras frases
intimidatórias e preconceituosas. Teria sido chamada de “burrinha” em ocasião anterior. E
questionada: “Você estuda nesta escola por causa de bolsa?”, teria perguntado o mesmo menino a
Ayanna.
A garota transferiu a pergunta à mãe: “Mamãe, o que é bolsa?”.
Josivânia explicou que era um benefício de gratuidade para alguns alunos, mas que, no caso dela, a
A garota transferiu a pergunta à mãe: “Mamãe, o que é bolsa?”.
Josivânia explicou que era um benefício de gratuidade para alguns alunos, mas que, no caso dela, a
escola era paga pela família. Ayanna chorou, não quis ir à escola nos dias seguintes e os pais
analisam se será preciso transferir a menina da unidade educacional.
Ayanna é a única criança negra da série dela. Ela lembra de outras duas na escola; com uma
diferença: Ayanna é cafusa, mistura de negra e índia, com descendência dos Xucurus de Pesqueira.
Por isso, tem melanina mais forte que a das colegas do 5º ano.
“Chorei e não foi pouco. Minha filha vive no meio de uma ameaça. Tem medo de existir”, diz
“Chorei e não foi pouco. Minha filha vive no meio de uma ameaça. Tem medo de existir”, diz
Josivânia, pedagoga, doutoranda em Educação Matemática e Tecnológica na UFPE, professora de
pós-graduação em Psicopedagogia educacional da UniNabuco, de pós-graduação no Instituto
Nacional de Ensino Superior (Inesp/Caruaru), do ensino fundamental em Jaboatão dos Guararapes e
coordenadora pedagógica da Escola de Saúde do Recife (ESR).
“Pensei muito antes de falar, mas a situação chegou a um ponto que é necessário”, frisou a mãe, que
“Pensei muito antes de falar, mas a situação chegou a um ponto que é necessário”, frisou a mãe, que
chegou a publicar o caso no perfil pessoal dela no Facebook. As frases do menino foram levadas à
professora.
“Não tenho críticas à escola nem ao projeto educacional deles. É muito organizada. Acho que é uma
“Não tenho críticas à escola nem ao projeto educacional deles. É muito organizada. Acho que é uma
questão pontual, que vem de casa. A professora disse que determinaria as desculpas por parte do
menino e que mandaria ele dar um abraço nela. Quem conhece minha filha sabe o quanto ela é
carinhosa, mas eu proibi o abraço. Não quero que haja abraço se ele tem nojo de minha filha e se já
disse que negro tem que servir”, pontuou a mãe.
Josivânia diz que viu as frases do menino como se fossem algo natural para ele – o que tornaria mais
Josivânia diz que viu as frases do menino como se fossem algo natural para ele – o que tornaria mais
preocupante em tempos de intensificação de discursos preconceituosos semelhantes.
“Só penso como vai ser daqui pra frente se tivermos um representante que diz que lugar de negro é na senzala”, disse ela.
“Só penso como vai ser daqui pra frente se tivermos um representante que diz que lugar de negro é na senzala”, disse ela.
A doutoranda se declara mais incomodada com a banalização do racismo.
Conta que, logo após postar o relato sobre a filha no Facebook, recebeu uma ligação de uma colega
Conta que, logo após postar o relato sobre a filha no Facebook, recebeu uma ligação de uma colega
da área de pedagogia minimizando o fato e dizendo que seria “muito fácil resolver”, que “não foi
trauma grande porque não aconteceu nada demais” e que ela saberia como conduzir.
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