por Conceição Lemes
24 de setembro, exatos cinco domingos atrás. Às 12h49, a escritora e educadora Nita Freire, viúva de Paulo Freire, envia a vários amigos um e-mail, cujo assunto — ferocidade da direita –, prenuncia conteúdo e alvo:
Meus amigos,
Hoje de manhã Luiza Erundina de Souza, telefonou para me participar que um movimento de direita está organizando e operando rapidamente para tirar o título de PATRONO DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA, de Paulo Freire, através do Senado Nacional.
Li também notícias através de um grupo de WhatsApp, do qual uma sobrinha minha faz parte, que reproduz a noticia publicada pelo jornal Gazeta do Povo , do Paraná.
Espero que tamanha insolência e injustiça não se efetivem.
Luiza Erundina chama a isso de “2º Exílio de Paulo Freire”.
Não é a primeira sordidez de golpistas, fascistas, coxinhas, paneleiros e congêneres contra o educador reverenciado no mundo inteiro, inclusive nos EUA, onde é considerado o terceiro intelectual mais citado em toda a história da humanidade.
Em 28 de junho de 2016, sua biografia foi adulterada na Wikipedia a partir de computadores do Serpro, órgão do governo federal.
Acusaram-no, entre outras sandices, de envolvido com projeto de educação atrasado e fraco de caráter doutrinário marxista e manipulador e de “assassinato do conhecimento”.
Agora, por trás da nova investida está o deputado federal Rogério Marinho (PSDB-RN), conluiado com os oportunistas do MBL.
Eles dizem querer “pátria livre de corrupção”, mas até outro dia eram devotos do deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), do presidente ilegítimo Michel Temer (PMDB-SP) e do senador Aécio Neves (PSDB-MG).
O primeiro está preso.
O segundo só não é processado ainda pelo Supremo Tribunal Federal (STF), porque tem barrado as denúncias com compra de votos de parlamentares em troca de emendas e cargos.
O terceiro foi salvo, mais uma vez na semana passada, por um STF acovardado e bonzinho quando se trata de tucano.
Em 23 de setembro, o deputado tucano deu a senha. Num jornal potiguar, tido como de extrema-direita e onde tem bastante espaço, ele publicou artigo intitulado Patrono do fracasso.
O texto dele é um crime hediondo contra a verdade factual sobre Paulo Freire, tamanha a falta de honestidade intelectual do autor
Ele significa atraso, obscurantismo, truculência, defesa dos patrões e empresas.
Rogério Marinho, vale relembrar:
*É um dos autores de projeto de lei que amordaça os professores. Ele não quer uma escola que leve o aluno a pensar, a questionar, a analisar o contexto, como defende Paulo Freire e todos educadores de verdade. Ele quer “Eva viu a Uva”. Assista a este vídeo. É fundamental.
* É relator do projeto dos planos de saúde. Se aprovado, representará imenso retrocesso aos usuários, jogando lixo conquistas de entidades de defesa do consumidor e direitos à saúde.
*Relatou a reforma trabalhista, que matou os direitos dos trabalhadores brasileiros arduamente conquistados ao longo de décadas.
A propósito. Em 26 de abril de 2017, portanto antes da votação da reforma trabalhista, André Campos e Piero Locatelli, da Repórter Brasil, denunciaram:
O relator da reforma trabalhista do governo Michel Temer, deputado federal Rogério Marinho (PSDB-RN), está sendo investigado em um inquérito aberto no Supremo Tribunal Federal (STF) por seu envolvimento em uma empresa terceirizada que coagia funcionários demitidos a renunciar às verbas rescisórias e a devolver a multa do FGTS. Por meio das fraudes, a companhia se apropriou ilegalmente de 338 mil reais devidos a mais de 150 trabalhadores, afirma o Ministério Público do Trabalho (MPT).
O inquérito 3386 aponta indícios de que o tucano mantém sociedade com Francisco das Chagas de Souza Ribeiro, responsável pela gestão da Preservice Recursos Humanos. A Preservice é uma tradicional fornecedora de mão de obra terceirizada – porteiros, faxineiros e cozinheiros – para o poder público em Natal, capital do Estado do relator. A suposta atuação de Rogério Marinho para favorecer o empresário em licitações é um dos objetos da investigação, que levou a Procuradoria Geral da República (PGR) a pedir, em 2015, a quebra do sigilo bancário do deputado.
(…)
“Não mantenho quaisquer vínculos com a empresa”, afirmou o deputado, em resposta à Repórter Brasil.
Mas, como a função da verdade é aparecer, é questão de tempo de isso acontecer em relação ao detrator e algoz de Paulo Freire.
E, ao que tudo indica, o processo acima é mera ponta do iceberg sobre o pai da ideia de tirar de Paulo Freire o título de Patrono de Educação Brasileira(veja PS).
Enquanto isso, ele segue na sua cruzada insensata e criminosa, que a história lembrará com desprezo.
Na semana passada, em outro e-mail a amigos Nita Freire lamentou:
Meus amigos,
como é do conhecimento de todos e todas o governo de direita do Brasil está aniquilando com o nosso país, com políticas fascistas, inclusive, através de forças e movimentos “populares” que lhes são fieis. Estes entregaram ao Senado Nacional uma petição, com 20 mil assinaturas, na qual solicita que seja retirado o Título de Patrono da Educação Brasileira, de Paulo Freire.
Eu, Luiza Erundina e outros intelectuais, políticos, estudantes estamos numa frente que começa coletando assinaturas, de gente de bom senso e senso de justiça, para que o Senado perceba e acate nosso pedido.
Pois nesta segunda-feira (23/10), às 10h, o Coletivo Paulo Freire Por uma Educação Democráticarealiza na PUC-SP um ato em defesa de Paulo Freire como Patrono da Educação Brasileira.
Será na PUC, sala 239 (prédio novo), rua Monte Alegre, 984, Perdizes, SP.
Encabeçado por Luíza Erundina (PSOL-SP), Nita Freire e Daniel Cara (coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação) e Instituto Paulo Freire, o coletivo objetiva com esse ato:
*Defender o legado de Paulo Freire
*Defender a manutenção do título de Patrono da Educação Brasileira
*Divulgar o manifesto (na íntegra, ao final), lançado em 16 de outubro
O manifesto está aberto a adesão de cidadãos e instituições defensores dessa causa justícissima, que faz jus ao pensamento pedagógico brasileiro e à História do Brasil.
É só enviar e-mail para: paulofreirepatrono@gmail.com, informando nome, formação, cargo e/ou função.
Para entidades e movimentos subscreverem-no, basta apenas o nome.
Somos todos Paulo Freire, Patrono da Educação Brasileira!
O pai da ideia de tirar o título de Paulo Freire é simplesmente o campeão do Rio Grande do Norte em inquéritos no STF.
Segundo levantamento da Agência Saiba Mais, Rogério Marinho é parte em cinco procedimentos por corrupção, lavagem de dinheiro, crimes contra a ordem tributária, peculato e falsidade ideológica.
MANIFESTO
Defender Paulo Freire como ‘Patrono da Educação Brasileira’ é defender nossa produção intelectual, a boa prática pedagógica e o próprio Brasil.
“Não posso ser professor a favor simplesmente do homem ou da humanidade, frase de uma vaguidade demasiado contrastante com a concretude da prática educativa. Sou professor a favor da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra a ditadura de direita ou de esquerda. Sou professor a favor da luta constante contra qualquer forma de discriminação, contra a dominação econômica dos indivíduos ou das classes sociais.”
(Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia)
“O que não é possível na prática democrática, é que o professor ou a professora, sub-repticiamente, ou não, imponha aos alunos sua ‘leitura de mundo’, em cujo marco situa o ensino do conteúdo. Combater o autoritarismo de direita ou de esquerda não me leva, contudo, à impossível neutralidade que não é outra coisa senão a maneira manhosa com que se procura esconder a opção.”
(Paulo Freire, em Pedagogia da Esperança)
São Paulo, 16 de outubro de 2017.
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