João Roberto Marinho pediu encontro com os senadores do PT, na última quarta-feira. Dos
13, nove aceitaram. Durou quase duas horas. Ele abriu, dizendo-se muito preocupado com as
“maluquices” de Eduardo Cunha na Câmara, que não comprometem apenas o próximo
governo, mas o futuro do País; afirmou, ainda, que o que ele defende é que Dilma seja sucedida
por quem ganhar as eleições de 2018, ou seja, impeachment, não. Durante todo o tempo,
escutou as queixas dos senadores, um por um, sobre a parcialidade, os dois pesos, duas
medidas, as abordagens dos repórteres querendo declarações que apenas preencham a verdade
que já está pré-estabelecida, a repercussão nula do que os governos Lula e Dilma fizeram pelo
Brasil. Recados que foram dados a ele: 1) não mexam com Lula (todos estavam ainda muito
mordidos com a charge do Chico do dia anterior (“agora só falta você”), pois o Brasil pode
pegar fogo e eles não vão ser bombeiros; na mesma direção, não temos controle sobre nossa
base social e é imprevisível a reação que se virá ante uma hipotética prisão de Lula. Ele pediu
desculpas, “ou os senhores estão enganados, ou nós estamos errando feio”, comprometendo-se
a levar a avaliação geral dos senadores para os editores. Disse ainda que, realmente, a
cumplicidade entre jornalistas e procuradores de Curitiba, hoje, representa um fator de
instabilidade, mas jogou a culpa no PT, “que deu início a essa parceria”. Ao final, pediu para o
governo controlar sua base na Câmara.
por : Paulo Nogueira
A Globo não é exatamente original quando procura argumentos para suas atitudes.
O que a move é sempre um desses três fatores: dinheiro, dinheiro e dinheiro.
É dentro dessa premissa imutável que se deve buscar a grande questão que emergiu depois do editorial em que a empresa rompe com o golpe.
Em 1964, a adesão aos golpistas foi motivada por dinheiro. E isso veio em proporções monumentais.
Uma editora medíocre, com um jornal de segunda linha, virou o que virou com as mamatas dadas pelos militares em troca do apoio à ditadura.
Agora, a Globo perderia muito dinheiro – e provavelmente o futuro – se alinhando com os golpistas.
Não dando certo o golpe – e não daria – o risco era ver secar a verba multimilionária da propaganda federal.
Sem esse dinheiro, a Globo mingua. A internet já vai transformando-a em dinossauro. Sem o meio bilhão anual da propaganda das estatais, o seu Anualão, a Globo em pouco tempo se transforma numa Abril, uma morta-viva.
Para além disso, reforçando o fator monetário da virada, os Marinhos bobos não são.
Eles estão vendo o que aconteceu com a Abril quando decidiu partir para o valetudo para derrubar o PT.
A empresa respeitada e admirada que foi a Abril se tornou um símbolo nacional de abominação.
Não haverá volta para a Veja e para a Abril. A credibilidade e o respeito, quando perdidos, não se recuperam. É como virgindade.
E a Globo estava prestes a se transformar numa nova segunda Abril na guerra contra o PT.
Estava sendo perdido o controle.
O exemplo mais visível disso é a revista da casa, a Época. Com mudanças na direção, e a chegada de uma cria da Abril, Diego Escosteguy, a revista ficou tão infame quanto a Veja.
Semanalmente, as duas revistas estavam disputando quem cometia o maior número de canalhines e disparates editoriais.
Se a Veja anunciou a delação do homem da OAS como o fim do governo e de Lula, a Época deu na capa que Marcelo Odebrecht decidira delatar e a República, nada menos que isso, cairia.
Os fatos estão aí.
O gesto da Globo se explica e se encerra no dinheiro.
Muito se especulará sobre os detalhes que se traduzirão nisso – dinheiro.
Mas uma coisa é batata.
Os aloprados da Globo entenderam perfeitamente o editorial.
Assim como elevaram brutalmente o tom nos últimos meses, agora diminuirão na mesma proporção.
Roberto Marinho sabidamente gostava de papistas, gente que obedece sem restrições ao Papa.
Evandro de Andrade, chefe de jornalismo do Globo e depois da TV Globo, convenceu RM a dar-lhe o cargo com uma carta em que garantia ser papista.
Os irmãos Marinhos, como o pai, também gostam de papistas.
Dada a ordem contida no editorial, esperarão de seus aloprados, de Kamel a Merval, uma resposta imediata.
E eles sabem disso.
.........
Uma coisa me intrigou nas palavras de João Roberto Marinho aos senadores do PT num encontro confidencial noticiado pelo DCM.
É quando ele manifesta surpresa quando ouve que a cobertura das Organizações Globo é brutalmente desequilibrada contra o governo.
João, como é conhecido na Globo, é um sujeito afável, um bom ouvidor, como pude testemunhar nos anos em que trabalhei na casa.
Sabe reconhecer seus limites, o que é uma virtude. “Comecei no jornalismo, mas logo me dei conta de que não tinha talento”, me disse ele uma vez. “Fui para a área administrativa.”
É uma coisa rara este tipo de admissão.
Roberto Civita, perto de quem trabalhei anos, jamais reconheceu sua limitação como editor, com efeitos catastróficos para a Veja e para a Abril.
João comanda a área editorial da Globo, e é quem faz a ponte com políticos e empresários.
Ele passa a opinião da casa em reuniões semanais no prédio da Globo no Jardim Botânico, no Rio.
Dela participam os chefes das diversas mídias da casa. Numa ata, distribuída posteriormente aos participantes, ficam registradas as diretrizes sobre os assuntos discutidos, em geral os mais complexos da cena política.
Merval e Kamel, cada qual dum lado da mesa em que os editores se reúnem, falam muito, mas quem decide e define tudo, com sua voz baixa e mansa, é João.
Tudo isso posto, e considerado que é um homem inteligente, como João pode alegar surpresa diante da visão de uma Globo sem isenção nenhuma na cobertura política?
Palmério Dória, jornalista que produz máximas sagazes sobre a política e a mídia, arriscou uma resposta nas redes sociais.
João mostrou, segundo ele, que não vê, não lê e não ouve nada em sua empresa.
É uma boa tirada, mas não reflete a realidade.
A primeira coisa que ele lê, pela manhã, é o Globo. E depois segue na Globo, da CBN aos jornais televisivos. Certamente incorporou o G1 à sua rotina de leituras.
Isso quer dizer que ele está a par do conteúdo da Globo.
Como jamais me pareceu um cínico ou mentiroso, a hipótese que me ocorre é a de um descolamento da realidade.
Vi isso acontecer na Abril.
Em certas conversas sobre a Veja, Roberto Civita se defendia de minhas críticas falando de uma revista isenta que só existia na sua imaginação.
Em corporações como a Globo e a Abril, os donos correm o risco de se cercar de pessoas que dizem apenas o que eles querem ouvir.
Não consigo imaginar ninguém, nas reuniões de terças feiras, que fosse capaz de dizer: “João, acho que temos que equilibrar a nossa cobertura. Tamos batendo demais.”
Como, fora das empresas, os donos convivem com bajuladores, eles tendem a ouvir apenas louvações que os levam a ter uma ideia edulcorada do jornalismo praticado por seus editores.
Acredito que João de fato se surpreendeu com o diagnóstico negativo, pesadamente negativo, que ouviu dos senadores do PT.
Ele disse que iria transmitir as impressões imediatamente a seus comandados.
Pelo que soube, os resultados logo apareceram. Numa única edição do JN, me contam, foi dado espaço a Lula e Dilma.
Os editores da Globo não são bobos.
Aquela é uma empresa papista. O papa falou, acabou a discussão. Ou então você é simplesmente descartado. Perenes, ali, apenas os Marinhos.
Por isso, você deve esperar, daqui por diante, uma Globo que pelo menos fingirá alguma isenção.
Dado o descalabro dos últimos meses, será um avanço.
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