quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O Banco Central tornou-se um solista sem maestro




Escolha um procurador e lhe entregue uma causa. Seu papel é o de condenar. Por isso tratará de 
realçar todos os indícios a favor e esconder todos os indícios contra. É da sua natureza.
Mire agora um repórter prestes a publicar a reportagem de sua vida. Ele espancará até a morte 
qualquer indício que possa, de longe, enfraquecer sua manchete.
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A economia precisa necessariamente de ser vista de forma sistêmica, assim como o organismo 
humano.
Um nefrologista não pode tratar da doença do seu paciente se não souber analisar as implicações do 
tratamento sobre seu organismo.
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O equilíbrio econômico é assim, depende da combinação correta de um conjunto de políticas: a 
tributária-fiscal, a monetária, a cambial, a salarial, todas interdependentes.
Dependendo das circunstâncias, prioriza-se alguma dessas políticas e as demais se ajeitam em torno 
da prioridade maior.
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Cabe ao Ministro-maestro compatibilizar as diversas políticas, afim de se obter o equilíbrio,
Em alguns momentos, esse papel foi do Ministro da Fazenda. Foi assim no governo Jango, com 
Celso Furtado, Castelo Branco, com Otávio Gouvêa de Bulhões, Médici, com Delfim Netto. Outras 
vezes pode ser o Ministro do Planejamento, como foi no governo Figueiredo, com Delfim. Mas tem 
que ter o maestro.
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O grande nó do governo Dilma é que não existe esse maestro.
Os analistas do Banco Central foram acometidos do mesmo fenômeno que afeta procuradores, 
delegados ou repórteres atrás do seu furo: não importa a busca da verdade (no caso da economia, do 
equilíbrio econômico) mas garantir o seu furo, a preponderância da política monetária.
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O pensamento dominante no Copom (Comitê de Política Monetária) é que se deve colocar a inflação 
na meta (4,5% em 2016) independentemente do custo fiscal e dos efeitos sobre o nível de atividade 
econômica.
Selic em 14,5%, em meio a um quadro recessivo que está apontando para uma queda do PIB 
próxima a 3%, cria a seguinte situação:
A receita fiscal vai para as profundezas, comprometendo qualquer veleidade de equilíbrio fiscal.
A relação dívida bruta/PIB explode.
Qualquer tentativa de reduzir o déficit, via cortes, aprofundará a recessão e colocará mais lenha na 
fogueira política.
O que o BC têm a oferecer a perder de vista é a redução do custo de rolagem da dívida quando a 
inflação cair. Os mortos que ficarem pelo caminho – dentro os quais o próprio governo Dilma – 
agradecerão.
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O problema é quem está acima, o maestro responsável pela coordenação de todos os instrumentos 
econômicos.
O Ministro da Fazenda Joaquim Levy não rege. Nem ousa discutir com o BC, como se a política 
monetária não tivesse nenhuma relevância para as metas fiscais.
E como Levy espera o início da recuperação da economia em alguns meses? Pela fé. Se o empresário 
acreditar que o governo conseguirá equilibrar as contas fiscais, imediatamente voltará a investir.
No primeiro semestre do ano, o número de consultas ao BNDES (Banco Nacional do 
Desenvolvimento Econômico e Social) caiu 47% devido às incertezas quanto à demanda futura.
Ou seja, ao empresário não basta acreditar que o ajuste fiscal será alcançado: o que o move é a 
convicção de que a demanda será recuperada.
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