sexta-feira, 11 de maio de 2018

ENTREVISTA NO INFERNO !!! BÊBADO NUM CHURRASCO, FIGUEREDO SOLTA O VERBO E FALA ATÈ DO ROBERTO MARINHO !!



OS DIVERGENTES

Derrotada a esquerda armada, a ditadura focou a repressão nos que a combatiam por métodos 
pacíficos. A passagem do bastão do ditador Garrastazu Medici para o general Ernesto Geisel incluiu 
a continuidade da matança dos que eles chamavam de subversivos, inimigos internos, mesmo os que 
se opunham à luta armada.
Foi assim que, entre 1974 e 1975, foram assassinados 10 dos 33 membros do Comitê Central do 
Partido Comunista Brasileiro (PCB) e outros tantos militantes.
Essa política de extermínio não era iniciativa de porões descontrolados, como sempre se tentou 
engabelar a opinião pública. Era oficial, tinha a chancela do Palácio do Planalto. Em “A Ditadura 
Derrotada”, Elio Gaspari revela uma gravação em que Geisel, após ouvir o relato do general Dale 
Coutinho sobre o extermínio de guerrilheiros no Araguaia, diz que “esse troço de matar é uma 
barbaridade, mas tem de ser”.
O documento secreto da CIA, revelado agora pelo pesquisador Matias Spektor, da Fundação Getúlio 
Vargas, escancara o fato de que o porão obedecia aos mais importantes gabinetes do Palácio do 
Planalto. O memorando enviado por William Colby, diretor-geral da CIA, a Henry Kissinger, então 
todo poderoso secretário de Estado, impressiona também por outros motivos. Pelo que revela, no dia 
1 de abril de 1974, depois de uma reflexão durante o fim de semana, Geisel autorizou a continuidade 
da política de execuções sumárias, mas impôs duas condições: 1) – A definição de quem deveria ser 
assassinado teria de ser feita “com muito cuidado para que apenas subversivos perigosos fossem 
assassinados”; 2) – Quem daria a palavra final, o senhor da vida e da morte, seria o general João 
Figueiredo, então ministro do SNI, “cuja aprovação deve ser dada antes que a pessoa seja executada”.
O tal documento chegou à mesa de Kissinger no dia 11 de abril, apenas 10 dias depois do OK de 
Geisel à execuções sumárias de “subversivos perigosos”. As fontes não são citadas. Mas a riqueza de 
detalhes, inclusive de uma conversa aparentemente a sós entre Geisel e Figueiredo, é um indício de 
essas reuniões poderiam ter sido gravadas.
Figueiredo, que era linha-dura, começou a trocar de farda quando passou a disputar com o general 
Sylvio Frota a sucessão de Geisel. Frota apostava no apoio dos quartéis para barrar a abertura 
política lenta, gradual e segura, concebida pelo general Golbery do Couto e Silva, e tocada por 
Geisel, que resultou na revogação do AI-5 e abriu caminho para a anistia ampla, geral e recíproca. 
Enquanto fracassava a proposta de Sylvio Frota de manutenção das trevas, com o apoio de Geisel e o 
script de Golbery, Figueiredo vestia o figurino de condutor da transição para o fim da ditadura.Além 
de Geisel, quem fica muito mal nessa história é Figueiredo. Se ele até então não tivesse sujado as 
mãos com torturas e assassinatos, depois dessa delegação expressa passou a ter responsabilidade 
direta sobre matanças como as dos dirigentes do PCB.
Ganhou a guerra interna. Virou presidente da República. Quando lhe disseram que a linha-dura 
poderia atrapalhar seus planos, saiu-se com o famoso “prendo e arrebento” quem entrasse em seu 
caminho.
Não foi bem assim. Dois anos após assumir o mandato, o fracasso de um atentado no Rio pôs o 
governo Figueiredo em xeque. Após ataques a bancas e a OAB, os porões da ditadura fizeram uma 
aposta grande: explodir bombas em um show de música para comemorar o Dia do Trabalhador no 
Riocentro, uma festa que reuniu mais de 20 mil pessoas para cobrar a volta da democracia plena. 
Deu ruim para os terroristas dos órgãos de repressão. Uma das bombas explodiu no colo dos 
militares dentro de um Puma, carro esportivo de sucesso naquela época.
Foi um barata voa. Alguns generais e coronéis ainda tentaram sustentar a farsa, concebida antes do 
fracasso do atentado, de que a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) — um grupo armado 
desmantelado pela repressão anos antes — seria o responsável pelas bombas.
Em meio ao impasse palaciano, o ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, aliado de Golbery, apostou 
que ele sairia vitorioso. “A bomba explodiu dentro do governo”, declarou.Evidente que não colou. O 
atentado explodiu também na cozinha de Figueiredo. Seus parceiros de SNI Otávio Medeiros e 
Newton Cruz, que souberam antes do que estava para acontecer, queriam abafar o caso. O general 
Golbery discordava.
Afinado com seus parceiros do SNI, Figueiredo bancou a farsa. Meses depois, Golbery deixou o 
governo.
Foi um divisor de águas. A partir daí, Figueiredo começou o processo que o transformou em um 
zumbi no final de seu governo.
A hipótese que prevalece é que Figueiredo, como disse o general Otávio Medeiros em um 
depoimento, teria sido informado de que poderia ocorrer o atentado. E nada fez.
O memorando da CIA põe outra hipótese no tabuleiro. Se Figueiredo exerceu o poder que lhe foi 
conferido por Geisel, de decidir quem seria ou não sumariamente executado nos porões do Exército, 
certamente teria rabo preso com os avalistas do atentado no Riocentro.
Quem sabe outros documentos secretos da CIA possam esclarecer isso.
A conferir.

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