segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O protesto no velório e a tolerância ilimitada que leva ao fim da tolerância



por : Kiko Nogueira

Ninguém jamais terá a desculpa de dizer que não viu o monstro crescer.
A pregação do ódio no Brasil atingiu um novo pico na escala de barbárie com os panfletos atirados 
no velório do ex-senador do PT José Eduardo Dutra, em Belo Horizonte.
Ocupantes de uma Saveiro preta jogaram os papeis. Havia policiais de plantão. Antes do ataque, o 
carro passou três vezes pelo local, afirmam testemunhas. Ainda assim, a PM afirma que não viu 
nada. Ok.
Um protesto também aconteceu ali. Um sujeito chamado Cipriano de Oliveira, aposentado de 60 
anos, resumiu o espírito de porco ao Estadão: “Qualquer momento é momento de mandar um 
bandido embora. Até no enterro da minha mãe eu faria isso”.
Submetida a uma dieta de ressentimento, desinformação e indignação seletiva, essa escumalha 
passou a considerar aceitável socialmente conspurcar um enterro e humilhar os familiares e amigos 
do morto.
Eles são “gente do bem”, segundo a definição imortal do líder dos Revoltados On Line, Marcello 
Reis, um mussolini para os nossos tempos.
Isso não os choca porque eles estão acima do bem e do mal. Não é força de expressão: uma pesquisa 
daempresa britânica YouGov com 1,646 homens e mulheres constatou que direitistas se acham 
moralmente superiores.
De acordo com o estudo, 47 daqueles que se descrevem como sendo de direita se declaram seres 
humanos melhores do que o cidadão médio (contra 39% de sedizentes esquerdistas). O levantamento 
também revelou que são mais propensos a acreditar que certas pessoas “nascem más”.
Os depravados que atacaram uma cerimônia fúnebre têm um nome: fascistas. Como lidar com eles?
Para começar, não é com “republicanismo”. Aquilo não faz parte do “debate político”. O filósofo 
Karl Popper escreveu o seguinte:
“A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada 
mesmo para aqueles que são intolerantes, e se não estivermos preparados para defender uma 
sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos e a 
tolerância com eles.
Esta formulação não implica que devamos sempre suprimir as filosofias intolerantes, contanto que 
possamos combatê-las com argumentos racionais e mantê-las sob controle da opinião pública.
Mas devemos reivindicar o direito de suprimi-las, se necessário até mesmo pela força, e isso pode 
facilmente acontecer se elas não estiverem preparadas para debater no nível de argumentação 
racional, ao começar por criticar todos os argumentos e proibindo seus seguidores de ouvir 
argumentos racionais, pois ela é uma filosofia enganosa, ensinando-os a responder a argumentos com 
uso de punhos ou pistolas.
Devemos, portanto, reivindicar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar os intolerantes. 
Devemos enfatizar que qualquer movimento que pregue a intolerância deva ser colocado fora da lei, 
e devemos considerar a incitação à intolerância como criminosa, da mesma forma como devemos 
considerar a incitação ao assassinato, ou sequestro, ou a revitalização do comércio de escravos como 
criminosa”.


Gente de bem
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