sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Gilmar diz que Temer seria "bom presidente", e vice defende semiparlamentarismo


Questionado, nesta sexta-feira (11), sobre as condições de Michel Temer (PMDB) para o 
exercício da presidência da República, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar 
Mendes, disse que o vice é um dos mais "qualificados" e que seria um "bom 
presidente". Durante a palestra, Temer, que na visão do governo Dilma está engajado no 
impeachment em benefício próprio, emitiu sinais ao empresariado e ao Congresso, ao defender 
uma gestão que faça mais pela iniciativa privada e a adoação de um sistema 
semiparlamentarista. Por coincidência, o jornal O Globo publicou artigo defendendo menor 
poder da presidência da República e maior influência das Casas hoje comandadas por 
Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Segundo Temer, com o semiparlamentarismo, o 
"Congresso passaria a atuar efetivamente junto ao governo e não teríamos os problemas que 
vivemos hoje".

O semiparlamentarismo de Temer é o próprio mapa do 
inferno 

Se a história repete em ciclos, a eventual ascensão de Michel Temer será o desfecho que faltava para 
a saga da Nova República repetir a da República Velha: a ampliação do quadro de desagregação 
política, econômica e social, com o Parlamento sem rumo disputando pedaços do orçamento, com a 
sofreguidão do último baile da República.
Na palestra na inauguração do IDP (Instituto Brasiliense de Direito Público), Michel Temer 
escancarou a moeda de barganha com o Congresso que, aliás, já tinha sido antecipada por Delfim 
Netto em entrevista concedida ao Brasilianas – e ainda não levada ao ar. Trata-se de acenar com a 
divisão do bolo orçamentário com os parlamentares, proposta que, se levada ao pé da letra, liquida 
com o conceito de nação do país. Assim: se vocë ficar do meu lado, garanto recursos para as 
emendas que você apresentar.
Um dos maiores desafios políticos brasileiros, ao longo de toda a República, foi a dificuldade em 
submeter o orçamento a uma lógica nacional, colocando-o a salvo das demandas paroquiais dos 
parlamentares.
Tem sido assim desde a República Velha. O político é eleito e pretende atender às demandas de sua 
base e de seus financiadores. O território onde se dá esse embate é o orçamento. Quando não existe 
uma pauta política agregadora ou limites constitucionais, cada parlamentar tratará de pegar seu 
quinhão esfrangalhando com as contas públicas e comprometendo a unidade administrativa, os 
grandes pontos de atuação do Executivo federal, os gastos em educação, saúde, habitação etc.
Justamente por isso, os Constituinte de 1988 trataram de blindar o orçamento com as destinações 
constitucionais obrigatórias.
No governo Fernando Henrique Cardoso houve a primeira concessão ao fisiologismo orçamentário, 
permitindo as emendas parlamentares, mesmo assim sujeitas a contingenciamento. E, ainda assim, 
criou o maior espaço de barganha e corrupção do parlamento.
O aceno de Temer aos parlamentares é curto e grosso: me apoiem e iremos– o Executivo e o 
Congresso – repartir o orçamento. Para tanto, o primeiro passo será acabar com as vinculações 
obrigatórias – os gastos com saúde e educação.
Caso a manobra do impeachment seja bem-sucedida, haverá o seguinte quadro:

1. Aprofundamento da recessão devido às turbulências políticas da travessia.
2. Redução drástica dos gastos sociais do orçamento.
3. Como consequência, desmantelamento das redes de proteção social, dos investimentos em 
educação e saúde.
4. Aprofundamento da política ortodoxa do Banco Central.


Tudo isso em um quadro de profunda desorganização econômica e radicalização política, com metade do país considerando golpe o impeachment.
É o próprio rascunho do mapa do inferno.
Se o movimento do impeachment prosseguir nessa toada, e for bem-sucedido, se terá o caminho aberto em 2018 para uma liderança com viés autoritário.
Primeiro, a radicalização do próprio gabinete Temer, já que explodirão manifestações sociais por todo o país. Depois, sua própria deslegitimação política para colocar em prática as barganhas políticas oferecidas aos parlamentares. Finalmente, pela ascensão de uma candidatura radical para acabar com o banquete.
Gradativamente, os movimentos de Temer vão legitimando a atuação de Dilma Rousseff. Com todos seus erros, trata-se ainda de um ponto de resistência ao desmantelamento do próprio conceito de Nação.
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