Há que se lembrar que, na realidade, o fim de ciclo dos governos ditos progressistas na
América Latina inciciou-se com a consistente derrota dessas forças no Brasil nas eleições para
o Congresso em 2014. A partir dela, as limitações, as insuficiencias e os erros estratégicos do
assim chamado "progressismo" latino-americano passaram a tornar-se cada vez mais patentes.
Venezuela: ares de fim de ciclo
Por Roland Denis no Diagonal, de Madri
De acordo com todas as pesquisas, a oposição de direita na Venezuela ganharia as eleições legislativas do próximo dia 6 de dezembro por maioria absoluta. Durante mais de 14 anos, o chavismo desfrutou de ampla maioria parlamentar. Hoje, a menos de um mês das eleições, o panorama poderia mudar completamente. A velha direita, encarnando como nunca os valores e desejos mais conservadores e reacionários da sociedade, vai tomar as rédeas do poder legislativo. Isso evidencia um imenso fracasso das forças políticas que comandaram a aposta por um governo revolucionário nos últimos 16 anos, e, muito particularmente, é o fracasso dos herdeiros do comando político após a morte do presidente Hugo Chávez.
A explicação mais corrente está diretamente ligada à deterioração vertiginosa do nível de vida, produto do desfalque provocado pela cumplicidade entre setores bancários, importadores e governo que, em menos de oito anos, dilapidaram 250 bilhões de dólares em reservas, não menos que 10% deles diretamente roubados pelas empresas “de carteira” [empresas de fachada, fictícias] que essa nova burguesia se dedicou a criar nesses anos. Resultado: a maioria da população responde com o voto de castigo, a favor da oposição, sem dar maior importância a que projeto de país está apostando com o seu voto. À população venezuelana, de maneira análoga ao que vem ocorrendo na Grécia, ainda que por outros caminhos, lhe coube pagar em massa, com seu trabalho, aquilo que essas máfias políticas, empresariais e militares saquearam da nação. Isso é percebido cada vez mais claramente pelas massas trabalhadoras, apesar da retórica e da propaganda de um governo que bota toda a culpa em uma genérica e indecifrável “guerra econômica” movida pelos setores capitalistas apoiados pelos Estados Unidos.
Estupidamente, o governo de Nicolás Maduro buscou vitimizar-se como fosse possível, para tapar o que se torna por demais óbvio: sua incapacidade de bloquear o apetite bilionário de apropriação da riqueza pública por parte de setores ligados às facções políticas, empresariais e militares que souberam ascender por dentro dos labirintos do governo e da apropriação da renda petrolífera.
Partilha mafiosa
Há uma razão material muito clara, que termina favorecendo politicamente a oposição ligada a setores empresariais que, em geral, fazem parte dessa partilha mafiosa da renda do petróleo. Não se trata de una oposição alternativa, mas da outra cara de uma mesma besta, agora vangloriando-se abertamente dos valores conservadores e reacionários que defende. Por conta disso, o voto apaixonado que em outro momento Hugo Chávez ganhou para si, dessa vez não será mais que um voto sem sabor nem paixão, de uma população enormemente desesperançada.
A essa razão material se somam problemas bem mais profundos, que nos situam, uma vez mais, no fracasso da opção meramente burocrática pela libertação. O processo venezuelano produziu as condições de irrupção inicial de uma grande “ternura” social. É o que se poderia chamar de triunfo da “razão carinhosa” [“razón muñequera”: a tradução literal seria “razão bonequeira”], a daquelas artesãs que nos povoados do interior do país, se dedicam a fazer, com toda ternura e criatividade, a partir de retalhos de pano, bonequinhas que tanto fascinam as crianças e os adultos. Esse sujeito que se esconde por trás desse artesanato cândido encarna aquela solidariedade natural da nossa sociedade. O movimento popular e boa parte da sociedade se seduziu com este espíritonaïf, amoroso e ao mesmo tempo combativo. De fato, grande parte da devoção que milhões de pessoas manifestaram a Chávez tinha a ver com essa ternura e com a alegria que despertava.
Com una personalidade marcadamente distanciada do autoritarismo e da burocracia, o presidente dos venezuelanos era um fazedor de sonhos, do mesmo modo que nossas artesãs de bonecas. Tudo isso veio abaixo no momento em que se acreditou possível seguir adiante com essa “razão carinhosa” sem tocar de verdade nos interesses dominantes dentro e fora do Estado. Chávez morreu sem se atrever a fazê-lo. Morreu sua autoridade necessária, sem matar o autoritarismo, a corrupção e a implacável lógica de Estado. A ternura foi desmoronando, e é então substituída por uma brutal reminiscência da “razão individualista”, causa direta da transferência do voto para uma direita recalcitrante, coalhada de protofascistas, neoliberais e proamericanos.
Assim, o chavismo profundo e fecundante morre, para ser substituído por um espetáculo niilista e vazio, característico da mitificação de personagens e histórias heroicas, fabricada pelos atuais autocratas herdeiros do trono estatal.
E o que vem depois? Se a direita conquista o poder legislativo, se aprofundará una crise já presente na administração política e econômica, junto a uma tendência divisionista tanto na direita como no chavismo, que nos levará outra vez ao ponto zero dessa história. Claro que, em sua lógica imperial, os Estados Unidos aproveitarão a oportunidade para pôr o país contra a parede e utilizar a legitimação do voto direitista para forçar um acordo nacional entre governo e oposição que favoreça os seus interesses. Ou, do contrário, promoverão ainda mais violência, nos termos da lógica da guerra civil global que vêm aplicando. As resistências sociais, produto da pouca acumulação de forças que se consolidou nesses anos, serão frágeis demais para enfrentar logo de cara uma situação tão grave.
Assim, o porvir imediato parece bastante obscuro. No entanto, o Caribe tem sua magia, e as artesãs de bonecas ainda não morreram. Dizer que ficamos no zero pode servir, antes, de fundamento e lição para tentar mobilizar as energias que o Estado e seus burocratas conseguiram bloquear há pelo menos dez anos. Em todo caso, já não há garantia alguma quando o ressentimento e a desesperança ganharam tanto terreno. Um ciclo histórico termina e já veremos o que nos aguarda. Esse é um fenômeno que começa a se alastrar em toda “Nuestramérica” com o declínio das burocracias de esquerda. Ainda assim, os povos seguem seu caminho libertário.
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