terça-feira, 11 de setembro de 2018

O GEN FAKE VICE DE BOLSONARO


Mourão, um novo franco-atirador para 
populismo conservador de Bolsonaro
MARINA ROSSI e FELIPE BETIM
“A corrupção nem sempre acontece com mala
de dinheiro. Ela acontece também no Diário 
Oficial, disfarçada de atos oficiais”. As palavras
são do coronel da reserva Rubens Pierrotti  
Junior, de 49 anos. Ele foi supervisor 
operacional durante o desenvolvimento do 
Simulador de Apoio de Fogo (SAFO) 
do Exército Brasileiro,  elaborado pela empresa 
espanhola Tecnobit para projetar cenários e 
missões virtuais para treinamentos de militares a 
custos mais enxutos. Inaugurado em 016, seis 
anos depois da licitação, o Exército garante que 
o simulador gera hoje uma economia de 50 milhões de reais por ano, mas o projeto acabou se 
tornando o epicentro de uma batalha na corporação: gerou resistência entre oficiais, demorou mais 
do que deveria para ser entregue e se tornou a razão de uma briga entre Pierrotti e o então general 
quatro estrelas Antonio Hamilton Martins Mourão, atual candidato a vice-presidente na chapa 
A história do simulador ainda envolve relações estreitas demais entre oficiais da alta patente e
executivos da empresa e até a suposta dívida por um favor prestado por um membro da
maçonaria espanhola a um general brasileiro, segundo documentos reunidos em um dossiê de 1.300
páginas ao qual o EL PAÍS teve acesso através da BrasiLeaks, uma plataforma on-line de denúncias
anônimas ao estilo da WikiLeaks. A partir da documentação, a reportagem conseguiu contactar
Pierrotti, que era um dos mencionados nos documentos e aceitou relatar com detalhes o desenrolar
do projeto.
Ao longo do desenvolvimento do simulador, a Tecnobit recebeu um total de oito reprovações do
corpo técnico do Exército de etapas que eram dadas como concluídas. Mais de dez oficiais foram
afastados ou pediram para deixar o projeto. Pierrotti foi um deles: ele pediu seu afastamento em
março de 2014, após ele mesmo reprovar sete vezes o simulador. Depois de deixar o projeto,
Pierrotti comandou um quartel paraquedista no Rio de Janeiro e passou para a reserva em setembro
de 2016, após quase 32 anos de serviço. Hoje ele atua como advogado. Já o general Mourão, que a
partir de 2012 passou a se envolver mais na coordenação do projeto, fazendo a interface entre o
Exército e a Tecnobit, ficou conhecido por suas manifestações a favor de uma intervenção militar
como forma de resolver a crise política brasileira. Desde que entrou na reserva, em fevereiro deste 
ano, vem se envolvendo mais ainda em assuntos políticos e promovendo candidatos militares
nas eleições de outubro de 2018.
A origem da relação entre a Tecnobit e oficiais do Exército brasileiro é alvo de diversas especulações
e teorias. Um delas, relatada por uma das fontes consultadas por este jornal e que pediu anonimato,
diz respeito a uma suposta relação de proximidade entre o Departamento de Educação e Cultura do
Exército, comandado pelo general Rui Monarca da Silveira, quando o contrato com a Tecnobit foi
assinado, e membros do Partido dos Trabalhadores (PT), que governava o país na época. Segundo
essa teoria, havia um interesse do governo em estreitar os laços militares com a Espanha — algo que
de fato se concretizou em acordos assinados entre ambos os países — ao mesmo tempo em que se
garantia vantagens indevidas para os envolvidos, sejam eles militares ou membros do partido, a
partir da assinatura do contrato.
A segunda teoria, relatada pelo próprio Pierrotti, diz respeito ao papel desempenhado por Tomas 
Sarobe Piñero, conhecido como Tom Sarobe, junto a oficiais do Exército. Ele é um engenheiro e
conhecido membro da maçonaria espanhola que fazia as vezes de representante comercial da
Tencnobit por meio de sua empresa, a Semit Continental. "Ele é um mercador da morte", reconheceu
Mourão a este jornal. "Atua no mercado internacional de produtos de defesa", explicou, para na
sequência dizer que Sarobe era um "lobista" e, em seguida, "relações públicas", para então finalizar
com "representante comercial" da Tecnobit. A empresa afirma que Sarobe "formava parte de uma
agência comercial que deu efetivamente respaldo [ao projeto]". Em fevereiro de 2008, dois anos
antes da assinatura do contrato com a Tecnobit, um decreto do Ministério da Defesa concedia a
medalha do mérito militar, no grau de cavaleiro, a Sarobe, sem nenhuma justificativa aparente.
Suspeitas de fraude na licitação
Pierrotti conta que as conversas e os problemas sobre o projeto SAFO começaram no primeiro
semestre de 2010, meses antes da contratação da empresa que o desenvolveria. Um processo que,
segundo garante, foi "moldado" para favorecer a Tecnobit. “A Diretoria de Educação Superior
Militar, chefiada na época pelo general Marco Aurélio Costa Vieira e subordinada ao Departamento
de Educação e Cultura do Exército, resolveu encampar essa ideia e comprar o simulador da Tecnobit
a qualquer custo”. Pierrotti narra que antes mesmo de a licitação ser aberta, “todo mundo já sabia”
que haveria “uma missão para a Espanha”. Outra fonte próxima ao projeto, que não quis se
identificar, confirmou o conhecimento prévio da empresa que ganharia o contrato e contou que o
então chefe do Departamento, o general Rui Monarca da Silveira, chefe de Marco Aurélio, "deu total
apoio" à empreitada.

O caminho começou a ser traçado em março de 2010,
quando o Exército encomendou um estudo para
justificar a necessidade de um simulador de apoio de
fogo. Nele, é mencionado como exemplo somente o
simulador do Exército espanhol, projetado pela
Tecnobit e inaugurado em 2002 com o nome de
SIMACA (Simulador de Artilharia de Campanha). O
documento ainda revela que foi feita uma visita de
oficiais brasileiros à Academia de Artilharia do
Exército da Espanha, o que “acrescentou algumas
ideias-força relevantes que fazem parte da solução
proposta” (veja na imagem ao lado). Não menciona
nenhuma visita a outro simulador desenvolvido por
outra empresa.
Com o estudo pronto, a portaria que oficializava a
necessidade de um simulador para o Brasil fora 
publicada poucos meses depois, já em junho de 2010. 
O organismo responsável por promover uma licitação 
é a Comissão do Exército Brasileiro em Washington 
(CEBW), que fez então uma primeira tentativa em 
agosto, segundo conta Pierrotti. Três empresas, todas 
espanholas, incluindo a Tecnobit, teriam participado 
do processo, segundo o coronel, que garante que o 
edital dificultou a participação de outras companhias, 
o que teria gerado suspeitas de fraude e anulado todo o 
processo. Não há rastros documentais sobre a licitação em si, mas portarias publicadas pelo comando 
do Exército autorizavam a viagem de oficiais ao exterior para acompanhar o processo licitatório. 
Cerca de um mês e meio depois, uma nova licitação foi aberta e cinco empresas concorreram, 
incluindo, novamente, a Tecnobit. “Empresas com reconhecida capacidade tecnológica ficaram de 
fora”, conta Pierrotti. Ele menciona o ranking Simulation and Training Companies feito pela revista 
Military Simulation & Training
Magazine, que lista anualmente as
melhores empresas no ramo de tecnologia
militar.
A Tecnobit não estava no ranking em 
2010, quando ganhou a licitação
brasileira, nem no ano anterior, 2009, ou
no ano seguinte, 2011.
Como um ranking não tem nenhuma
interferência em uma licitação, a Tecnobit
se saiu vencedora do processo. Em 22 de
outubro de 2010, o contrato entre o
Exército e a empresa espanhola era
assinado, com a promessa de entregar um simulador em Resende (RJ) e outro em Santa Maria (RS),
além de equipamentos como biblioteca, e o estabelecimento de uma filial brasileira da Tecnobit até
outubro de 2013. Tudo isso a custo de 13,98 milhões de euros — pela cotação ao longo de outubro
de 2010, esta cifra equivalia a cerca de 32 milhões de reais.
Por meio de nota, o Exército afirmou ao EL PAÍS que a decisão para a aquisição do simulador partiu
da necessidade de adestramento das tropas por meios "auxiliares de instrução que minorem gastos e
otimizem o emprego judicioso dos recurso públicos". Também disse que foram feitos estudos sobre a
necessidade do simulador e que hoje ele "vem cumprindo de forma satisfatória os objetivos para os
quais foi desenvolvido".
"Proposta indecente"
Não demorou para que os primeiros problemas entre a Tecnobit e o Exército aparecessem. Em abril 
de 2011, estava prevista a entrega da primeira das quatro fases do desenvolvimento do simulador, 
que consistia em detalhar e analisar os requisitos técnicos e operacionais da empresa. Foi quando o 
então major Renato Carvalho de Oliveira, do escritório de gerenciamento do projeto, enviou um e-
mail a generais afirmando que existia uma “falta de capacidade técnica por parte da Tecnobit”, 
fazendo com que a empresa quisesse “tomar atalhos para se livrar de algumas responsabilidades 
previstas em contratos ou acertos”. O conteúdo do e-mail foi redigido após uma conversa com o 
então fiscal do contrato, o tenente coronel Eric Julius Wurts, e o supervisor técnico, na época major 
André Gustavo Monteiro Lima.
Na segunda fase, na qual um protótipo deveria ser
apresentado, o constrangimento ficou maior. No dia de 
sua apresentação, o simulador ainda não conseguia 
realizar o cálculo da trajetória balística, como se 
esperava, lembra Pierrotti. “A proposta da Tecnobit foi 
indecente”, diz ele. “Eles pegaram um programa 
executável do simulador de artilharia de campanha da 
Espanha, o Simaca, e apresentaram como se fosse um 
protótipo do simulador brasileiro”. Fontes militares 
que participaram desta etapa contam que os executivos 
da Tecnobit entregaram um CD com uma cópia do 
simulador espanhol sem levar em conta as 
especificidades do armamento e da geografia brasileira 
e já defasado. “A apresentação do protótipo já foi 
fake”.
Mesmo com claros problemas na apresentação do 
protótipo, a empresa recebeu quase 5 milhões de euros 
pela conclusão da segunda fase do projeto. As demais 
fases foram todas parecidas em termos de atrasos e 
desentendimentos. Com o tempo, os próprios 
engenheiros militares brasileiros, que já trabalhavam 
lado a lado com os engenheiros espanhóis, passaram a 
solucionar os problemas da empresa. A transferência 
tecnológica acabou ocorrendo ao contrário, o que 
levantou a suspeita de que o projeto poderia ter sido 
desenvolvido dentro do Brasil com um custo menor, segundo Pierrotti.
Informe do Exército de julho de 2012 com a 
nomeação do coronel Wurts para o Curso de 
Política e Estratégia Aeroespaciais, afastando-o, 
portanto, do projeto SAFO
Por meio de nota, a Tecnobit diz que o projeto
atrasou mais do que o previsto porque, de acordo
com o contrato, ele era, inicialmente, uma
"colaboração" entre a empresa espanhola e o
Exército Brasileiro para o desenvolvimento do
simulador "baseado em uma evolução e
modernização do Simaca espanhol". Mas que, ao
longo do desenvolvimento do projeto, "o cliente
brasileiro fez pedidos que superavam amplamente
os requisitos estabelecidos no contrato". O
documento, ao qual o EL PAÍS também teve acesso,
previa que o equipamento seria desenvolvido
juntamente com engenheiros militares brasileiros
para garantir a transferência tecnológica.
Este era inclusive o item mais caro do acordo.

Mourão surge para "destravar" o projeto
General Mourão (no centro da foto) ao lado de Tom Sarobe (de gravata listrada), na Espanha.
Diante de sucessivos atrasos e constrangimentos, o Exército Brasileiro designou em julho de 2012 o general Antonio Hamilton Martins Mourão, que já participava do projeto de forma discreta como vice-chefe do Departamento de Educação e Cultura do Exército, para sua primeira missão na Espanha com o objetivo de acompanhar e, nas palavras de Pierrotti, "destravar o andamento do projeto". "Existe uma grande maioria no Exército que trabalha bem e que é honesta. Mas existe uma parcela, que não é pequena, que sob uma falsa justificativa moral, é conhecida como a tropa que resolve problema, ainda que ilegalmente ou de qualquer maneira", explica. "Ninguém vai sair com uma mala de dinheiro, mas o camarada pode sair promovido a general ou receber uma missão no exterior como prêmio".
Nessa viagem, Mourão e outros militares levaram suas respectivas esposas. Uma programação especial fora elaborada pelo adido militar brasileiro na Espanha para elas durante a missão de uma semana. No primeiro dia, um jantar foi oferecido para todos da missão pelo representante comercial da Tecnobit, Tomas Sarobe Piñeiro. Traje: esporte fino, previa o convite. A prática de oferecer jantares pelos executivos da empresa aos oficiais seria recorrente durante todo o processo. “Eu mesmo presenciei atitudes estranhas envolvendo viagens, jantares e pagamentos nesse projeto”, diz Pierrotti. “Em dezembro de 2013, depois que eu reprovei pela sexta vez o simulador, escrevi um relatório para o comando do Exército e disse que um dos diretores da Tecnobit me chamou para um jantar para resolver todos os problemas. Eu suspeitava que ele ia me oferecer alguma coisa durante o encontro e não aceitei o convite”.
Em uma reunião posterior a esse relatório, em janeiro de 2014, Pierrotti conta ter dito a Mourão que estava preocupado e que poderia assessorá-lo tanto na parte técnica como na parte jurídica, já que é formado em direito. "Mas ele ameaçou me mandar para a prisão". Dois meses depois, em março de 2014, o general assinou um certificado de que a empresa havia terminado seu trabalho, apesar de mais um parecer negativo de Pierrotti, do fiscal do contrato e de outros militares envolvidos no projeto. "Entramos em uma reunião na AMAN [Academia Militar das Agulhas Negras] com Mourão para prepará-lo para um encontro com representantes da Tecnobit. Ficamos ali conjecturando ideias e propostas para dar continuidade ao projeto. Uns vinte minutos depois, ele se encontrou com o Tom Sarobe no corredor e disse tudo o que a gente tinha falado pra ele", relata Pierrotti. "Isso pode se enquadrar em quebra de sigilo profissional. Ele entregou de bandeja todos os nossos argumentos para o representante da empresa. De que lado ele estava nisso?".
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