POR FERNANDO BRITO
O repórter Marcelo Auler, com o zelo e a honradez que um bom profissional deve ter, desculpou-se
ontem em seu blog por não ter registrado na matéria que publicou este final de semana na
CartaCapital a resposta que pediu à Polícia Federal sobre a investigação das 100 horas de gravação
obtidas com a escuta instalada na cela do doleiro Alberto Youssef.
É que a resposta chegou após ele ter enviado a matéria à revista e como nós, trabalhadores solitários,
É que a resposta chegou após ele ter enviado a matéria à revista e como nós, trabalhadores solitários,
por vezes conseguimos nos descolar por poucas horas do computador, só a viu quando a revista já
estava impressa. Não teria maior significado, porque a PF não dá resposta alguma sobre as fitas,
alegando que “a sindicância (…) encontra-se em andamento em segredo” e que, portanto, não pode
informar nada.
Não pode informar nada? Ou só o que esteja de acordo com os interesses do grupo de delegados da
Lava Jato acusados de produzir o “grampo” ilegal.
Como sou leitor atento do que Marcelo escreve, sempre com profusão de documentos, fui ler o e-
Como sou leitor atento do que Marcelo escreve, sempre com profusão de documentos, fui ler o e-
mail que Auler enviou à PF e a resposta da instituição, publicada em sua página oficial na internet.
E, incrível, a Polícia Federal responde ao que o repórter não perguntou ou sequer mencionou em seu
e-mail.
Explico: Auler não fez qualquer menção, em seu pedido, sobre o organograma feito pelo chefe da
Explico: Auler não fez qualquer menção, em seu pedido, sobre o organograma feito pelo chefe da
Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado do Paraná, Igor Romário de Paula, que é
mencionado no depoimento do delegado Mario Henrique Castanheira Fanton, que acusa os colegas
de terem plantado a escuta na cela de Alberto Youssef.
No seu depoimento ao juiz Sérgio Moro, gravado em vídeo, Fanton diz que “o delegado Igor, um
No seu depoimento ao juiz Sérgio Moro, gravado em vídeo, Fanton diz que “o delegado Igor, um
certo momento, depois que eu colhi o depoimento da Nelma ( Kodama, a doleira), ele fez um
organograma criminoso de todas as pessoas que estariam por trás desta investigação do 737 para
poder macular a imagem da Operação Lava Jaro; E ali ele colocou várias pessoas que não fazia
nenhum sentido para mim, porque não tinha nenhuma prova, nenhum indício material de prova
contra aquelas pessoas. Ele começou a sugerir nomes ali – e ele fez isso de maneira manuscrita – e
que comprometia as pessoas”.
E, em depoimento à CPI da Petrobras, ainda mais explicito, dizendo que organograma lhe foi
entregue pelo Igor, com a recomendação: “Estas são as pessoas envolvidas na possível confecção de
um dossiê, as pessoas que você deve investigar”.
É de supor, portanto, que o organograma é prova – seja verdadeiro ou não – invocada em
É de supor, portanto, que o organograma é prova – seja verdadeiro ou não – invocada em
depoimento e entregue aos sindicantes da Polícia Federal.
Marcelo observa, cautelosamente, que “é curioso” que a “resposta da PF a uma pergunta que não
fez” seja a de que “o hipotético organograma” em questão não “pertence a nenhum inquérito policial
ou procedimento administrativo” . Mais ainda, que o “desenho” – sem definição da autoria – revela,
na verdade “relacionamentos pessoais e profissionais existentes no Paraná” e que “não há nenhum
indicativo de que esse quadro de relações caracterize uma organização criminosa”
De fato, duas perguntas saltam aos olhos.
Primeiro, de onde a direção da Polícia Federal tirou a “resposta” a pergunta que não foi feita senão
Primeiro, de onde a direção da Polícia Federal tirou a “resposta” a pergunta que não foi feita senão
no e-mail enviado por Auler ao próprio Delegado Igor de Paula, no mesmo dia.
É o que Auler, pacientemente, registra:
“Por imaginar que esta questão ainda está sendo investigada pela Corregedoria Geral em
“Por imaginar que esta questão ainda está sendo investigada pela Corregedoria Geral em
Brasília, o questionamento sobre um organograma de pessoas que supostamente estariam
montando um dossiê contra a Lava Jato, revelação que a matéria da revista apresenta, não foi
dirigido à Comunicação Social do DPF. Foi feito, mais cedo, ao delegado Igor Romário de Paula,
chefe da Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado, por constar que o diagrama foi de
sua autoria.”
Estamos diante de um fato gravíssimo, agora envolvendo a direção da PF, que responde em nome de
uma das partes da investigação que está realizando? Comunica-se com ela e dá a sua versão como
sendo a da instituição? Decide que uma prova mencionada em depoimento oficial não deva fazer
parte de “nenhum inquérito policial ou procedimento administrativo”? Suprime provas, portanto?
Quem decidiu que o documento reproduzido na revista, sem perícia ou contestação de que tenha sido
produzido por quem se diz que produziu “não vem ao caso” nos procedimentos apuratórios?
O que se extrai da matéria e, sobretudo, do post de Marcelo Auler sobre o caso da “resposta da PF” é
O que se extrai da matéria e, sobretudo, do post de Marcelo Auler sobre o caso da “resposta da PF” é
que a operação-abafa sobre a escuta não apenas continua como está, deliberada ou involuntariamente
que seja, contando com a cobertura da alta cúpula da instituição.
A possibilidade – a esta altura já uma certeza – de que se instalou um grampo ilegal em plena
A possibilidade – a esta altura já uma certeza – de que se instalou um grampo ilegal em plena
carceragem de uma unidade da Polícia Federal não é um detalhe, é um crime.
E se a polícia é leniente com os crimes que acontecem dentro de suas dependências, praticados, em
E se a polícia é leniente com os crimes que acontecem dentro de suas dependências, praticados, em
tese, por seus servidores, vai-se esperar que ela seja rigorosa, isenta e imparcial em relação aos
outros?
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