sábado, 2 de abril de 2016

COMO MIRIAN SOUBE QUE FHC DAVA MESADA COM A BRASIF


Miriam em Cerdaña, fronteira da Espanha com a França.

por Joaquim de Carvalho 
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Quinta-feira, 31 de março, o jornalista Mario Sergio Conti apresenta Fernando Henrique Cardoso 
para sua audiência na Globonews:
— O nosso entrevistado de hoje dispensa apresentação. É um dos intelectuais e políticos mais 
respeitados do país e no exterior. É uma referência para os brasileiros, sobretudo nestes momentos de 
crise. É um elder statesman (velho estadista). Vamos ver quem é.
Rolam na tela imagens do ex-presidente e os dois voltam para tratar dos temas da noite: Lava Jato e 
impeachment.
Nada de Mirian Dutra, nada da Brasif.



Domingo, 20 de março. Mirian Dutra está em Cerdaña, perto da fronteira da Espanha com a França, 
e me dá entrevista. No caminho até o hotel, em meio a montanhas com neve, ela para num posto de 
combustível e abastece o carro. “Aqui não tem mordomia, não”, comenta.
Mirian fala sobre Mario Sergio Conti e Fernando Henrique Cardoso:
— O Fernando Henrique deve um grande favor ao Mario sergio Conti. A nota que o Mario Sergio 
publicou na coluna Veja em 1991 é simplesmente uma mentira.
A nota diz que Mirian Dutra, “conhecida pelas reportagens que faz para o Jornal Nacional”, havia 
trocado o clima seco de Brasília por uma temporada de inverno em Santa Catarina. Em seguida, 
conta que Mirian espera um filho e que o pai é um biólogo.
Mirian conta a mesma história para uma amiga, a publicitária Glória Maria Campamá, com quem 
está reunida em Barcelona.
As duas não se vêem há bastante tempo, depois que Mirian se mudou para Madri. Glória, que nasceu 
na Catalunha e é mãe de um dos melhores amigos do filho de Mirian, os dois na faixa dos 25 anos de 
idade, ouve atentamente. Mirian explica:
— Veja é uma importante revista do Brasil. É como a Época – diz ela, em referência a uma 
publicação da Espanha.
Glória não esconde a surpresa, e Mirian diz que quem armou com o então diretor de redação da 
maior revista do Brasil a publicação de uma fraude pode muito bem ter armado um exame de DNA.
Na conversa com a amiga, Mirian Dutra fazia referência a um episódio de 2011, quando Fernando 
Henrique Cardoso divulgou à imprensa que se submetera a dois exames nos Estados Unidos, e o 
resultado foi negativo para a paternidade do filho de Mirian.
Mesmo assim, informou à época Fernando Henrique à imprensa, ele continuaria a atender às 
necessidades materiais e afetivas do filho da ex-namorada, inclusive mantendo o reconhecimento de 
Tomás como filho, que teria feito na Espanha no ano de 2009.
Mas, no cartório onde Tomás foi registrado, o 1º Ofício de Brasília, a certidão de nascimento obtida 
no último dia 24 de fevereiro pelo jornalista Fernando Molica, da coluna Informe do Dia, registra 
Tomás Dutra Schmidt como filho de Mirian Dutra e de pai desconhecido.
Enquanto conversa com Glória, Mirian está com os olhos marejados, e esses fatos seriam de absoluta 
privacidade não tivesse Fernando Henrique Cardoso movimentado uma máquina poderosa para 
encobrir seu relacionamento com Mirian Dutra e o filho, durante os anos em que foi presidente da 
república, com o apoio de empresas de comunicação e concessionárias do governo federal.
Mirian, Glória e eu estamos no bar do Hotel Villa Emilia. Mirian vê que o cãozinho Chico, sua 
companhia de alguns anos para cá, precisa dar uma volta e pede licença. Glória me conta que Mirian 
viveu anos difíceis em Barcelona. “Ele queria trabalhar, mas a empresa (Globo) pagava e ela não 
produzia nada. Isso deprime qualquer um”, comenta.
Glória diz ainda que o mercado de comunicação no Brasil é estranho.
Como funcionária de uma agência de publicidade em Barcelona, diz que a empresa, multinacional, 
tem negócios na Argentina, na Colômbia e no México, mas não consegue entrar no Brasil. “No seu 
País, a Globo dá as cartas”, afirma.
Glória diz também que seu filho mais velho, que hoje mora no Canadá, esteve com Fernando 
Henrique Cardoso, numa visita que ele fez a Tomás em Barcelona.
— O Tomás, na época criança, queria muito que os amigos conhecessem Fernando Henrique, mas 
ele não queria que vissem o presidente, mas o pai. E como Tomás estava feliz – diz Glória.
Mirian retorna com Chico e pede ao garçom mais uma cesta de pão. Ela quer alimentar o 
cachorrinho com pequenos pedaços de miolo.
— Sabe como eu soube do DNA? Eu estava em São Paulo para acompanhar minha irmã, que estava 
com câncer, ao hospital. Fernando Henrique soube que eu iria para lá e pediu para me encontrar com 
ele num hotel no Morumbi.
Segundo ela, Fernando Henrique chegou com dois seguranças, sentou-se numa mesa, lhe entregou 
um envelope e disse:
— Tomás não é meu filho.
— Não, então é de quem? Do biólogo?
— Fiz dois exames, e deram negativo – teria dito Fernando Henrique.
Mirian diz que ficou sem reação.
— O hotel estava cheio de gente e ele estava com dois seguranças.
A conversa não demorou muito. Ele teria pegado o exame de volta, se levantou e saiu.
Mirian recorda que, à noite, enquanto jantava num restaurante do Itaim com a irmã, começou a 
chorar.
A irmã achou que era por causa da doença dela e procurou tranquilizá-la:
— Eu vou superar.
Mirian, então, revelou:
— O Fernando Henrique me mostrou um exame de DNA e disse que Tomás não é filho dele.
Mirian, que diz ter tido sempre um relacionamento tenso com Margrit Dutra Schimidt, conta que viu 
a irmã baixar a cabeça e dizer:
— Eu já sabia… Que vergonha…
Como sabia?
Mirian diz que Margrit foi uma das pessoas que, a pedido de Fernando Henrique Cardoso ou de José 
Serra (grande amigo dela e de Fernando Henrique), pediram que Mirian não levasse adiante a 
gravidez.
— Mas, depois que o Tomás nasceu, ela gostava de ser conhecida como a cunhadinha do Brasil.
Nesse ponto da conversa, Mirian muda a expressão e diz que a irmã era sócia do marido (já falecido) 
na empresa de lobby Polimídia. “Com a história do filho de Mirian Dutra, as portas se abriam para 
ela e minha irmã ganhou muito dinheiro”, diz e sugere que se investigue o patrimônio da irmã: “Ela 
era funcionária da UNB (Universidade Federal de Brasília), não tinha nada e hoje tem conta no 
Canadá e muitos imóveis.”



Margrit Dutra Shimidt tem hoje um cargo comissionado no gabinete de José Serra, no Senado, mas 
quase não é vista por lá.
Com a notícia do DNA, Mirian procurou o filho e quis saber por que ele fez o exame sem o 
conhecimento dela:
— O Tomás não tinha ideia do que significava aquilo e falou: ‘Ah, mãe, não é definitivo.’”
Mirian achou que ela, Fernando Henrique e Tomás, deveriam ter uma conversa, e se encontraram no 
hotel Palace, de Madri.
— Eu estava no meu território e a conversa foi dura. Acho que tinha caído a ficha do Tomás. Ele 
queria saber se eu tinha me relacionado com outra pessoa e eu respondi: tive, sim, com o porteiro. 
Claro que não, Tomás!
Enquanto mãe e filho discutiam, Mirian Dutra diz que Fernando Henrique chorou.
Mirian conta que também procurou um antigo terapeuta em Brasília, com quem fez psicanálise 
durante os seis anos de namoro com Fernando Henrique, para saber se, na ficha dela, constava 
alguma referência a um caso com outra pessoa.
— Eu fiquei tão confusa que achei que eu pudesse mesmo ter tido outro relacionamento e bloqueado 
isso por algum motivo. Meu terapeuta ficou de procurar as anotações no arquivo morto e, depois de 
alguns dias, me ligou para dizer que a coisa mais importante que tinha achado era uma referência à 
troca de medicamento para dormir. Não tinha nada.
Em agosto de 2014, seu advogado no Brasil, José Diogo Bastos, notificou duas vezes Fernando 
Henrique Cardoso para apresentar os documentos de reconhecimento de Tomás como filho e o 
resultado dos DNAs.
Fernando Henrique, que assina uma das notificações – a outra é assinada por uma secretária do 
Instituto Fernando Henrique Cardoso –, não respondeu. Em janeiro de 2015, ele concluiu a compra 
de um apartamento para Tomás, por 200 mil euros, perto da Universidade de Barcelona, onde o 
jovem faz pós-graduação.
Telefonei para Tomás, mas ele não quis falar. Disse que um dia, quando “tudo isso passar”, poderia 
dar entrevista. Procurei também Fernando Henrique Cardoso. A chefe de gabinete do Instituto FHC, 
Helena Maria Gasparian, retornou minha ligação e disse que tentaria marcar uma conversa. Caso a 
entrevista pessoal não fosse possível, propus enviar perguntas por escrito, mas não tive resposta.
Mirian diz que hoje estuda processar o ex-namorado, por danos morais, particularmente porque diz 
que sempre quis fazer o exame de DNA, mas ele recusou.
— Na maternidade, quando Tomás nasceu, ele me telefonou e eu disse que ele deveria fazer o DNA. 
Ele não quis, esperou meu filho ficar maior de idade e estar bem longe de mim – quando o exame foi 
feito, Tomás estudava nos Estados Unidos, com dinheiro de Fernando Henrique Cardoso.
Segundo Mirian, foi Fernando Henrique quem contou a Tomás que o resultado do DNA deu 
negativo. “Ainda que fosse verdade, e não é, ele deveria conversar comigo primeiro e depois falar 
com o Tomás”, diz.
A tragédia da família Dutra se mistura a situações em que é difícil separar o assunto público do 
privado. Nos anos em que considera seu exílio na Europa, com salário da Globo e o dinheiro de um 
contrato fictício da Brasif, ela teria questionado Fernando Henrique quando a Brasif, empresa 
concessionária do governo federal, parou de transferir dinheiro – eram 3 mil dólares por mês.
— O Fernando Henrique disse: é claro, eu coloquei 100 mil dólares lá, e esse dinheiro já acabou.
A família não deixou de receber recursos, mas a Brasif, segundo Mirian, deixou de ser o canal. Ela 
diz guardar todos os registros de transferência de dinheiro – da Brasif e de outros meios — e é o que 
pretende entregar à Polícia Federal. Seu depoimento foi marcado para 7 de abril, em São Paulo.
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