
ALEX SOLNIK
Não é fácil abandonar a mansão da presidência da Câmara dos Deputados e a mordomia estimada em
mais de 500 mil reais por mês e o poder inerente ao cargo, mas se quiser preservar seu mandato, a
sua liberdade de ir e vir e a sua fortuna, Eduardo Cunha terá que renunciar.
É a concessão que teve de fazer dentro de um acordo costurado por Temer, que não consegue
governar com a bagunça que virou a Câmara e que será o principal prejudicado se Cunha for cassado
e, em consequência, preso na Operação Lava Jato e virar delator premiado.
Dada a sua importância no cenário político, onde é um protagonista de peso, somente uma delação
Dada a sua importância no cenário político, onde é um protagonista de peso, somente uma delação
robusta, implicando outros protagonistas, poderá livrá-lo da humilhação de ficar atrás das grades,
com todo o desconforto que isso proporciona.
Não há dúvida que Temer está mais preocupado com a votação de Cunha na Câmara do que com a
Não há dúvida que Temer está mais preocupado com a votação de Cunha na Câmara do que com a
do impeachment no Senado, pois o conteúdo de sua provável delação poderá implicar na perda de
ministros, da sua governabilidade e até no fim prematuro do seu governo.
Mas somente a renúncia não seria o bastante para Temer colocar Eliseu Padilha em campo atrás de
votos para Cunha.
Ele teve também de abrir mão de fazer seu sucessor, condição exigida pelo PSDB para continuar
Ele teve também de abrir mão de fazer seu sucessor, condição exigida pelo PSDB para continuar
apoiando o governo Temer e ajudá-lo a preservar o mandato de Cunha.
De acordo com esse roteiro, os tucanos têm tudo para eleger o próximo presidente da Câmara, em
De acordo com esse roteiro, os tucanos têm tudo para eleger o próximo presidente da Câmara, em
parceria com o PT, alijando a tropa de Cunha do poder. Na atual conjuntura, o presidente da Câmara
é o primeiro na linha de sucessão de Temer, que não tem vice. Qualquer coisa que aconteça com ele,
o PSDB poderá chegar à tão sonhada presidência da República.
Manter Cunha longe de Curitiba é o principal objetivo de Temer nesse momento. Não só por
Manter Cunha longe de Curitiba é o principal objetivo de Temer nesse momento. Não só por
gratidão, pois Cunha foi imprescindível para levá-lo ao poder, mas por medo do que poderá
acontecer.
No entanto, se Temer está nas mãos de Cunha, Cunha também está nas de Temer.
Nem o governo Temer resiste a uma delação premiada de Cunha, nem Cunha evita a prisão se Temer
No entanto, se Temer está nas mãos de Cunha, Cunha também está nas de Temer.
Nem o governo Temer resiste a uma delação premiada de Cunha, nem Cunha evita a prisão se Temer
não se empenhar por ele, colocando à disposição dos senhores deputados tudo o que a máquina de
governo pode oferecer para desencorajá-los a destruir Cunha.
Para início de conversa, Cunha tem a seu lado os tais "151 deputados" que ele poderia denunciar.
Para início de conversa, Cunha tem a seu lado os tais "151 deputados" que ele poderia denunciar.
Claro que, para se salvarem, eles precisam, antes, salvar Cunha.
Além deles, há, no entanto, (se o número for esse mesmo) 362 votos em disputa, 257 dos quais
Além deles, há, no entanto, (se o número for esse mesmo) 362 votos em disputa, 257 dos quais
bastam para cassar Cunha. Convencer 106 deputados a apoiarem Cunha é a missão (quase
impossível) de Padilha, pois a opinião pública não vai perdoá-los, se descobrir quem são.
Nada indica que, se não for cassado Cunha receberá anistia do STF, que o afastou da presidência e
Nada indica que, se não for cassado Cunha receberá anistia do STF, que o afastou da presidência e
do mandato por tempo indeterminado, mas, mesmo se continuar afastado, como pato manco, em
casa, não correrá o risco de ser preso até 2018, pois o STF não manda prender parlamentares a não
ser em flagrante e os crimes de Cunha, até onde se sabe, estão no passado pretérito.
Desse modo, aguentando-se até à próxima eleição, poderá se candidatar de novo e, graças à sua
eficiente máquina eleitoral (e aos votos de cabresto que tem, ao que parece, na Baixada Fluminense e
junto ao eleitorado evangélico) poderá se reeleger e assim continuar protegido pelo foro privilegiado
do STF, onde os processos tendem a se arrastar ad infinitum.
A vantagem para Cunha, além disso, é que, ao renunciar e se recolher à sua caverna dourada ele sai
A vantagem para Cunha, além disso, é que, ao renunciar e se recolher à sua caverna dourada ele sai
dos holofotes da imprensa, podendo desfrutar de um saudável quase anonimato, o que favorece
negociações de bastidores.
Não se sabe se a sua renúncia será suficiente para aplacar o ódio que os brasileiros nutrem em
Não se sabe se a sua renúncia será suficiente para aplacar o ódio que os brasileiros nutrem em
relação a ele, mas ele não tem outra escolha.
Ou renuncia já ou faz as malas para Curitiba.
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