terça-feira, 29 de março de 2016

O TELEFONEMA DE BONNER PARA GILMAR


Otário Bonner; desde cedo sem noção. ‘Vai decidir alguma coisa de importante hoje? Mando 
ou não mando o repórter?’

por Paulo Nogueira

“Vou dar um exemplo que me chocou. Fui a uma reunião de pauta do Jornal Nacional, e o William 
Bonner liga para o Gilmar Mendes, no celular, e pergunta. ‘Vai decidir alguma coisa de importante 
hoje? Mando ou não mando o repórter?’. ‘Depende. Se você mandar o repórter, eu decido alguma 
coisa importante.’”
É um trecho de um livro de um professor da USP, Clóvis de Barros Filho. O nome é Devaneios sobre 
a atualidade do Capital.
Barros fez parte de um grupo de acadêmicos convidados a presenciar, uns anos atrás, uma reunião de 
pauta do JN. A parte do livro em que ele descreve o diálogo jornalística e juridicamente criminoso 
narra o que, segundo ele, são as relações espúrias entre braços diversos da plutocracia nacional para 
a manutenção de mamatas e privilégios de uns poucos.
Candidamente, Barros Filho se declara “chocado”.



Jornalismo à Globo
O que mais me chama a atenção é que Bonner não tenha se dado conta da monstruosidade que estava 
cometendo na frente de testemunhas.
É uma demonstração do tipo de jornalista que a Globo criou ao longo dos anos.
O pior pecado depois do pecado é a publicação do pecado, escreveu Machado. Bonner cometeu o 
pecado e o publicou sem pudor.
Note que a missão do JN estabelece que se deve publicar o que de mais relevante aconteceu no dia, 
no Brasil e no mundo, com isenção.
Isenção, nos Planetas Bonner e Globo, é telefonar para um juiz visceralmente comprometido 
politicamente e combinar o que será ou não será notícia para milhões de desavisados que, em sua 
ingenuidade obtusa, acreditam que o Jornal Nacional publica verdades.
Penso em Bonner e lembro de Johnson, presidente americano que não hesitava em chamar 
subordinados para despachar quando estava na privada. Agia como se estivesse no Salão Oval, ou 
coisa parecida.
Figurativamente, Bonner estava na privada quando, diante de acadêmicos, ligou para Gilmar para 
combinar o que seria, ou não, assunto para o Jornal Nacional.
Se o despudor e a falta de noção de Bonner podem surpreender, de Gilmar não se espera nada de 
decente.
É um juiz vergonhoso. É uma infâmia vestida de toga. É um homem sem caráter que não hesita em 
levar sua militância política para a corte mais alta do Brasil.
Na linguagem do futebol, Gilmar seria aquele juiz tão canalha que, numa partida, não se contentaria 
somente em apitar para o seu time. Vibraria, também, a cada gol marcado.
O futebol se livrou de juízes como Gilmar.
Quando o Brasil se livrará, em suas cortes, de militantes políticos que desmoralizam a Justiça e 
colocam em risco o próprio sentido da democracia e do Estado de Direito?
Gilmar, nestes dias, foi conspirar abertamente pelo golpe em Portugal, junto com seu miquinho 
amestrado Toffoli.
Ninguém fala nada?
Colegas seus do STF, sabe-se, manifestaram seu agrado. Mas aos sussurros, e não aos berros, como o 
episódio demandava.
O que bons juízes como Teori e Barroso parecem não perceber é que se omitir diante de Gilmar é 
dar-lhe força e contribuir para a tenebrosa imagem da Justiça brasileira.
Há muitos anos Gilmar, cria de FHC, deveria ter sofrido impeachment. Que, ainda que com 
formidável atraso, isso ocorra no futuro próximo, ou teremos a mais boliviana das Justiças do mundo.
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