quarta-feira, 13 de abril de 2016

O xadrez do The House of Cards



Luis Nassif



O que seria o dia seguinte ao impeachment? O jogo não está decidido. Nenhum dos dois 
lados conseguiu o número mínimo para apregoar vitória. Mas vale como exercício.
Não é necessário muita imaginação para supor.
O novo jogo teria os seguintes personagens:
  1. O novo governo, controlando o Executivo e o Congresso..
  2. O Supremo Tribunal Federal
  3. O Procurador Geral da República/Lava Jato
  4. A mídia
  5. A frente anti-impeachment
  6. A frente pró-impeachment.
Vamos a um pequeno exercício de fórmulas para ver como eles se interagem.

Consolidação do poder

No dia seguinte à tomada do poder, a estratégia do novo grupo será a consolidação 
definitiva do poder. Assume em uma posição precária, ilegítima, tendo atrás de si a Lava
Jato e a desconfiança geral e à frente às eleições de 2018.
Suas armas são temíveis: controle do Executivo e do Congresso, das leis e da caneta. 
Usarão como puderem para enfrentar as seguintes frentes:
  • Lava Jato.
  • Crise econômica.
  • Eleições de 2018, logo ali.
A estratégia de sobrevivência contemplará algumas linhas básicas visando estender o 
poder conquistado.:
  1. Ampliação do arco de alianças.
O Congresso será utilizado para a aprovação de leis de interesse dos grandes grupos.  O 
balcão de negócios será transformado em um hipermercado.
O maior negócio será a alteração na lei do petróleo. Mas há uma enorme agenda a ser 
manobrada por Eduardo Cunha, inclusive como forma de consolidar o golpe. Aí se entra em
um campo em que ele é senhor absoluto, o grande especialista em negócios do Congresso.
Obviamente todas essas faturas impactarão o orçamento e a política econômica.
  1. Mudanças estruturais que permitam a consolidação do poder.
O grupo não tomará o poder para entregá-lo em 2018. É evidente. A consolidação do poder 
passará por mudanças políticas que excluam o voto direto para presidente, talvez com a
introdução do parlamentarismo, podendo chegar ao adiamento das eleições de 2018.
  1. Enquadramento do Ministério Público Federal e da Lava Jato.
Ou alguém tem dúvida de qual foi a moeda de troca com o PP?
Tentarão se valer da euforia com o fim do governo para tomar medidas que restrinjam o 
poder do MPF. O Executivo tem a chave do cofre. O Congresso, a chave das leis e das
nomeações e destituições de Ministros do Supremo. Em vez de um governo ingênuo e
desarmado, o MPF e a Polícia Federal enfrentarão agora o poder de fato, nas mãos de uma
organização que sabe manobrar as ferramentas do poder, e que estará travando uma
guerra de vida ou morte, já que a derrota implicará até em sua prisão.
  1. Administração de uma economia em crise.
O orçamento é um só.
Numa ponta, será pressionado pelas demandas do grupo. Na outra, exigirá aumento de 
tributos, uma CPMF. Só que a base de apoio do grupo são lideranças empresariais que
agitaram o país nos últimos anos levantando a bandeira da redução de impostos.
O caminho óbvio será o dos cortes nas áreas sociais, programas sociais, educação, saúde, 
ampliando ainda mais a revolta das ruas em um quadro de aprofundamento da crise.

A busca do inimigo interno

Em um primeiro momento, haverá uma falsa euforia do mercado, com valorização de 
ativos e queda do dólar. Durará pouco. É uma crise de demanda que não será resolvida 
pela mera melhoria do índice Bovespa, ainda mais tendo em conta o custo da fatura para a 
montagem de alianças.
Haverá uma ampliação geométrica das manifestações de rua.
Como superar o quadro de crise econômica + falta de legitimidade + manifestações de 
rua? Nem é preciso ser um grande visionário para perceber o lance seguinte: o 
macarthismo.
Além da ilegitimidade original, o novo governo ampliará as reações dos movimentos sociais 
com os cortes de políticas sociais. A reação das ruas fornecerá o  alibi  do inimigo interno e
O novo governo se escudará cada vez mais na ultradireita da opinião pública e nas
bancadas religiosas. A ameaça bolivariana e a dissolução moral são os elos que unem tudo,
a ultradireita na rua, os jovens turcos do Ministério Público, o conservadorismo do
Judiciário e  a classe média, os grupos religiosos.

Os desdobramentos

É impossível saber os vencedores dessa disputa. Seja qual for o resultado, haverá uma 
grande noite caótica pela frente, um atraso histórico nos avanços sociais e econômicos e
uma ameaça direta à democracia e à economia.
Não fosse o custo a ser pago pelo país, especialmente pelos mais vulneráveis, seria uma 
boa lição a esses aprendizes de feiticeiro que resolveram abrir a caixa de Pandora e colocar
em risco a democracia apenas para exercitar os músculos.
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