quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Quem virá a ser o Podemos ou o Syriza do Brasil?



Por Renato Rovai

A crise política e econômica que reorganizou a representação partidária na Espanha e na Grécia 
ainda não chegou ao Brasil, mas isso não quer dizer que não virá. Há muitos elementos indicando 
que o ciclo PT x PSDB liderando frentes mais à esquerda e mais à direita, que se iniciou em 1994, 
está em crise. E que há espaço para novos partidos com projetos conectados às novas demandas de 
participação.
Na Espanha, essa renovação não veio apenas pela esquerda, com o Podemos, mas também mais à 
direita, com o Ciudadanos. Somados esses dois partidos tiveram quase 35% dos votos dos Espanhóis 
na recente eleição presidencial. O PP e o PSOE, que antes tinham mais de 80%, ficaram com 51%.
O Podemos, porém, foi a grande novidade. Teve 5,2 milhões de votos contra 5,5 milhões do PSOE, 
indicando que está prestes a tomar da mais que centenária sigla socialista, que foi fundada em 1879, 
a hegemonia no campo da esquerda.
E por que o Podemos conseguiu ir tão longe, como também o Syrisa na Grécia?
Fundamentalmente porque as siglas tradicionais de esquerda e centro-esquerda desses países se 
distanciaram de suas bases populares, optando por fazer política de forma tradicional e ignorando 
demandas de participação que tocam principalmente a juventude.
E o PT no Brasil está seguindo pelo mesmo caminho.
A presidenta Dilma, por exemplo, coloca como meta a idade mínima na previdência sem tomar o 
cuidado de conversar com a base sindical que lhe garantiu virar o jogo nas manifestações pró e 
contra o impeachment de dezembro.
A direção do PT por seu lado, ao invés de fazer um amplo debate sobre a crise que vive para 
construir novos rumos prefere alardear que tem recebido mais filiações nos últimos meses.
Lula, que ainda é disparado a maior liderança do país e que poderia dar uma virada de mesa para 
renovar o partido, não parece ter ânimo para fazê-lo. Prefere os profissionais de sempre a arriscar 
com gente que poderia tirar a sigla dos vícios que estão lhe desmoralizando em praça pública.
Neste cenário, há um estrada livre para que partidos como o PSoL e a Rede viessem a crescer. Ou 
ainda para que movimentos que estão se iniciando, como o Raízes, ocupassem mais espaços. Mas ao 
que parece esse crescimento irá acontecer, mas não ameaçará, nesta eleição, a hegemonia do PT no 
bloco político mais à esquerda.
Com exceção do Rio de Janeiro, onde se tornou um partido mais conectado a bases populares, 
principalmente de movimentos de juventude, o PSoL no resto do país ainda é muito burocratizado e 
refém de grupos de esquerda com baixa representação e um excesso de radicalidade pouco 
produtivo. Isso acaba impedindo que pessoas que gostariam de fazer parte de um novo projeto não 
enxerguem no PsoL um caminho. O PSOL está mais para a Esquerda Unida do que para o Podemos. 
E por isso tende a não ocupar espaços institucionais como o Podemos conseguiu na Espanha.
Já em relação a Rede, o buraco é mais em cima. Não é a base do partido que assusta alguns 
movimentos que hoje já estão descontentes com o PT, mas o excesso de personalismo de Marina, 
que até ouve muito, mas que, segundo seus próprios aliados, costuma decidir tudo sozinha.
Marina, aliás, tinha como seu grande interlocutor na última eleição o ex-deputado tucano Walter 
Feldmann. Hoje, Feldmann é secretário-geral da sacrossanta CBF. Marina ouvia muito mais ele do 
que aqueles que tinham sonhado com ela os primeiros caminhos desde sua saída do PT.
Ou seja, enquanto a Rede for mais Marina do que Rede, ela não será um caminho de muitos.
Quanto ao Raízes, que tem na deputada Luíza Erundina e em Célio Turino seus principais 
mobilizadores e entusiastas, ainda é cedo para dizer algo. A despeito de Erundina ser uma das 
pessoas mais queridas pelas bases de esquerda, para que um partido se consolide ele precisa 
mobilizar a juventude e ter forte base social. E o Raízes ainda não sinaliza essas potencialidades.
O PT ainda pode se renovar e voltar a reencantar?
É muito difícil, mas seria possível se viesse a entregar todas as suas direções aos movimentos. Ao 
invés de ser um partido de mandatos, voltar a ser um partido dirigido pelas bases.
Isso é algo quase impossível. Mas seria o único movimento que lhe daria um novo fôlego. Se 
sindicalistas, líderes de habitação, educação, de bases agrárias, de coletivos culturais e de jovens 
tivessem de fato poder em todas as instâncias.
E se os parlamentares, prefeitos, governadores e mesmo a presidenta tivessem de voltar a construir 
seus mandatos a partir das bases. E se os mandatos dessa nova burocracia só pudessem ser renovados 
por uma única vez na direção, independente do cargo.
Isso poderia tirar o PT do estado atual, mas muito dificilmente virá a ocorrer.
E por esse motivo, há um espaço aberto para um novo projeto político no Brasil. Que pode vir a ser 
incorporado tanto pela Rede, quanto pelo PSOL, Raízes ou até vir a fazer parte da reinvenção do PT. 
Mas ao que tudo indica ainda está por ser gestado. E ocorrendo pode incorporar muito de tudo o que 
já está por aí de novas ideias e novas formas de militância.
Este novo projeto para ser de fato popular terá de vir de baixo. Ser construído não em acordos 
institucionais, mas a partir de movimentos reais da sociedade.
Se isso vier a acontecer pela esquerda, certamente acontecerá também pela direita. Que hoje já tem 
novas caras que não fazem parte do baralho partidário vigente.
Ou seja, quem estiver apostando em um 2018 parecido com 2014 pode quebrar a cara. Ainda há 
muita água para rolar por debaixo da ponte das futuras disputas eleitorais.
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