segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Fórum Social Mundial, 15 anos, volta a Porto Alegre e discute mudança de ciclo na esquerda


Evento pouco lembrará suas primeiras edições, com menos palestrantes famosos e mais debate 
sobre futuro de movimentos sociais e utilização de recursos naturais 

Quinze anos após o primeiro Fórum Social Mundial, em 2001, Porto Alegre sediará, a partir desta 
terça-feira (19), uma nova edição do evento para discutir o futuro da esquerda mundial em meio à 
crise.
O clima pouco lembrará a edição de 2003 do fórum, também em Porto Alegre, que reuniu 100 mil 
pessoas no primeiro ano do governo de Luiz Inácio Lula da Silva acreditando que "um outro mundo 
possível" seria construído. Em 2016, o fórum espera ter, no máximo, 20 mil participantes, em meio à 
crise de governos eleitos pela esquerda na América Latina.
O empresário Oded Grajew, um dos idealizadores do fórum, diz que o evento deste ano marcará um 
ciclo da esquerda fechando e outro se abrindo, no Brasil e no mundo. O que se fecha é "a ideia de 
que é só eleger alguém que os governos vão resolver alguma coisa". O que se abre mostra que "não 
dá para confiar que o governo fará aquilo que prometeu, é necessário participar mais da gestão".
Eis um resumo do que mudou e o que permaneceu nos 15 anos de Fórum Social Mundial.
Relação com o PT
O Fórum Social Mundial é um espaço de reunião de temas e correntes políticas diversas e não se 
compromete com um partido específico, mas suas primeiras edições, de 2001 a 2003, em Porto 
Alegre, serviram de impulso para o projeto político do PT, que elegeu Lula em 2002.
O arquiteto Chico Whitaker, também idealizador do fórum, diz que o PT soube "aproveitar" o 
movimento de articulação de forças da sociedade civil das primeiras edições. Mas agora, diz, pessoas 
que ajudaram a eleger Lula "estão buscando entender" o momento político brasileiro.

"Há uma crise profunda, não só no Brasil, as pessoas estão 
meio perdidas e querem se encontrar, refletir em conjunto".
Oded Grajew Idealizador do Fórum Social Mundial

A situação do PT e do governo brasileiro será um dos temas discutidos no fórum, mas não é certo 
que a direção nacional petista aproveitará esse caldo, diz Tarso Genro, que era prefeito de Porto 
Alegre nas duas primeiras edições do evento. "Nossa direção é originária de uma crise partidária 
muito forte, não sei qual será o nível de aproveitamento de um evento como esse", diz.



Nomes famosos 
O modelo de trazer pensadores mundialmente famosos para falar a muitas pessoas ficou para trás. Se 
no começo da década o fórum tinha eventos disputados com nomes como Noam Chomsky, José 
Saramago e Eduardo Galeano, falando para multidões em ginásios esportivos, agora a prevalência é 
de mesas com representantes de movimentos sociais. Isso está ligado à perda de força do fórum, mas 
também a uma escolha de seus organizadores.
"As pessoas vinham para assistir aos intelectuais de esquerda fazerem a crítica do capitalismo. Hoje 
vemos os movimentos sociais vivendo no dia a dia o conflito direto com o sistema e pensando em 
alternativas", diz Mauri Cruz, diretor da Abong (Associação Brasileira de ONGs) e do comitê de 
apoio a esta edição do Fórum Social Mundial.
Cenário mundial e regional
O cenário político global que dá o pano de fundo deste Fórum é muito diverso do de 15 anos atrás, 
diz Tarso. "Aquele momento presumia um enfraquecimento do projeto neoliberal e projetava uma 
ascensão democrática e social em todo o globo, principalmente na América Latina", diz. O momento 
atual, afirma, é de reversão do cenário mundial e de "vitória da força normativa do capital financeiro 
sobre os Estados, com consequências para uma visão social da democracia".
Na América Latina, governos eleitos com apoio da esquerda foram derrotados ou enfrentam 
dificuldades. A Argentina elegeu Mauricio Macri, um presidente mais alinhado à direita, o governo 
de Nicolás Maduro, na Venezuela, perdeu o controle do parlamento, e no Brasil a presidente Dilma 
Rousseff enfrenta a ameaça de impeachment. Os três países também devem registrar recessão 
econômica neste ano.
Contraponto a Davos
As primeiras edições do Fórum Social Mundial foram organizadas no final de janeiro para coincidir 
com a data de realização do Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, que reúne líderes do 
empresariado global e políticos. Essa regra foi alterada em algumas edições, entre outros motivos 
para evitar o inverno nos Fóruns Sociais realizados no hemisfério norte, mas vale em 2016. "O 
Fórum Social Mundial nasceu para ser a contraposição a Davos. Escolhemos a mesma data para que 
as pessoas mostrem qual é a sua escolha de visão de mundo", diz Grajew.
Em 2003, Lula, recém-empossado presidente, falou para uma multidão em Porto Alegre. Em 
seguida, voou para Davos. Grajew conta que se opôs. "Disse ao Lula que ele tinha que escolher entre 
os dois: 'misturar não dá certo, vai contaminar'. O Lula ficou bravo. Mas dito e feito", disse. 
Ele lembra que o empreiteiro Marcelo Odebrecht, preso desde 19 de junho de 2015 no âmbito da 
Operação Lava Jato, era um dos representantes do Fórum Econômico Mundial no Brasil. "A escolha 
de Lula em ir aos dois eventos no mesmo ano tem as sementes da crise atual", diz Grajew.
Meio Ambiente
A pauta ambiental terá mais força neste ano do que nos primeiros fóruns, diz Grajew. "Hoje está 
mais claro que os recursos do planeta são finitos e que o crescimento não pode ser ilimitado", diz. O 
desastre ambiental de Mariana (MG) será um dos temas discutidos.

"A mudança climática não é mais uma tese, estamos vivendo 
ela todo dia e o tema da energia limpa está mais forte"
Mauri Cruz Integrante do comitê de apoio ao Fórum Social 
Mundial Políticos no evento

Neste ano é esperada a presença de pelo menos dois ministros do governo federal, Miguel Rosseto
(Trabalho e Previdência) e Nilma Lima Gomes (Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos). A 
Fundação Perseu Abramo, do PT, pretende levar a debate, com apoio do PC do B, o tema do pedido 
de impeachment contra a presidente Dilma, sob a ótica de que o processo em curso seria um "golpe". 
Além de Tarso, participam Olívio Dutra, também ex-prefeito de Porto Alegre, e Fernando Haddad, 
prefeito de São Paulo, entre outros integrantes da legenda.
O movimento Raiz, ligado à deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP), organiza um evento para 
discutir sua plataforma política. O PSOL realiza seminário sobre conjuntura internacional com 
Luciana Genro, Vladimir Safatle e Gilberto Maringoni. O Nexo indagou à Rede Sustentabilidade se 
realizaria evento no fórum deste ano, mas não obteve resposta.
Números
5 mil inscritos até sexta-feira (15)
180 palestrantes convidados pela organização
92 palestrantes internacionais de 60 países
470 mesas de debate e atividades
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