terça-feira, 14 de agosto de 2018

LULA NO NEW YORK TIMES: EU QUERO DEMOCRACIA, NÃO IMPUNIDADE


Censurado por toda a mídia conservadora brasileira, Lula é destaque nesta terça (14) no mais 
importante jornal do planeta, o The New York Times. O jornal publicou artigo de Lula com a 
seguinte advertência aos leitores: "O ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva 
escreveu este artigo de opinião da prisão"; o NYT deu como título: "Lula: Eu quero 
democracia, não impunidade" e destacou: "Há um golpe de direita em andamento no Brasil, 
mas a justiça prevalecerá"; leia a íntegra:

Há um golpe de direita em andamento no Brasil, mas a justiça 
prevalecerá

By Luiz Inácio Lula da Silva
O ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva escreveu este artigo de opinião da prisão.

CURITIBA, Brasil - Dezesseis anos atrás, o Brasil estava em crise; seu futuro incerto. Nossos 
sonhos de nos transformarmos em um dos países mais prósperos e democráticos do mundo pareciam 
ameaçados. A ideia de que um dia nossos cidadãos poderiam desfrutar dos padrões de vida 
confortáveis de nossos colegas na Europa ou em outras democracias ocidentais parecia estar 
desaparecendo. Menos de duas décadas após o fim da ditadura, algumas feridas daquele período 
ainda estavam cruas.
O Partido dos Trabalhadores ofereceu esperança, uma alternativa que poderia mudar essas 
tendências. 
Por essa razão, mais que qualquer outra, vencemos nas urnas em 2002. Tornei-me o primeiro líder 
trabalhista a ser eleito presidente do Brasil. Inicialmente, o mercado financeiro se abalou; mas o 
crescimento econômico que seguiu tranquilizou o mercado. Nos anos seguintes, os governos do 
Partido dos Trabalhadores que chefiei reduziram a pobreza em mais da metade em apenas oito anos. 
Nos meus dois mandatos, o salário mínimo aumentou 50%. Nosso programa Bolsa Família, que 
auxiliou famílias pobres ao mesmo tempo em que garantiu que as crianças recebessem educação de 
qualidade, ganhou renome internacional. Nós provamos que combater a pobreza era uma boa política 
econômica.
Então este progresso foi interrompido. Não através das urnas, embora o Brasil tenha eleições livres e 
justas. Em vez disso, a presidente Dilma Rousseff sofreu impeachment e foi destituída do cargo por 
uma ação que até mesmo seus oponentes admitiram não ser uma ofensa imputável. Depois, eu fui 
mandado para a prisão, por um julgamento questionável de acusações de corrupção e lavagem de 
dinheiro.
Meu encarceramento foi a última fase de um golpe em câmera lenta destinado a marginalizar
permanentemente as forças progressistas no Brasil. Pretende-se impedir que o Partido dos
Trabalhadores seja novamente eleito para a presidência. Com todas as pesquisas mostrando que eu
venceria facilmente as eleições de outubro, a extrema direita do Brasil está tentando me tirar da
disputa. Minha condenação e prisão são baseadas somente no testemunho de uma pessoa, cuja
própria sentença foi reduzida em troca do que ele disse contra mim. Em outras palavras, era do seu
interesse pessoal dizer às autoridades o que elas queriam ouvir.
As forças de direita que tomaram o poder no Brasil não perderam tempo na implementação de sua
agenda. A administração profundamente impopular do presidente Michel Temer aprovou uma
emenda constitucional que estabelece um limite de 20 anos para os gastos públicos e promulgou
várias mudanças nas leis trabalhistas que facilitarão a terceirização e enfraquecerão os direitos de
negociação dos trabalhadores, e até mesmo seu direito a uma jornada de oito horas de trabalho. O
governo Temer também tentou fazer cortes na Previdência.
Os conservadores do Brasil estão trabalhando muito para reverter o progresso dos governos do
Partido dos Trabalhadores, e eles estão determinados a nos impedir de voltar ao cargo no futuro
próximo. Seu aliado nesse esforço é o juiz Sérgio Moro e sua equipe de promotores, que recorreram
a gravações e vazamentos de conversas telefônicas particulares que tive com minha família e com
meu advogado, incluindo um grampo ilegal. Eles criaram um show para a mídia quando me levaram
para depor à força, me acusando de ser o “mentor” de um vasto esquema de corrupção. Esses
detalhes aterradores raramente são relatados na grande mídia.
Moro tem sido celebrado pela mídia de direita do Brasil. Ele se tornou intocável. Mas a verdadeira
questão não é o Sr. Moro; são aqueles que o elevaram a esse status de intocável: elites de direita,
neoliberais, que sempre se opuseram à nossa luta por maior justiça social e igualdade no Brasil.
Eu não acredito que a maioria dos brasileiros aprove essa agenda elitista. É por isso que, embora eu
possa estar na cadeia hoje, eu estou concorrendo à presidência. E por isso que as pesquisas mostram
que se as eleições fossem realizadas hoje, eu venceria. Milhões de brasileiros entendem que minha
prisão não tem nada a ver com corrupção, e eles entendem que eu estou onde estou apenas por razões
políticas
Eu não me preocupo comigo mesmo. Já estive preso antes, sob a ditadura militar do Brasil, por nada
mais do que defender os direitos dos trabalhadores. Essa ditadura caiu. As pessoas que estão
abusando de seu poder hoje também cairão.
Eu não peço para estar acima da lei, mas um julgamento deve ser justo e imparcial. Essas forças de
direita me condenaram, me prenderam, ignoraram a esmagadora evidência de minha inocência e me
negaram Habeas Corpus apenas para tentar me impedir de concorrer à presidência. Eu peço respeito
pela democracia. Se eles querem me derrotar de verdade, façam nas eleições. Segundo a
Constituição brasileira, o poder vem do povo, que elege seus representantes. Então, deixem o povo
brasileiro decidir. Eu tenho fé que a justiça prevalecerá, mas o tempo está correndo contra o
democracia.

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