segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O problema não é Cunha na Câmara; o problema é Dilma não ter base



Cíntia Alves

O deputado só explorou um território deixado à deriva pelo governo, que também não repara 
os danos à base há anos. Enquanto o PT e o núcleo duro do Planalto não superam a própria 
inércia, fica nas mãos do PMDB a saída da crise

De uma liderança petista da era Lula ao GGN:

Enquanto o PT e o núcleo duro do Planalto tentam descobrir como superar a própria inércia, o PMDB de Renan Calheiros e Michel Temer toma para si a construção da saída para a crise. “É pelas mãos desse grupo que o governo pode ter uma chance de chegar até 2018.” E, por hora, não há nenhum sinal que prove o contrário.
Pois até o fôlego conquistado por Dilma Rousseff nas últimas semanas tem mais digitais de agentes externos subitamente desinteressados no impeachment do que do próprio governo.
A força empresarial deu sinais de que não quer pagar para ver a dimensão do descontrole político e econômico que surgirá imediatamente após a deposição da presidente.
Os grandes grupos de mídia copiaram e reproduziram a mensagem aos leitores, furando a bola dos opositores políticos mais exaltados.
Lula entrou em campo e foi bem recebido por lideranças políticas experientes e respeitadas em Brasília, incluindo a cúpula do Congresso.
Esta, por sua vez, rachou entre as reações inflamadas de Eduardo Cunha, descompassado pela Lava Jato, e a postura propositiva de Renan Calheiros, que decidiu fazer o que o governo e o partido do governo não conseguem: apresentar uma agenda para o Brasil.
“São fatores externos que dão ao governo um minuto de respiro, porque ele mesmo não tem nenhuma condição de articulação política.” Fatores que não anulam as debilidades do centro político do governo.
Na semana passada, Renan publicou um artigo no qual esclarece que a Agenda Brasil não o transformou em governista. “Ele continuará agressivo, mas propôs uma agenda diferente da mídia e da oposição, que é Lava Jato, impeachment e crise econômica.”
Enquanto isso, o PT segue com “uma agenda totalmente divorciada da realidade da sociedade” e do próprio governo.
Há anos sem atualização programática e fora de sintonia com o Planalto, o PT também perde no jogo parlamentar.
“O problema não é só ter Eduardo Cunha na presidência da Câmara. O problema é o governo não ter base, o PT não ter liderança com voz para segurar as votações.”
Colocando assim, é possível até considerar que Eduardo Cunha foi "superestimado". Afinal, são muitos os que dizem que não existe um grupo atrelado fielmente ao presidente da Câmara, mas que este último soube canalizar com maestria os anseios dos deputados sem interlocução com o governo.
Aliás, a própria presidente diz que não perdeu batalhas significativas na Câmara.
Pelo regimento interno, a principal função do comando da Mesa Diretora é pautar os temas que necessitam de análise dos deputados. Tivesse o governo Dilma base para frear qualquer projeto que não lhe interessa, haveria derrotas?
O problema também é a base governista ter implodido ainda no primeiro mandato de Dilma, e ficado todo esse tempo sem reparos. Cunha explorou um território deixado à deriva. Temer e Padilha são bombeiros. Assumiram mais funções que deveriam ser do núcleo da Presidência, mas não são.
O problema - lamenta a fonte petista - é a frustração do PT, "que tem o governo, mas não tem agenda de governo." Nem perspectiva de quando discutirá uma. Confia quase que exclusivamente que Lula será o salvador do partido em 2018, vencendo a eleição em cima da memória das conquistas sociais que encantaram o Brasil no passado.
Nesse ritmo, crescem as chances da Agenda Brasil - ou parte dela - ser bem vista e o PMDB chegar na próxima disputa eleitoral como forte candidato a ocupar a terceira via, arrebentando com a polarização PT-PSDB. Senadores, deputados, governadores e prefeitos eleitos já possui. O que mais falta ao PMDB é um rosto, e ele está para ganhar novos.
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