A advogada, doutora Valéria Santos, negra, carioca, foi detida e posta algemada no exercício de sua
profissão durante uma audiência no 3˚Juizado Especial Criminal em Duque de Caxias, no Rio de
Janeiro. A defensora aparece em vídeo divulgado em rede social requerendo à juiza leiga, durante
audiência criminal, para que tivesse sua requisição apreciada em defesa da ré, sua cliente. Entretanto,
a juíza teria dado por encerrada a audiência, sem apreciar o pedido da advogada e em seguida
ordenou que ela se ausentasse da sala. Valéria teria dito que não deixaria a sala de audiência sem a
presença de um representante da OAB, visto que a audiência foi encerrada sem que apreciado e
consignado o seu pedido.
“Eu estou indignada de vocês como representante de Estado atropelarem a lei. Eu tenho o direito de
ler a contestação e impugnar os pontos da contestação do réu. Isto está na lei, eu não estou falando
nada absurdo aqui.”
Enquanto a advogada exercia seu direito de defender a ré que estava sentada ao seu lado e em frente
Enquanto a advogada exercia seu direito de defender a ré que estava sentada ao seu lado e em frente
da juíza, foi requerido aos policiais que faziam a segurança da repartição pública que retirassem a
advogada da sala de audiência.
“A única coisa que eu vou confirmar aqui é se a senhora vai ter que sair ou não. Se a senhora tiver
que sair, a senhora vai sair!” rebate o policial não identificado.
A advogada, subjulgada pelos presentes, faz a sua defesa neste momento direcionando sua fala
diretamente para o policial que alterava a sua voz dizendo que iria prendê-la. Ainda requereu a
presença de um membro da Comissão de Direitos e Prerrogativas da OAB, para que a representasse
a fim de fazer valer os seus direitos enquanto patrona da ré alí presente.
“Eu não vou sair, não, eu tenho que esperar o delegado da OAB, porque eu quero fazer cumprir o
meu direito. Eu não vou sair eu estou no meu direito, eu estou trabalhando. Eu não estou roubando,
não estou fazendo nada não. Estou trabalhando!”, insiste a defensora.
Alguns advogados presentes, mesmo presenciando a cena absurda não fizeram a defesa da colega.
Reclamavam, entretanto, que a advogada terminasse a atuação brevemente, para que eles pudessem
fazer as suas audiências e pudessem terminar logo seus trabalhos.
A altiva advogada neste momento se dirige aos advogados presentes e reclama solidariedade:
“Eles estão preocupados com audiência e (permitem) atropelar a lei, que país é esse? Depois querem
reclamar de político que rouba, que faz tudo errado. Se vocês são advogados e não estão respeitando
a lei.”
Neste momento, outros advogados presentes na sala de audiência diminuem o ocorrido dizendo que
ela não estaria fazendo a defesa dela corretamente e a acusaram de estarem sendos desrespeitados,
por estarem perdendo tempo com o episódio.
“A senhora não está respeitando a gente” afirma uma das advogadas que esperavam para a próxima
audiência. Outro afirmou: “a senhora pode pleitear o seu direito da forma adequada”.
Instantes depois, em segundo vídeo é possível ver a advogada sendo presa, algemada com a mão nas
costas e arrastada no chão da sala de audiência.
A advogada agredida, ainda no chão, grita insistentemente em sua defesa que está trabalhando e
sinaliza indiretamente o racismo que estaria ocorrendo naquele flagrante violação de prerrogativa e
abuso de autoridade:“É meu direito enquanto negra, como mulher, de trabalhar. Eu estou
trabalhando. Eu quero trabalhar.”
De acordo com o Presidente da Comissão de Prerrogativas da Ordem dos Advogados do Brasil,
Luciano Bandeira, foi enviado um representante da que acompanhou o caso e conseguiu ao menos
que fosse retirada as algemas postas ilegalmente em Valéria.
“Nada justifica o tratamento dado à colega, que denota somente a crescente criminalização de nossa
“Nada justifica o tratamento dado à colega, que denota somente a crescente criminalização de nossa
classe. Iremos atrás de todos os que perpetraram esse flagrante abuso de autoridade.” defendeu o
Presidente da Comissão.
Frente de Juristas Negras e Negros do Rio de Janeiro repudiam o ocorrido e se solidarizam com a
advogada agredida
A FEJUNN-RJ, vem a público repudiar veementemente o tratamento a que foi submetida a
ilustríssima advogada, Dra. Valéria Santos, em pleno exercício da profissão.
Não há como não nos manifestarmos enquanto uma Frente que busca inserir no meio jurídico o
Não há como não nos manifestarmos enquanto uma Frente que busca inserir no meio jurídico o
recorte étnico racial necessário para pensar o Direito de forma ampla e igualitária. Deste modo, nos
solidarizamos com a Dra. Valéria, compreendendo que à luz da história, negros e negras são tratados
de maneira violenta pelo Estado. Não basta ser Doutora, operadora do Direito. O Estado de maneira
eficaz ousa nos colocar no lugar o qual pretende que estejamos por todo o sempre.
O Supremo Tribunal Federal por meio da Sumula Vinculante n.º 11 regulou a utilização excepcional
das algemas. No caso do fato ocorrido com a Dra. Valéria, ainda assim, em momento algum se
enquadra na hipótese prevista no referido verbete, ainda mais sem a presença de um delegado da
OAB.
Repudiamos o uso das algemas e o tratamento da Dra. Valéria Santos, em pleno exercício na
profissão. O episódio de hoje mais uma vez demonstra a importância da FEJUNN – RJ existir.
Demonstra a fragilidade que vivemos enquanto negros e negras, para além dos dados estatísticos do
cárcere e da letalidade, também no exercício de nossa profissão, com o agravante pelo fato ter
ocorrido no meio jurídico.
Queremos justiça, o exercício do Direito, a dignidade para alcançarmos uma sociedade livre, justa e
verdadeiramente democrática.
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